Artigo

Causas da polarização e radicalismo no debate público

Rui Costa Lopes Psicólogo Social e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa *

O viés da confirmação, que nos faz ter uma maior tendência para procurar e acreditar na informação que confirma as nossas crenças e ideologias, passou a ser potenciado por um algoritmo que está programado para nos mostrar o que queremos ver e por uma plataforma que nos põe em contacto com uma comunidade que (ainda que minúscula em comparação com a maioria silenciosa e moderada) nos parece enorme e impressionante. Portanto, as mesmas redes que permitem a existência de pessoas pouco informadas que, em condições normais se confrontariam com a sua ignorância, oferecem também a essas pessoas a oportunidade de encontrar gémeos na desinformação que as fazem sentir-se validadas e confiantes na sua posição extremada.

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De onde veio o recente crescimento de polarização e radicalismo no debate público? A grande força desta tendência, que não é nova na história da humanidade, deve-se a uma aliança atual de fatores circunstanciais e intencionais. Quando a vontade se conflui com as condições ideais, dá-se a explosão de um fenómeno e é a isso que temos assistido no debate público. Ou seja, não é a primeira vez que assistimos a este nível de polarização e radicalismo, mas talvez os motivos que lhe são subjacentes tenham, pelo menos em parte, algo de novo.

Correndo o risco de parecer um cliché, poderá afirmar-se que qualquer pessoa que procure as causas mais recentes para este fenómeno deverá começar pelas redes sociais. De facto, a internet e, mais recentemente, as redes sociais são plataformas que conjugam esses fatores de natureza circunstancial e intencional.

Com estas plataformas veio a democratização da informação, tanto para quem procura informação como para quem a quer partilhar. Assim, por um lado, o acesso fácil e constante a informação veio trazer a possibilidade de conhecimento a pessoas tipicamente mal informadas. Por outro lado, o efeito Dunning-Kruger diz-nos que as pessoas que acedem a uma pequena dose de conhecimento têm tendência para sentir-se, subitamente,  muitíssimo habilitadas a falar sobre isso, quando na realidade o seu conhecimento é tão reduzido que, ironicamente, não lhes permite saber o suficiente para perceber quão ignorantes são sobre esse assunto.

O esgrimir constante de argumentos por parte de pessoas mal-informadas, juntamente com o surgimento crescente de fake news e esta disponibilidade imensa tanto de informação real como falsa veio minar a validade do conhecimento existente, nomeadamente do conhecimento objetivamente mais válido.  Isto tem um impacto generalizado de descida do nível da discussão em que nada é objetivamente reconhecido como válido, o que torna paradoxalmente tudo igualmente e simultaneamente válido e inválido. Esta conjunção de circunstâncias é o começo do ambiente que não permite os alicerces mínimos de uma discussão civilizada.

Por outro lado, a informação que nos chega através das redes sociais não tem toda a mesma probabilidade de aparecer à nossa frente.  Isto é, as redes sociais funcionam como autênticas echo chambers de repetição das nossas próprias ideias porque o algoritmo que está na sua base está desenhado para levar as pessoas a confirmar as suas crenças e a sua visão do mundo. Numa rede social como o Facebook, o feed mostra-nos, maioritariamente, aquilo que nós gostamos mais de ver. Um princípio que pode ser visto a priori como positivo e eficiente – por procurar melhorar a user experience – acaba por ter, quando levado longe demais, consequências desastrosas.

Ainda dentro das redes sociais, mas sobre fatores mais intencionais, encontra-se um aspeto que se constitui como fundamental à própria sobrevivência destas plataformas. O facto de as redes sociais viverem de clicks e o facto da polarização e o radicalismo gerarem mais clicks conduz naturalmente a um reforço intencional deste fenómeno por parte daquelas. Portanto, são as próprias redes sociais que alimentam este clima dividido porque este clima dividido alimenta as redes sociais.

Também são as redes sociais que nos vieram “obrigar” a ter opinião sobre tudo. Aparecer no espaço público significa hoje em dia ter que tomar posições. As redes sociais já não são apenas para partilha de fotos e de memes bem-humorados. Quem quer existir com relevância nestas plataformas sabe que o melhor caminho é através de tomadas de posição. E não só são essas tomadas de posição mais eficazes para a obtenção dessa relevância e presença mediática como o imediatismo da discussão fomenta a necessidade de tomadas de posição instantâneas e, por isso mesmo, pouco fundamentadas. E uma vez tomadas, as posições são muito difíceis de retratar, o que dá azo a discussões cada vez mais acesas. É neste quadro que surgem com frequência as chamadas “causas fraturantes” ou episódios polémicos. Na realidade, as causas fraturantes são frequentemente apenas as causas do momento, as causas da espuma dos dias. O facto de as polémicas que geram polarização desaparecerem do espaço público em termos do discurso e relevância, mas permanecerem com a mesma natureza, diz-nos que a essência fraturante dessas causas é apenas um instrumento, uma desculpa para o exercício da polarização que vem de trás.

O acesso à informação, o algoritmo, a vontade dos responsáveis pelas plataformas em que essa polarização exista, e este imediatismo e obrigação de tomada de posição caracterizam o ambiente das redes sociais que é então o ambiente perfeito para o aparecimento e crescimento da polarização e radicalismo.

E é neste ambiente perfeito que emergem fenómenos psicológicos fundamentais que sempre existiram mas que se tornam mais relevantes pelas circunstâncias onde agora ocorrem. Para lá do já mencionado Dunning-Kruger, outros fenómenos tornam-se relevantes tais como o raciocínio motivado (que nos diz que todo o nosso pensamento é marcado pelas nossas motivações e objetivos), ou o mais específico viés da confirmação. O viés da confirmação, que nos faz ter uma maior tendência para procurar e acreditar na informação que confirma as nossas crenças e ideologias, passou a ser potenciado por um algoritmo que está programado para nos mostrar o que queremos ver e por uma plataforma que nos põe em contacto com uma comunidade que (ainda que minúscula em comparação com a maioria silenciosa e moderada) nos parece enorme e impressionante. Portanto, as mesmas redes que permitem a existência de pessoas pouco informadas que, em condições normais se confrontariam com a sua ignorância, oferecem também a essas pessoas a oportunidade de encontrar gémeos na desinformação que as fazem sentir-se validadas e confiantes na sua posição extremada.

As vantagens da polarização foram também percebidas pelos atores políticos e, em parte, por atores da esfera pública em geral. Estes percebem que o discurso extremado e polarizado lhes traz a cobertura mediática necessária, principalmente para aqueles elementos cuja menor mediatização inicial os torna tão necessitados desta. Simultaneamente, são também estes os menos “comprometidos com o sistema” e que, nesse sentido, menos têm a perder quando arriscam tal polarização no seu discurso.

Mas os políticos e os protagonistas atuais do debate público têm também contribuído para o radicalismo de uma outra forma. Cavalgando a tendência populista (que é naturalmente uma causa distante desta polarização), os líderes têm endurecido o seu discurso e vindo a fazer afirmações que vão contra o chamado “politicamente correto”, nomeadamente pelas razões ainda agora referidas. Acontece que, ao fazerem isso, contribuem para o radicalismo de uma forma indireta: quando vemos líderes de partidos ou até de países a terem discursos que eram anteriormente sancionados socialmente por normas de convivência social e de discurso como a norma anti-racista, tal contribui para alterar o quadro normativo que rege as intervenções das pessoas no espaço público. Ou seja, “se ele pode dizer, eu também posso” é uma máxima na cabeça de muitos daqueles que oferecem o seu discurso inflamado à comunidade. Esta liberalização de certas dimensões do discurso que estavam socialmente vedadas até há bem pouco, abriram campos de ódio e de expressão livre carregados de polarização e de ditos radicais.

Finalmente, o que disse acima explica como surge muita da polarização e do radicalismo, mas eventualmente sobrestima a prevalência destes no que respeita àquilo que verdadeiramente caracteriza o pensamento da comunidade no seu todo. E isso lembra-nos uma última causa eventual desta polarização e deste radicalismo. Ou seja, o destaque que estes fenómenos recebem, e o palco que os “extremistas do discurso” conseguem, faz-nos por vezes pensar que os moderados deixaram de existir. Mas na realidade, ainda que possa ter deixado de haver espaço para uma opinião moderada, a opinião moderada não deixou de existir. Os moderados continuam a pensar como pensavam e a existir talvez até em maioria.

No entanto, não são esses que têm a voz no debate público. Da mesma forma que as plataformas online de avaliação de restaurantes ou de hotéis e outros serviços estão quase unicamente pejados de mensagens de ódio profundo (“Não volto a pôr lá os pés!”) ou de louvor inebriado (“Amei tudo!!”), também é assim com o debate público. Só tem vontade de falar quem tem algo extremo ou diferente para dizer. Não só os moderados têm menos motivação para engajar no debate como, pelo que se descreveu acima, o “sistema” das plataformas e redes sociais não está tão interessado em dar-lhes esse palco. Nesse sentido, a polarização e o radicalismo não existem necessariamente de forma mais forte do que a moderação, mas por ora e no futuro mais próximo continuarão a ter o palco, e um palco que é em si uma entidade que está contente por continuar a existir.

 

 

* O autor deste texto escreve com o Acordo Ortográfico

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