Entrevista

Do que vale a natureza?

Todos os animais e plantas têm um papel no equilíbrio da Terra. Mas o ser humano está a roubar o planeta da sua biodiversidade, um golpe que pode custar o desaparecimento de 1 milhão de espécies. O investigador Francisco Moreira, coordenador do Departamento de Biodiversidade em Ecossistemas Agrícolas e Florestais do Instituto Superior de Agronomia, alerta que "o que se perdeu não é possível recuperar”.

por Filipa Basílio da Silva

Entrevista com o biólogo Francisco Moreira Coordenador do Departamento de Biodiversidade em Ecossistemas Agrícolas e Florestais do Instituto Superior de Agronomia e investigador principal no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto

Temos um planeta mais pobre. O grande drama é: se perdermos este milhão de espécies que estão ameaçadas, elas desaparecem para sempre. O desafio é se conseguimos travar a sua extinção.

 

Fronteiras XXI, no dia 18 de Setembro às 22h30, na RTP3

 

Há 1 milhão de espécies de animais e de plantas que correm risco de extinção, de acordo com a Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES). Que impacto tem para o planeta?

Perde-se um património que é insubstituível, que teve milhões de anos de evolução e que se perde por causa da acção do ser humano. Em segundo lugar, podem ser más notícias para a nossa qualidade de vida ou mesmo sobrevivência. Isto reflecte a nossa incapacidade de lidar com o problema. O diagnóstico está feito, sabemos as causas, mas não temos tido a capacidade de dar respostas à altura.

 

A sobrevivência do ser humano também pode estar em questão?

Parte dos factores que ameaçaram essas espécies podem ameaçar a nossa própria espécie. Desde logo, as alterações climáticas são um exemplo disso. A sobreexploração dos recursos – em terra e no mar –, pode ter impacto na nossa capacidade de nos alimentarmos. As diferentes formas de poluição são outro dos factores apontados para o desaparecimento de muitas espécies que também nos afecta: nós estamos a ingerir micropartículas (derivadas de plásticos e microplásticos), com impactos na nossa saúde que não conhecemos bem ainda.

 

Mesmo as espécies mais pequenas são fundamentais para o equilíbrio do todo?

As populações de insectos e particularmente dos polinizadores têm impactos importantes na produção dos alimentos que nós consumimos. Sobretudo as árvores de fruto dependem totalmente da existência de polinizadores – sendo as abelhas dos mais importantes. A polinização é dos serviços dos ecossistemas que mais dependem da diversidade de pequenos animais e de invertebrados, que estão a ser afectados por diferentes causas.

 

Consta que cada árvore na Amazónia chega a ter 10 mil espécies de insectos, milhões de espécies de fungos ou bactérias. Que consequências é que os incêndios deste Verão poderão ter nesta biodiversidade?

Sim, a Amazónia é o ecossistema com a maior biodiversidade no planeta. Mas não podemos esquecer que há mais florestas tropicais que também são uma importante fonte de oxigénio para o planeta, como as de África e em particular as do Sudeste Asiático, que estão a ser destruídas a um ritmo alarmante. Tudo isso para serem substituídas por terrenos de cultivo ou para pastagens de gado. Numa economia global, embora estes locais estejam longe de nós, as opções que tomamos em qualquer lugar do mundo têm impacto no que se passa nesses pontos longínquos.

 

Então, as grandes causas da desflorestação no mundo são a agricultura e a pecuária?

Sim, podemos dizer que a agricultura e a pecuária são o principal motor de destruição e a principal causa perda de habitats. Foram identificadas como tal num estudo feito pelo IPBES, onde estive envolvido, que era uma espécie de avaliação do estado de degradação do planeta. E continuam a ser a principal causa de destruição dos poucos habitats que ainda existem.

 

A perda de biodiversidade poderia ser travada se as escolhas alimentares e o sistema de produção e distribuição mudassem?

Sim, é uma evidência cada vez maior. Os padrões de consumo e a responsabilidade no consumo que fazemos de todos os tipos de produtos parecem ser algo que pode ter uma importância muito grande – e que depende de cada pessoa. O consumo de carne, particularmente bovina, está a ser responsável por muitos dos problemas em diferentes locais do planeta. A quantidade de recursos necessários para produzir um quilo que carne de vaca é tremenda. Além disso, uma parte das florestas está a ser destruída para criar espaço para pastagens e depois muita dessa carne é exportada para vários locais do mundo (incluindo a Europa). A outra parte da desflorestação serve para cultivar alimento que não se destina ao ser humano: é soja para dar aos animais como ração. São dos principais problemas na Amazónia. Uma mudança de dieta e do comportamento alimentar é uma forma de começarmos a alterar a situação.

 

Portugal já foi apontado como responsável pela quebra das reservas de bacalhau e sardinha. Sendo um país tão pequeno, como é que estas tradições alimentares têm um impacto tão grande?

A sobreexploração de recursos é outra das grandes ameaças à biodiversidade, extremamente grave. Sim, a sardinha é o exemplo de uma espécie que pode ser explorada até à extinção. Não quer dizer que os portugueses, sozinhos, possam levar ao desaparecimento da sardinha ou do bacalhau, mas, sendo dos principais consumidores, as decisões que tomam podem ter impactos graves nos stocks. Faz-me lembrar uma espécie que já desapareceu, um pombo americano que existia aos milhões e que por causa da caça sistemática acabou por se extinguir.

 

Quais são as espécies em risco de extinção em Portugal?

Existem muitos animais invertebrados e plantas altamente ameaçados. As pessoas nem sequer têm noção. Várias espécies já se extinguiram. Várias aves estão ameaçadas por destruição do seu habitat ou pela intensificação da agricultura. É o caso dos grandes abutres, que dependem da gestão veterinária dos cadáveres de gado doméstico, porque estes se forem retirados do campo deixa de haver comida para estas aves necrófagas. E alguns dos medicamentos veterinários que são dados ao gado são extremamente venenosos para espécies de abutres. Essas substâncias, inócuas para o gado, têm impacto na biodiversidade.

 

E o urso pardo, avistado recentemente em território português, perdeu-se por causa das alterações climáticas ou por outro motivo?

O que se passou é que, por gestão correcta das últimas espécies que sobravam de urso pardo no norte de Espanha, houve uma alteração da forma como são vistos os ursos. Por um lado, devido a medidas de conservação da espécie e, por outro lado, os animais podem ter-se habituado a viver numa paisagem muito mais humanizada. A população foi aumentando e o normal é que também vá alargando a sua presença geográfica. Só que é uma espécie que dependente de uma convivência pacífica com os humanos. Parece que é o que se está a passar. Seria um regresso fantástico, para se juntar ao outro grande predador que ainda existe: o lobo. Do ponto de vista da interacção com os humanos, os lobos são mais problemáticos do que os ursos, devido aos ataques a rebanhos de gado – por não existirem presas selvagens. São um dos exemplos de conflitos que existe entre a conservação da natureza e os interesses dos seres humanos.

 

É verdade que estão a entrar espécies exóticas em território nacional?

Sim, sim! As espécies exóticas são uma das principais ameaças à biodiversidade a nível mundial. Particularmente nas ilhas, as espécies exóticas foram responsáveis pela extinção de muitíssimas espécies de diferentes grupos de fauna e flora. Fora do contexto de ilhas, existem registos de extinções de um grande número de espécies causados por espécies exóticas. Um dos melhores exemplos, é o de um peixe chamado perca do Nilo (um predador) que, com o objectivo de ser exportado, foi transportado para o lago Victoria (um dos grandes lagos africanos) onde existia uma grande diversidade de peixes pequenos – chamados ciclídeos. Só a perca do Nilo terá causado a extinção de mais de 300 espécies de peixes pequenos. Um exemplo mais próximo de nós, a nível de plantas, temos vastas áreas do território invadidas por acácias. Elas estão na origem de muitos incêndios florestais, que, por sua vez, favorecem a disseminação delas – num ciclo vicioso.

 

Os eucaliptos também são uma espécie invasora?

São uma espécie exótica, não fazem parte da nossa flora. Não haja dúvida que do ponto de vista de biodiversidade associada será muito melhor ter um carvalhal do que um eucaliptal. Mas no que diz respeito ao seu comportamento, ele não está demonstrado como sendo invasor. Sabemos que se regenera, mas a velocidade a que o eucalipto alastra não é assim tão rápida.

 

Podemos recuperar as florestas que a Terra perdeu no último século, como resultado da acção do Homem?

O que se perdeu não é possível recuperar. Temos um planeta mais pobre. O grande drama é este: se o 1 milhão de espécies que estão ameaçadas se perder, desaparece para sempre. O grande desafio é se conseguimos parar a extinção de espécies.

 

Vamos conseguir atingir os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável traçados pela ONU?

É difícil. Em algumas regiões do planeta pode ser fazível, noutras será um desafio muito maior. Na Velha Europa – onde a consciência está mais avançada, porque nós próprios destruímos os nossos recursos há mais tempo e onde a população já não está a crescer ou está mesmo a decrescer – é possível que se consiga atingir alguns dos objectivos. Nos países em desenvolvimento, que têm todo o direito de querer comer mais carne e ter uma qualidade de vida superior, é pouco expectável que se consiga verdadeiramente atingir esses objectivos.

 

 

«O que é que podemos fazer pelo planeta?» é o tema do próximo debate Fronteiras XXI, no dia 18 de Setembro às 22h30 na RTP3