Artigo

China, o dragão disfarçado de panda

Luís Tomé, Professor Catedrático da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL). Director do Departamento de Relações Internacionais da UAL. Especialista em Geopolítica, Defesa e Geoeconomia por Filipa Basílio da Silva

A China é uma civilização e é um Estado-Nação. Tem a história mais longa e ininterrupta do mundo, com mais de 5 mil anos. Durante mais de 2 mil anos, a China foi central na Ásia Oriental. Deixou de o ser durante 150 anos. E agora está a voltar a ser central, não só nessa região, mas no mundo.

 

Reveja o Fronteiras XXI «A China já governa o mundo?»

 

Há pouco mais de 40 anos um gigante acordou da sua hibernação, na Ásia Oriental. Chama-se China. Parecia um «panda benigno», segundo Luís Tomé, professor catedrático da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL). «Mas agora vemos o dragão», sublinha o Director do Departamento de Relações Internacionais da UAL. Nesta entrevista, o perito em Geopolítica, Defesa e Geoeconomia resume os principais objectivos da China e as suas estratégias para tentar alcançar a hegemonia mundial. E deixa um aviso: «A China é capaz de fazer uma guerra para tomar Taiwan pela força».

 

Como é que se explica o crescimento económico exponencial da China, em menos de meio século?

A razão principal resulta de um conjunto de reformas iniciadas por Deng Xiaoping, em 1978. Xiaoping assumiu que podia construir o socialismo com os meios do capitalismo e iniciou uma internacionalização progressiva da China.

Outro factor importante de referir é que as lideranças da China que se seguiram deram continuidade às reformas iniciadas por Xiaoping. Esta coerência foi a chave para o sucesso da ressurgência da China.

Depois, temos de ver a dimensão da China, que neste momento é um país com mais de 1400 milhões de pessoas. Claro que o impacto do seu crescimento económico acabou por ser muito maior devido à escala.

 

Qual foi a estratégia para a globalização da economia chinesa?

Não foi sempre igual. Para a China, o crescimento económico deve tirar partido das oportunidades, sem usar a força – como fizeram a Alemanha Nazi, o Japão Imperialista ou a União Soviética. Exemplo disso é o facto de, inicialmente, o crescimento económico da China ter assentado na atracção de investimento estrangeiro e na deslocalização de indústrias poluentes que estavam na América do Norte e na Europa. Elas foram para a China não só em busca de mão-de-obra barata, mas porque não havia leis laborais nem regras de protecção ambiental. Nas duas últimas décadas, a China conseguiu competir no mercado mundial porque produzia em grande quantidade e barato.

 

Hoje, a China é o maior exportador e importador do mundo.

Sim, também é o maior parceiro comercial das principais economias mundiais – Estados Unidos da América (EUA) e União Europeia (UE) –, e há uns anos que ultrapassou os EUA como a maior economia do mundo em termos de Paridade de Poder de Compra e muito em breve vai ultrapassar a economia dos EUA termos de PIB nominal. Em 2019, a China destronou os EUA da posição de país que mais patentes regista. Nesse ano, colocou quatro empresas no top mundial com registo de patentes – um ranking que tem sido consecutivamente liderado pela Huawei.

Já não há só uma superpotência [EUA], a China já é uma superpotência. É o único país capaz de ombrear com os EUA em todos os domínios.

 

O mercado interno chinês também tem crescido.

Sim. Actualmente, a China já não olha só para o estrangeiro como motor da sua economia. Começa a tirar muito partido do seu mercado interno, que soma 800 milhões de consumidores com perfil semelhante ao do consumidor médio norte-americano ou europeu. E para além destes ainda tem mais quase 700 milhões de crescimento de mercado – algo que não vai haver nem na Europa nem os EUA.

 

Em que sectores é que a China está a apostar, agora?

Em 2015, Xi Jinping [actual presidente da República Popular da China] lançou o programa «Made in China 2025» com objectivos expressos de tornar a China a líder mundial da IV Revolução Industrial, em áreas como a inteligência artificial, robótica, produtos farmacêuticos, etc. A energia, por exemplo, também é um sector que ganhou relevância.

O objectivo é fomentar a área cientifico-tecnológica, o poder militar, a influência político-diplomática. E estes vários domínios devem ser articulados de forma a promoverem aquilo a que chamam o Poder Nacional Abrangente.

 

Alguns países em desenvolvimento começam a olhar para a China como bom modelo económico e político?

Sim. A China mostra que é possível aliar autoritarismo político a liberalismo económico de uma forma bem-sucedida. É óbvio que este modelo é bastante atractivo para dirigentes em vários países, nomeadamente em África, na América Latina, e mesmo na Ásia. Falamos de grupos autocráticos que vêem no modelo chinês uma forma de terem um processo económico (minimizando a instabilidade social) e manterem o poder político nas suas mãos. Isto apresenta um desafio ao sistema e à ordem internacional que temos conhecido.

 

Tornou-se mais difícil promover a democracia?

Sem dúvida. Porque a China não só não é uma democracia liberal como até boicota os esforços de países ocidentais na promoção dos valores da democracia e dos direitos humanos. A China instrumentaliza o princípio de não ingerência em assuntos internos. Por isso, para muitos governos, é bastante confortável o relacionamento com a China. Porque a lógica é a de ganhos mútuos, independentemente das questões internas. Se a China tem interesse em petróleo e eles querem armamento, a China vende-lhes armamento. Ainda por cima, a China tem dinheiro para construir infra-estruturas e dinheiro para emprestar. O que a torna muito atractiva e alternativa a mecanismos ocidentais tradicionais. Quer os EUA quer a Europa, para prestarem auxílio ou colaborarem com alguns países, têm cláusulas de elegibilidade como o respeito pelos direitos humanos, o respeito pelas minorias, reformas democráticas, estado de direito…

 

A China quer dominar a corrida mundial aos recursos naturais?

É evidente. A China era um colosso energético, mas desde 1993/94 que o consumo de energia disparou no país. Ou seja, em pouco tempo, a China deixou de ser auto-suficiente em recursos energéticos para passar a ter de importar. E tem estado a importar quantidades de petróleo e de gás natural cada vez maiores. Isto é uma condicionante para a China, porque teve de entrar em mercados abastecedores de energia e garantir rotas de abastecimento. Movida pela sede de energia, a China agora aparece na América do Sul (Venezuela e Brasil), África (Norte e Subsariana), Golfo Pérsico (Irão e Arábia Saudita), e também está a cultivar relações de proximidade neste sector com a Rússia. Estamos a assistir a mudanças profundas na geopolítica da energia.

Mas dentro de muito pouco tempo o mundo vai consumir muito menos petróleo. Talvez o gás natural demore mais, porque polui menos, mas vamos passar a ter outras fontes de energia. Isto vai ter implicações e a adaptação a uma nova realidade pode custar caro.

 

A transição energética é um desafio para a China?

Pelo contrário. A China é um dos países que está na dianteira deste processo, com progressos tecnológicos significativos nesta área. Continua a consumir muitos recursos dos hidrocarbonetos convencionais, mas ao mesmo tempo é dos países que tem feito maiores investimentos e mais rapidamente na transição energética. Porque há muitos custos para a economia chinesa dos danos ambientais, até em termos de saúde pública.

 

Nos últimos anos, temos visto a China exibir o seu poderio militar. Qual é o objectivo?

O objectivo é tornar a China numa potência militar de alcance global. No fundo, ser capaz de vir a ser aquilo que os EUA já são.

A China tem estado a desenvolver as capacidades mísseis, navais e aéreas. E não esqueçamos que é uma potência nuclear. Embora o seu número de ogivas nucleares esteja longe do dos EUA, a China não precisa da paridade para conseguir o efeito de dissuasão.

Sob a liderança de Xi Jinping, vemos uma China cada vez mais ambiciosa, reivindicativa, mais assertiva, confrontacional e poderosa. Xi Jinping abandonou uma lógica de relativo low profile, como tiveram os dirigentes chineses até ele; é autoconfiante e usa expressões como «liderança chinesa», «posição dominante», «reforma do sistema internacional».

É de sublinhar que a China está cada vez mais assertiva nas suas reivindicações territoriais. O que significa que colide com os outros países com quem disputa territórios, nomeadamente a Índia. Pela primeira vez em décadas, em 2020, soldados chineses mataram soldados indianos.

Além disso, a China está a desenhar uma espécie de  Mare Nostrum nos Mares da China Oriental e do Sul, tentando até impor como suas as ilhas e zonas económicas exclusivas que o Japão, a Coreia do Sul e vários países do Sudeste Asiático ocupam e reivindicam. E, por exemplo, em 2016, o Tribunal Internacional Arbitral decidiu que a China não tem razão nos seus argumentos para reivindicar quase 90% do Mar do Sul da China, mas Pequim não só não acatou essa decisão como intensificou a militarização do Mar do Sul da China.

E, ultimamente, o que a China tem estado a fazer é demonstrar que é capaz de fazer uma guerra para tomar pela força Taiwan, e que consegue impedir aos EUA acesso ao teatro de operações.

 

Taiwan não quer ser incluído no regime de país com dois sistemas. Sobretudo depois do que aconteceu em Hong Kong.

Não. O que vimos em Hong Kong, com Xi Jinping, é que acabou o país de dois sistemas. A autonomia de Hong Kong e de Macau é nula. Quando Deng Xiaoping incorpora na China primeiro Hong Kong e depois Macau, esperávamos que o regime capitalista contagiasse mais politicamente o socialista. Mas isso não aconteceu.

 

A China consegue que até estrelas de Hollywood peçam desculpa em mandarim por se terem referido a Taiwan como país independente e soberano.

Por aí vemos o outro lado do poder chinês. O poder não se mede só pela capacidade de coagir, mas também pela capacidade de fazer com que indivíduos, governos e Estados se autocensurem. A margem de manobra que a China concede naquelas que são as suas reivindicações prioritárias, hoje, é nula. Atiçar o dragão pode provocar uma reacção muito negativa.

Contudo, esta postura tem custos. Sobretudo nos últimos anos, a China tem-se confrontado com reacções adversas, críticas de cada vez mais governos, grupos e indivíduos. O que é uma novidade. Tinha uma imagem de panda benigno, mas agora vemos o dragão. São os custos de ser superpotência, de o mundo ser cada vez mais bipolar.

 

Xi Jinping parece querer deixar a sua marca na História da China.

Já deixou. Mas o perigo é que uma das coisas que quer deixar resolvidas, no seu tempo de vida, é Taiwan. Ele não segue a lógica chinesa, da paciência e planos a longo-prazo. Xi Jinping é um acelerador. Se ele quiser resolver a questão de Taiwan, isso significa que a paciência se está a esgotar. E como não há sinais de poder haver uma unificação pacífica, porque Taiwan não quer, a predisposição para usar a força é cada vez maior. No caso de a China usar a força, como alguns analistas dizem, até 2025, o dilema é saber se os EUA verdadeiramente vão intervir militarmente e arriscar a guerra contra a China.

 

Isso poderia precipitar a Terceira Guerra Mundial?

Sem dúvida. Por um lado, os EUA não podem deixar de intervir militarmente no caso de uma invasão chinesa contra Taiwan. Caso contrário, todo o seu sistema de alianças ruiria. Seria entregar à China a liderança e a hegemonia na região e até no mundo. Isso pode ser razão para arriscar uma guerra.

Por outro lado, os riscos são tremendos. Tanto os EUA como a China têm misseis capazes de se destruírem um ao outro. O início de uma guerra com a China significa uma possível escalada para uma guerra total. Porque é que os EUA não aplicam a mesma lógica que tiveram em relação à Crimeia? Os EUA não desencadearam uma guerra com a Rússia.

Esperemos que, em primeiro lugar, não haja uso da força da China contra Taiwan. Mas a situação é delicada. No meu ponto de vista, há 50% de probabilidade de resultar numa guerra.

 

Independentemente do que acontecer com Taiwan, o mundo vai tornar-se mais sinocêntrico?

Exactamente. A China está a criar um mundo paralelo, sinocêntrico, com as parcerias bilaterais China-África, ou o Fórum de Macau, ou os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, e África do Sul), ou a Organização de Cooperação de Shanghai, ou as parcerias entre a China e as Ilhas do Pacífico. São apenas alguns exemplos de um mundo criado sem o Ocidente e com a China no centro.

A China quer a hegemonia, quer que o mundo seja como a China quer que ele seja. E Xi Jinping quer provar que o sistema socialista é melhor do que o modelo capitalista. Não podemos desligar a China do Partido Comunista da China (PCC). O PCC vai buscar a sua legitimidade ao crescimento económico, à unidade da China e à sua afirmação internacional. E o grande objectivo da China é a realização do Comunismo.

A China é uma civilização e é um Estado-Nação. Tem a história mais longa e ininterrupta do mundo, com mais de 5 mil anos. Durante mais de 2 mil anos, a China foi central na Ásia Oriental. Deixou de o ser durante 150 anos. E agora está a voltar a ser central, não só nessa região, mas no mundo.

 

 

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