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“Agora, temos a tecnologia que nos permite estudar a ligação entre o cérebro e a nutrição”

Entrevista ao neurocientista Carlos Ribeiro, investigador principal do grupo de "Comportamento e Metabolismo" do Centro Champalimaud para o Desconhecido por Filipa Basílio da Silva

“Olho para o futuro da investigação científica sobre o cérebro com grande optimismo, porque, agora, temos a tecnologia que nos permite estudar a ligação entre o cérebro e a nutrição. Desde inteligência artificial, a técnicas de microscopia avançadas, etc. Acredito que, nos próximos 10 a 20 anos, vamos entrar na era dourada da nutrição. Vamos perceber a ligação funcional entre nutrientes, fisiologia e o funcionamento do cérebro, e ser capazes de encontrar respostas personalizadas.”

 

Reveja o debate Fronteiras XXI “De que é capaz o cérebro?”

 


O cérebro humano é bastante influenciável. Células e até micróbios conseguem dar-lhe a volta e pô-lo a comer mais açúcar e menos proteínas. Só que enquanto uns actuam pelo bem de todo o organismo, outros tentam “assaltar” o sistema. Foi o neurocientista da Fundação Champalimaud Carlos Ribeiro e a sua equipa que descobriram estas nuances nos mecanismos neuronais da nutrição: “Estamos muito entusiasmados”. E o optimismo não se fica por aqui. Carlos Ribeiro acredita que, em breve, a ciência será capaz de “perceber a ligação funcional entre nutrientes, fisiologia e o funcionamento do cérebro” e de “encontrar respostas personalizadas”.

 

O intestino é mesmo um “segundo cérebro”?

É o segundo ou até talvez o primeiro cérebro [risos]. Nós temos muitos, muitos neurónios no nosso intestino. Ele envia muita informação ao cérebro, que influencia o nosso comportamento. Esta descoberta, de que o intestino e o microbioma têm um impacto grande no funcionamento do cérebro, abriu novos caminhos de investigação. Intelectualmente, foi muito importante para a comunidade científica. Porque, durante décadas, foi um órgão quase ignorado. Hoje sabemos que o intestino e o microbioma são muito importantes para o nosso bem-estar. Mas este sistema nervoso ainda é um mistério, há muitas coisas para descobrir.   

 

Liderou uma descoberta sobre o microbioma, recentemente.

Sim, acabámos de publicar este estudo – e admito que estamos muito entusiasmados. Descobrimos que existem dois micróbios que, se fizerem parte do microbioma de uma pessoa, afectam o seu processo de tomada de decisão. Resumidamente, estes micróbios fazem com que a pessoa não queira comer proteína – mesmo que precise deste nutriente. Usámos moscas da fruta para esta investigação, porque são animais que também podem ter estes micróbios.

 

Também revelou um mecanismo que pode explicar picos no consumo de açúcar, nas mulheres.

Sim, mostrámos que algumas células do sistema reprodutor da mulher comunicam directamente com o cérebro quando precisam de mais açúcar. Ao passo que a maioria das células utiliza o açúcar para gerar energia, algumas células do sistema reprodutor da mulher precisam de açúcar para “construir” óvulos. Fica claro que as necessidades do organismo têm um impacto directo no cérebro.

 

Esta investigação pode dar pistas sobre a infertilidade feminina?

Acreditamos que sim. Sabemos que a fertilidade diminui com a idade, mas não sabemos porquê. Nós acabámos de receber uma bolsa do Global Consortium for Reproductive Longevity, e vamos estudar se esta necessidade de açúcar das células do sistema reprodutor da mulher entra em declínio quando envelhecem. Se for esse o caso, talvez com uma mudança na dieta e no perfil metabólico essas células consigam prolongar o seu trabalho.

 

São só as células do sistema reprodutor da mulher que usam o açúcar de forma diferente?

Não, não estão sozinhas. As células cancerígenas também mudam a forma como utilizam o açúcar. O açúcar é muito importante para vários tipos de cancros, mas sobretudo os tumores mais agressivos, que são os que consomem mais açúcar. Nós sabemos que existe uma forte ligação entre a alimentação e o cancro, só não compreendemos os mecanismos por trás desse processo. No futuro, vamos tentar perceber se as células cancerígenas também conseguem comunicar directamente com o cérebro e convencê-lo de que as pessoas com cancro devem comer mais açúcar. Porque isso significaria que o cancro consegue “assaltar” o cérebro e fazer a pessoa consumir nutrientes que são maus para si.

 

Porque é que comemos o que comemos? O estômago transmite ao cérebro os nutrientes de que necessita?

Sim, essa é uma parte da explicação. A sensação de fome é um sinal que o estômago envia ao cérebro e que tem um impacto muito grande naquilo que comemos. Porque, quando temos fome, não nos damos ao luxo de escolher o que vamos comer. Mas a resposta a esta pergunta vai além da biologia. A cultura tem um impacto muito forte na nossa dieta. Nós crescemos a comer determinados alimentos e refeições que a nossa mãe nos preparava. Além disso, a nossa cultura ensina-nos a comer certas coisas ao pequeno-almoço, outras ao almoço, outras ao lanche e outras ao jantar. Só ainda não sabemos que parte da biologia e que factores culturais afectam o comportamento. Talvez a cultura tenha por base necessidades biológicas. Mas também não podemos esquecer que somos seres sociais: nós comemos coisas diferentes quando estamos com outras pessoas.

 

Afinal, qual é o papel da alimentação no desenvolvimento do cérebro?

Sabemos que uma boa nutrição é fundamental para o desenvolvimento do cérebro e sabemos que uma má alimentação é muito prejudicial. Mas, como existem muitos nutrientes que interagem de forma diferente com variados factores, ainda não sabemos exactamente como é que afectam o desenvolvimento do cérebro. O impacto dos nutrientes na fisiologia e no cérebro varia de indivíduo para indivíduo.

 

Vai ser possível personalizar a dieta, de forma a optimizar o funcionamento de todos os órgãos?

Sim. Já se pode utilizar inteligência artificial para prever os alimentos que o indivíduo deveria comer. Há um estudo muito interessante, de Israel, no qual se utilizou um sensor de glucose que se colocava no pulso e se emparelhava com o smartphone da pessoa. O sensor media a glucose ao longo de uma semana e os participantes do estudo só tinham de anotar aquilo que comiam em cada momento. Depois, os cientistas correlacionaram a ingestão de alimentos com os níveis de glucose no sangue. A parte interessante é que descobriram que, após a ingestão tanto de bolachas como de chocolate, os níveis de glucose baixaram nalgumas pessoas. As excepções à regra são muito importantes quando se trata de personalizar uma dieta. Tanto que, agora, está a investigar-se como tudo isto funciona ao nível molecular – as causas dos efeitos após a ingestão de certos alimentos ao nível fisiológico. Outro aspecto importante que este estudo revelou foi que a inteligência artificial conseguiu prever a dieta mais indicada para cada indivíduo com maior precisão do que um nutricionista.   

 

Alguns estudos sugerem que uma alimentação só à base de fast food também pode causar instabilidade emocional ou até alterações no comportamento.

Parece que talvez o problema não seja do fast food em si, mas da comida ultra-processada. Aqui, sim, existem correlações fortes entre o consumo excessivo de comida ultra-processada e um impacto negativo na fisiologia e no comportamento. Mas estes estudos sugerem apenas que certos efeitos da nutrição no comportamento devem ser analisados mais aprofundadamente, não apontam uma causalidade.

 

Os alimentos podem prevenir ou ajudar a atrasar certas doenças neurológicas?

Uma alimentação equilibrada está correlacionada com um risco mais baixo de desenvolver problemas neurológicos e psiquiátricos. E há estudos que demonstram que é possível reverter os efeitos negativos de certas patologias neurológicas através da alimentação.

 

A que patologias se refere?

Existe um tipo de autismo que resulta de uma mutação genética raríssima, no qual o cérebro faz uma utilização diferente dos aminoácidos. Esta condição provoca ataques epilépticos fortíssimos. Uma colega que desenvolve investigação na Áustria demonstrou – em ratinhos com o mesmo problema – que é possível reverter os sintomas de autismo, se os indivíduos comerem alimentos enriquecidos com os tais aminoácidos (proteínas). Ela provou que há uma causa-efeito. Mas clinicamente já se sabia que, quando se muda a alimentação, há melhorias no comportamento das crianças com autismo – porque elas sentem-se melhor fisiologicamente.

 

Que alimentos devemos ingerir regularmente para garantir um bom funcionamento do cérebro?

Não lhe vou passar uma receita. Primeiro, porque não sou nutricionista. Segundo, porque nos últimos 20 anos aprendemos que quando se fazem recomendações muito específicas, elas não funcionam. Dou-lhe um exemplo. Nos anos 70, o colesterol era visto como um grande problema. Então, decidiu-se que o melhor para baixar os níveis de colesterol seria reduzir substancialmente o consumo de sal e gorduras. Agora, quase 40 anos mais tarde, sabemos que esta recomendação foi uma catástrofe. O resultado foi que as pessoas deixaram de consumir todo o tipo de gorduras, incluindo as saudáveis, e aumentaram o consumo de hidratos de carbono. O número de casos de diabetes e obesidade aumentaram. Por isso, a melhor recomendação que posso dar é evitar o stress, fazer algum exercício físico (demasiado também não convém), comer com moderação, variar o mais possível os alimentos e evitar comida pré-processada – preferir refeições preparadas no momento.

 

Como vê o futuro da investigação científica sobre o cérebro?

Olho para o futuro da investigação científica sobre o cérebro com grande optimismo, porque, agora, temos a tecnologia que nos permite estudar a ligação entre o cérebro e a nutrição. Desde inteligência artificial, a técnicas de microscopia avançadas, etc.  Acredito que, nos próximos 10 a 20 anos, vamos entrar na era dourada da nutrição. Vamos perceber a ligação funcional entre nutrientes, fisiologia e o funcionamento do cérebro, e ser capazes de encontrar respostas personalizadas.

 

 

 

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