ENTREVISTA

“É por falta de financiamento que agora não sabemos como construir uma vacina”

Entrevista a Maria João Amorim, virologista e investigadora principal do laboratório de Biologia Celular de Infecções Virais no Instituto Gulbenkian de Ciência por Filipa Basílio da Silva

Nunca houve, na História, uma pandemia provocada por um coronavírus. E não houve vontade de financiar um estudo alargado destes vírus. Mesmo com os alertas da comunidade científica para esse risco, por já terem exisitido dois eventos epidémicos no início deste século com coronavírus: o SARS-1 e o MERS-1.

 

Não perca o debate Fronteiras XXI “Viver com o vírus”, no dia 13 de Maio, às 22h, na RTP3

 


 

Investir na investigação científica, no desenvolvimento de conhecimento fundamental e na prevenção de pandemias deve passar a ser uma prioridade de quem governa. A virologista Maria João Amorim defende que Portugal precisa “de uma política para a ciência com visão a longo prazo”, um passo que considera essencial para “não se repetirem os erros do passado”. A investigadora principal do laboratório de Biologia Celular de Infecções Virais no Instituto Gulbenkian de Ciência não tem dúvidas: a razão pela qual “não estávamos preparados para lidar com uma situação destas” é que “não houve vontade de financiar um estudo alargado destes vírus”.

 

Como é que o surto de coronavírus tomou as proporções que vemos, tendo a comunidade científica alertado para a elevada probabilidade de um dia se perder o controlo a uma epidemia?

Nunca houve, na História, uma pandemia provocada por um coronavírus. E não houve vontade de financiar um estudo alargado destes vírus. Apesar de a comunidade científica ter avisado que já tinha havido dois eventos epidémicos no início deste século, que envolveram dois coronavírus: o SARS-1 e o MERS-1. É verdade que os coronavírus são particularmente difíceis no que toca a trabalhar em laboratório, porque não crescem bem em cultura e são poucos os modelos para estudá-los. Mas é por falta de financiamento que não sabemos agora como construir uma vacina, quais os antivirais que funcionam e as vias de contágio que deveríamos bloquear.  De facto, nós não estávamos preparados para lidar com uma situação destas, de fechar fronteiras e parar a economia.

 

Que classes de vírus têm sido alvo de maior estudo?

Ultimamente, temos vindo a explorar o potencial pandémico dos vírus da gripe e a preparar-nos para uma eventual pandemia com gripe. Porque foram as pandemias mais graves que aconteceram no século XX e nos séculos anteriores. Mas há muitos vírus que provocam epidemias recorrentes e têm potencial para provocar pandemias, que também precisam de ser investigados. Temos constantemente infecções em humanos provocadas por vírus presentes em animais. É o caso da raiva, do ébola, do Lassa e das febres hemorrágicas. Também existem vírus que estão em insectos e que conseguem infectar humanos, como a dengue ou o vírus do Nilo Ocidental.

 

Alguns cientistas apontam a China como origem de vários vírus com potencial pandémico, como o SARS e o MERS. Devemos estar mais atentos a eventuais novos vírus oriundos da Ásia?

Vírus com potencial pandémico existem em todo o lado, não é só na Ásia. A epidemia do Zika foi no Brasil. Houve vários surtos de ébola em África. E o vírus Nipah também afectou a Austrália. Não me parece que a China seja mais ou menos vulnerável a este tipo de ocorrências.

 

São mais de 100 as equipas que estão a tentar desenvolver vacinas contra a Covid-19 ou os coronavírus em geral. Uma vacina que combata um vírus isolado é mais eficaz do que uma vacina universal?

Duvido que consigamos um tratamento global. Reconheço que seria ideal termos uma vacina que fosse eficiente para todos os organismos que nos façam mal. Mas, ao mesmo tempo, é importante o sistema imunitário ir sendo estimulado. Penso que caso a caso possa ser mais eficaz.

 

O desenvolvimento acelerado de uma vacina corre riscos? Erro, fraude?

Como houve uma monopolização para a comunidade científica trabalhar neste problema, qualquer descoberta, conhecimento ou tratamento que pareça promissor é imediatamente avaliado por uma série de outras equipas. Portanto, quer a ciência boa quer a ciência fraudulenta vão sendo rapidamente expostas. Isso é muitíssimo bom.

 

Estamos preparados para lidar com novas vagas de infecções de Covid-19?

Sem dúvida que estamos mais bem preparados do que no início da pandemia. Mas é essencial aprender com os países que começaram a pandemia antes e que já conseguiram libertar-se da primeira vaga. Singapura, por exemplo, a Áustria, a Suíça, a Dinamarca, a Coreia do Sul, e a própria China. Temos de analisar as suas situações e devemos implementar soluções testadas. Acima de tudo, não ter medo de tomar decisões.

 

Acredita que depois da Covid-19 o mundo vai investir mais na investigação científica?

Acho que hoje há uma maior consciencialização no mundo de que é importante saber como as coisas funcionam. É muito importante desenvolver-se o conhecimento fundamental, porque é aquele que nos dá as armas para lidarmos com este tipo de situações. Pode não ter uma aplicação quando nos dispomos a desenvolver conhecimento básico, mas daqui a 20 anos pode ser absolutamente essencial para resolvermos um problema que apareça nessa altura. Não nos podemos focar só em investigação aplicada. Saber como se deve reagir numa pandemia, como proteger as pessoas a nível sanitário e hospitalar, que plataformas podemos activar, quais os comportamentos das pessoas neste tipo de situação… Todas estas questões têm de ser pensadas.

 

Quais são os domínios científicos onde deveríamos investir mais, em Portugal?

Portugal tem uma massa crítica bastante boa, que resulta de avultados investimentos e de muitos anos a ter o cuidado de formar bons doutorados. Mas o nível de trabalho que existe para a grande maioria dos cientistas é precário, pago por bolsas. Que falhas é preciso colmatar? Não é especificamente numa ou outra área, mas sobretudo na capacidade de reter indivíduos com sentido crítico. Para podermos desenvolver mais a ciência e associar a ciência à indústria, é muito importante conseguirmos reter as pessoas que temos vindo a formar no país e atrair cientistas internacionais. Precisamos de uma política para a ciência com visão a longo prazo.

 

Podemos evitar uma nova pandemia?

Vamos ter dificuldade em evitar uma pandemia. Acima de tudo, é importante não se repetir os erros do passado. A grande questão é como se controlam as zoonoses. Aquilo que se pretende é que um determinado surto fique no local geográfico onde teve início. Devíamos estender a investigação a vírus com potencial pandémico e a vírus que podem estar num animal, porque em qualquer altura o vírus poderá transpor esse reservatório animal. E devíamos procurar repostas a todos os níveis, no combate a uma pandemia: aumentar a capacidade de resposta dos sistemas de saúde, adquirir a maquinaria necessária para fazer testes de diagnóstico, construir as infra-estruturas para se desenvolver rapidamente uma vacina e/ou um tratamento antiviral, e implementar soluções para os efeitos económicos.

 

 

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