Arranhar o céu sem magoar a Terra

Quase 70% da população mundial terá migrado para as cidades até 2050. No mundo, seremos cerca de 10 mil milhões de pessoas. Os dados das Nações Unidas revelam o enorme desafio que o mundo tem pela frente: como alojar e alimentar toda esta população sem aumentar a pegada ecológica? Luís Bettencourt, director do Instituto Mansueto para a Inovação Urbana da Universidade de Chicago, acredita que as soluções estão aí e só têm de ser postas em prática.

por Filipa Basílio da Silva

Entrevista com o físico Luís Bettencourt Director do Instituto Mansueto para a Inovação Urbana da Universidade de Chicago, onde também lecciona a cadeira de Ecologia e Evolução

As soluções existem. Só que não é rápida a velocidade a que os problemas são resolvidos, para que possa continuar a haver crescimento e desenvolvimento humanos sem comprometer a sustentabilidade do ambiente. (…) É nas cidades que as mudanças têm que ocorrer.

 

Fronteiras XXI, no dia 18 de Setembro às 22h30, na RTP3

 

As cidades estão preparadas para lidar com os desafios da crise climática?

Temos de estar todos! É uma questão existencial e é assim que se evolui. Temos de ter a visão e a sabedoria para criar um sistema melhor. Precisamos de mudar a forma como as sociedades e as cidades funcionam, não basta resolver problemas do dia-a-dia. A maior parte dos centros urbanos crescem rapidamente e vão reagindo às necessidades de crescimento e de melhoria das condições de vida dos seus habitantes, mas não antecipam os problemas. Daqui para a frente não poderá ser assim, as cidades têm de ter cada vez menos impacto ambiental. A vantagem é que têm um papel de liderança e uma capacidade prática de modificar sistemas, comportamentos e hábitos de consumo. É nas cidades que as mudanças têm que ocorrer.

 

Conseguimos resolver o problema da poluição atmosférica?

Sim, não é um mistério. A maior parte da poluição atmosférica resulta da combustão de combustíveis fósseis. Mas as soluções são conhecidas. O melhor exemplo é Pequim. Quando a China organizou os jogos Olímpicos, encerrou as fábricas e o ar ficou limpo. Só que esse foi um evento pontual, a vida e a economia não páram. É preciso transformar tecnologicamente os sectores da energia, dos transportes, do tratamento de resíduos, de forma a que permitam que a actividade das cidades continue, com muito menos poluição.

 

É possível acomodar uma população crescente nas cidades sem esgotar recursos nem poluir mais?

Pois, a melhoria das condições de vida esteve sempre associada a um maior consumo de produtos e de bens. Vamos precisar de muito mais energia, de facto, mas existe solução: produzir essa energia de forma renovável – aproveitando a luz solar, a força do vento e da água. A produção de energia não tem que criar poluição. Além disso, um motor eléctrico é cerca de 80% mais eficiente do que um motor a combustão. Portanto, há ganhos de eficiência em mudar as infra-estruturas e os transportes, com a vantagem de que deixa de haver tanta poluição. Depois, o consumo de bens tem que ser alterado com a ajuda do design, da reciclagem, de uma economia mais circular. As soluções existem, é mais uma questão da velocidade a que estes problemas são resolvidos para que possa continuar a haver desenvolvimento e crescimento humanos sem comprometer a sustentabilidade do ambiente.

 

Que materiais deveriam ser usados numa construção mais sustentável?

O betão e o cimento são terríveis do ponto de vista da energia que consomem e da poluição que provocam. E as cidades vão ter uma densidade populacional maior e vai ser necessário construir mais edifícios, que, não sendo todos arranha-céus, deverão ter pelo menos cinco andares. Ninguém quer cortar árvores, mas, se o fizermos de forma sustentável, colocar madeira em edifícios é uma forma de resolver o problema e sequestrar CO2 de forma permanente. Estão a construir-se cada vez mais prédios altos em madeira. O desafio é a escala. Para se conseguir uma redução significativa do CO2 na atmosfera e responder às necessidades de cidades enormes, como na Ásia, na Índia e em partes de África, teria que se criar uma silvicultura intensiva – em que as árvores são replantadas à medida que são cortadas. Isso até seria bom, porque as árvores sequestram mais CO2 quando estão a crescer do que depois de atingirem a sua altura máxima e maturidade. É um ciclo positivo, faz sentido económico e é tecnicamente exequível.

 

Qual será o papel dos parques, jardins (até verticais) e hortas urbanos?

Há várias razões para as cidades disponibilizarem mais estes espaços de lazer e ecológicos e incentivarem à sua utilização. Muitas dessas motivações estão relacionadas com o bem-estar dos habitantes, porque a possibilidade de andar de bicicleta e a pé torna a vivência nas cidades mais agradável. Depois, as plantas ajudam a captar dióxido de carbono da atmosfera e a limpar o ar, o que contribui para a saúde das pessoas. Além disso, a vegetação permite que as cidades não aqueçam tanto, criando oportunidades de sombra e não deixando o material urbano sobreaquecer nas estações mais quentes. Isso significa que os habitantes vão usar menos energia para arrefecer as casas e gastar menos dinheiro. Chama-se a isto serviços ecológicos, porque há uma sinergia entre esse ecossistema e os consumos humanos que evita muita poluição. Do ponto de vista da produção de comida, as hortas urbanas têm vantagens na medida em que não se gastam recursos no acondicionamento e transporte desses alimentos. Mas ainda é muito difícil justificar, economicamente, a produção de comida assim porque os terrenos urbanos são muito caros.

 

Que cidades estão a fazer um caminho de desenvolvimento sustentável interessante?

Muitas cidades americanas estão a promover uma maior utilização da bicicleta como veículo de transporte diário. Tanto Nova Iorque como Los Angeles estão a descarbonizar a sua produção de electricidade muito rapidamente. Aqui, em Chicago, há um grande programa de hortas urbanas nos telhados dos prédios, que permite proporcionar espaços de lazer e fazer uma climatização natural dos edifícios. Singapura também é um bom exemplo, têm muitos prédios com fachadas verdes. Todas as grandes cidades, Lisboa incluída, estão a instalar pontos de carregamento de veículos eléctricos. E um dos maiores desafios para as cidades portuguesas são precisamente os transportes e os automóveis. Aí os líderes são países nórdicos como a Noruega, que já electrificou metade do seu parque automóvel. Está a observar-se uma dinâmica muito positiva, em que as cidades tentam copiar-se umas às outras e competem para ver qual consegue fazer melhor.

 

 

«O que é que podemos fazer pelo planeta?» é o tema do próximo debate Fronteiras XXI, no dia 18 de Setembro às 22h30 na RTP3