Açores, uma viagem ao centro da Terra

Entre as estrelas do céu e as estrelas do mar está o maior arquipélago português. Na ilha de Santa Maria está para ser construída a estação da primeira agência espacial portuguesa. A Terceira foi escolhida para acolher a sede da AIR Centre, uma rede internacional de cientistas que investigam o Oceano Atlântico – desde a órbita terrestre às profundezas do mar. No Faial, a NASA irá realizar treinos para explorar Marte. “Os Açores são a fronteira”, confirma António Câmara, professor catedrático na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e fundador do grupo tecnológico YDreams. O primeiro empresário a receber o Prémio Pessoa diz que “temos tudo para triunfar na exploração do mar e do espaço”.

Filipa Basílio da Silva

Entrevista com António Câmara Prémio Pessoa, Professor Catedrático na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, investigador no Center for Environmental and Sustainability Research (CENSE) e fundador do grupo empresarial tecnológico YDreams

Os Açores são a fronteira. Deviam posicionar-se como o novo Silicon Valley. Pessoalmente, gostava de lá criar uma mega cooperativa com todas as empresas portuguesas da área do mar e do espaço, a que chamaria Atlântida.

 

“As últimas fronteiras da ciência” Não perca o próximo Fronteiras XXI, dia 20 de Novembro às 22h30, na RTP3

 


 

O que o levou a criar a empresa Azorean?

A Azorean resulta de duas situações. A primeira é que a minha mãe era dos Açores e eu passei lá todos os Verões da minha vida, praticamente. A segunda é que, a dada altura, tivemos [YDreams] a oportunidade de colaborar em vários projectos no arquipélago e decidimos estabelecer-nos lá.

 

Porque é que decidiu contribuir para a exploração do fundo do mar?

Visitámos o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, no Faial, que tem uma experiência imensa e fez um levantamento de todos os problemas oceânicos. Muitos dos instrumentos que eles usavam para investigação científica eram fabricados por uma empresa norte-americana, que monopolizava o mercado. Nós achámos que conseguíamos fazer preços mais reduzidos. Além disso, percebemos que havia problemas complexos na exploração das grandes profundidades. A nossa zona económica exclusiva é uma das maiores da Europa e temos de lidar com vários desafios, como vigiar a pesca furtiva e o transporte de mercadorias ilegais.

 

Que soluções tecnológicas desenvolveram para lidar com esses desafios?

Precisávamos de veículos que conseguissem monitorizar uma área muito extensa e que fossem fáceis de recuperar e reutilizar, sem grandes custos, se houvesse algum problema. Para isso, criámos drones aquáticos onde aplicámos tecnologias como robótica, realidade aumentada, processamento de imagem, comunicação entre os drones e os nossos smartphones.

 

Já estão a ser usados para os fins que imaginaram?

Não [risos]. Até agora desenvolvemos sobretudo protótipos, que resultaram de muita investigação. Tem sido um processo longo e muito mais caro do que esperávamos. Trabalhar na água é completamente distinto de trabalhar em terra. Há muitos problemas a resolver. Esperamos em breve ter o apoio financeiro necessário para transformarmos os protótipos em produto rapidamente.

 

Quais as dificuldades que encontraram a trabalhar com o mar?

Os desafios são imensos. A exploração do fundo do mar comporta riscos que não estão ainda calculados. Se há áreas em que o impacto é reduzido, há outras em que as consequências podem ser trágicas. Temos de criar veículos capazes de lidar com pressões elevadas, veículos-robot autónomos com inteligência artificial e realidade aumentada que consigam recolher amostras para análise científica.  

 

A investigação decorrente da indústria espacial pode ajudar?

Terá de haver uma relação próxima com o espaço. Ao lado do nosso escritório está uma empresa que desenvolve soluções para a exploração espacial, a Omnidea. Eles criaram câmaras termais com alcance e raio de 250 Km, que ajudam a investigar as profundezas dos oceanos. Juntos imaginámos que, para se monitorizar uma área marinha tão extensa, vai ser necessário desenvolver plataformas nos Açores que recebam a informação do espaço e a transmitam aos veículos – alguns autónomos outros tripulados.

 

Os Açores parecem estar a gerar muito interesse, quer ao nível da exploração do mar quer do espaço.

Temos tudo para triunfar nesses domínios. Os Açores são a fronteira, sentimos a Terra a respirar. Os Açores deviam posicionar-se como o novo Silicon Valley, especialmente do mar. Pessoalmente, gostava de reunir todas as empresas portuguesas da área do mar e do espaço numa mega cooperativa, a que chamaria Atlântida. Cotava-a em bolsa e depois ia buscar todos os financiamentos necessários para investigação e desenvolvimento.

 

Não há formas mais rápidas de conseguir financiamento?

O capital de risco e os business angels são um modelo mais ortodoxo do que cotar em bolsa, mas exigem retorno entre cinco a dez anos. As empresas, sobretudo as tecnológicas, precisam de tempo para investigar e testar soluções diferentes. O futuro de Portugal no espaço e no mar passa muito por pensar nisso. É como na altura dos Descobrimentos: demorámos 50 anos a ter retorno. Nessa época havia uma visão. Precisamos da mesma lógica hoje. Não é o sistema de Silicon Valley que nos vai permitir fazer isso. São precisos grandes investimentos, porque há custos gigantes. Mas na exploração do mar os investimentos necessários são incomparavelmente mais baixos do que na exploração do espaço. Embora o espaço seja uma fronteira importante, penso que para os portugueses o mar é mais importante.

 

Então porque é que ainda se conhece tão pouco do fundo do mar?

Tem a ver com as políticas dos países. Mas o cenário actual, relacionado com as alterações climáticas, a nutrição e o estilo de vida, vão orientar-nos para o mar mais do que anteriormente. A parte espacial está a ser impulsionada por Estados e por superbilionários. Surpreende-me imenso, é um desafio enorme. Percebo a atracção pelo espaço, mas o mar também é muito atractivo e espanta-me que nunca tenha sido olhado da mesma forma.

 

Há quem defenda que esta nova corrida ao espaço vai beneficiar a Terra. Poluímos o nosso planeta e esgotámos os seus recursos e agora vamos procurar salvamento noutros corpos celestes. Somos os vilões nesta história?

Parece que sim [risos]. Há vários exames a fazer. Os EUA e os países que inspiram o mesmo estilo de vida têm um consumo e gasto de recursos completamente irracional. Com a população a aumentar vão ser precisos ainda mais recursos. Temos de mudar radicalmente de estilo de vida. Pensar que vamos encontrar uma alternativa melhor do que o nosso planeta é absurdo.

 

Temos um bom nível de literacia científica, em Portugal?

Não podemos dizer que seja elevada. Talvez tenha melhorado com a Internet. O ensino em Portugal não incentiva ao gosto pela ciência. Temos poucas aulas em laboratório. A este nível a Coreia do Sul é impressionante. Tem um programa curricular até ao 9.º ano de escolaridade em que os alunos aprendem a fazer óculos de realidade virtual, robots autónomos, satélites. Mas os nossos melhores alunos do secundário querem estudar e trabalhar em áreas de fronteira. Neste momento é o espaço, por isso seguem engenharia aeroespacial. Falta um curso que reúna muitas das valências necessárias para explorar o mar.

 

Existe ligação entre as universidades portuguesas e a indústria?

Pouca. Os critérios de promoção na carreira académica são: 60% publicações e citações, 30% ensino e 10% a relação com a indústria. Isto está associado à obsessão pelos rankings internacionais. Passámos a ter um estímulo para a quantidade em vez da qualidade e um incentivo quase nulo para a interacção com o mercado. No MIT, 20% dos professores criaram empresas. Aqui, no máximo 2%.

 

Somos um país pouco empreendedor?

Há 300 mil empresas e as startups tecnológicas são três mil. Portugal deve criar novas empresas, é vital. Os portugueses têm excelentes qualidades para serem empreendedores. Uma delas é a resiliência, capacidade rara noutras partes do mundo. O sucesso é difícil de atingir e muitas vezes só acontece quando as empresas passam a ser americanas, canadianas, ou de outro país.

 

Portugal está assim tão tecnologicamente atrasado, comparando com a América do Norte?

Não. Portugal está à frente em muitas áreas. Mas, para o bem e para o mal, há uma ligação profunda entre as universidades e a indústria nos EUA. Eles têm um grande foco no consumidor e uma fórmula imbatível de conjugar o desenvolvimento tecnológico com os modelos de negócio. O sistema de inovação é orientado para a escalabilidade a curto prazo, baseado no que acontece em Silicon Valley. Fazer investigação numa tecnologia específica durante dez anos não faz sentido para os EUA. As startups em Portugal começam agora a trabalhar mais na linha do modelo de Silicon Valley.

 

“As últimas fronteiras da ciência” Não perca o próximo Fronteiras XXI, dia 20 de Novembro às 22h30, na RTP3