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Banco de Cérebros: uma chave para decifrar a demência

Catarina Guerreiro jornalista e editora-executiva da revista «Visão»

No Hospital de Santo António, no Porto, foi criado um projecto único no país onde vítimas de doenças como o Alzheimer e o Parkinson doam os tecidos cerebrais para que os investigadores possam tentar perceber o que se passa dentro de um dos órgãos mais complexos do corpo humano que leva milhões de pessoas a ficarem dementes. O objectivo é descobrir um tratamento que, pelo menos, consiga parar a progressão destas doenças que, segundo os médicos, são um dos maiores desafios de saúde pública dos próximos tempos, tendo em conta o envelhecimento da população.

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Num canto do laboratório do departamento de Neurociências no Hospital de Santo António, no Porto, encontra-se uma das chaves que pode ajudar a descodificar o que se passa no cérebro de quem fica demente. Ali, estão  armários cheios de frascos com formol, um arquivo em mini gavetas com pedaços de parafina e ainda duas arcas congeladoras a 80 graus negativos.

Servem todos para guardar partes dos cérebros de vários doentes que os doaram antes de morrerem vítimas de demência em Portugal.

Fazem parte do Banco de Cérebros – o único no país, que dispõe de 80 exemplares e tem como objectivo ajudar a investigar um dos grandes mistérios da Medicina: o mecanismo que causa a demência. Esta doença, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), está entre as 10 principais causas de morte em todo o mundo, em especial entre as mulheres, que representam 65% das fatalidades por Alzheimer e outras demências.

Com o envelhecimento da população nos próximos anos, o cenário vai agravar-se.  «As estimativas são preocupantes» alerta Rui Araújo, neurologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, notando: «A OMS estima que em 2050 os casos de demência tripliquem, atingindo os 152 milhões de pessoas“».  Neste momento há 50 milhões.

«Com o envelhecimento acentuado da população portuguesa, doenças como as demências vão tornar-se cada vez mais um problema de saúde pública”, confirma Ricardo Taipa. Ou seja, se a medicina está a permitir que se viva mais anos, ainda não tem respostas para problemas que se agravam com a velhice, como as demências.  Segundo a neurologista Élia Baeta, da Sociedade Portuguesa de Neurologia, sabe-se que o processo que conduz à demência “é a degenerescência dos neurónios, uma consequência do envelhecimento, que leva a deposição de proteínas anormais e morte celular”. Mas, de resto, assumem os especialistas, há muito por descobrir.  Sem cura, sem tratamentos e com o envelhecimento da população, os cientistas tentam encontrar respostas. «Como não se conhecem os mecanismos das demências, não se podem prevenir nem tratar. Só quando se souber a causa se pode arranjar tratamentos», diz por seu lado Rui Vaz, neurocirurgião do Hospital de São João, no Porto.

É esse, garante Ricardo Taipa, o papel do Banco de Cérebros – ajudar a perceber melhor o que se passa no meio de milhões de neurónios e circuitos cerebrais.  Assim, acrescenta o especialista, os exemplares que ali chegam são usados para várias finalidades.

«Nas gavetas estão arquivadas partes do cérebro colocadas em parafina para serem analisadas em microscópio; nas arcas estão outras partes que são guardadas para futuras investigações; e nos frascos em formol está o que não foi usado mas pode ser útil» explica o neurologista, que coordenada o Banco de Cérebros, garantindo que este pode ser uma ajuda fundamental no estudo destas doenças: «Por um lado, analisamos em microscópio e conseguimos fazer o diagnóstico correcto e preciso da doença, pois muitas vezes as várias demências são confundidas. Por outro, a parte que é congelada é depois usada em investigações nacionais e internacionais que ajudam a saber mais sobre estes problemas e que podem um dia traduzir-se em tratamentos».

 

As zonas da memória, aprendizagem e personalidade

Quando um cérebro chega ao laboratório, o primeiro passo é pesá-lo e dividi-lo simetricamente em dois hemicérebros, descreve o neurologista. Depois, em cada uma das duas partes, separam-se as várias áreas do cérebro, que são colocadas individualmente em sacos para congelar ou em parafina.  São cerca de 40 partes diferentes, que representam a diversidade anatómica do cérebro e onde decorre o processo de demência de cada doença. Uma das áreas é o hipocampo, uma pequena estrutura encaixada no lóbulo temporal que é associada à memória e, por isso, é fundamental no caso dos doentes com Alzheimer.

Outra é o córtex frontal, uma zona anterior do lobo frontal que é muito danificada na demência frontal-temporal. Por ser a área responsável pelo controlo do comportamento, pelo juízo crítico e personalidade, os pacientes tornam-se desinibidos e impulsivos. No Banco estão sete cérebros de vítimas desta doença.

Outra das partes do cérebro chama-se substância negra, situa-se no fundo do tronco cerebral (mesencéfalo), tem neurónios com um pigmento escuro (daí o seu nome) e é responsável por ajudar nos movimentos e na aprendizagem, sendo muito atingida nos pacientes com Parkinson.

«As áreas seleccionadas para estudo representam diferentes territórios anatómicos que sabemos terem importância e funções relativamente especificas no cérebro e que geralmente são afectadas no processo degenerativo», esclarece Ricardo Taipa, detalhando que em todos os 80 cérebros analisados há uma marca comum: os neurónios mortos.

«As demências culminam num processo degenerativo que implica morte de neurónios e uma reacção cicatricial a esse processo», refere, explicando que em consequência disso todos os cérebros perdem também volume. «Depois, cada doença e doente diferem na localização preferencial no cérebro dessa perda neuronal e também num conjunto de agregados proteicos anormais que são típicos de determinadas demências e não de outras».  Ou seja, acrescenta, «antes de morrerem as células começam a deixar de comunicar correctamente entre si, com perda de sinapses – processos em que uma célula transmite informação à seguinte e permite a transmissão e processamento de informações.»

São vários os tipos de demências e em Portugal as mais comuns são o Alzheimer e a Demência Vascular. Isso mesmo é também testemunhado no Banco de Cérebros, onde do total de 80 exemplares 23,5% pertenciam a pessoas com Alzheimer e 9,9% a vítimas de demência vascular. De resto, há ainda outros com variados problemas que causam danos cerebrais, como a doença de Parkinson e a demência por Corpos de Lewy.

«Não existe uma demência, mas várias. Em todas, os doentes manifestam sintomas que revelam perda de capacidades cognitivas e comportamentais. O sintoma mais comum é o esquecimento que manifesta a perda de memória», diz Elia Baeta, neurologista da Sociedade Portuguesa de Neurologia.

 

A proteína errada do Alzheimer

O Alzheimer é pelo mundo, e também em Portugal, a causa de 60 a 70% dos casos de demência, doença que afecta 200 mil portugueses. Apesar do enorme impacto, ainda se sabe pouco sobre ela. O que se desconhece é claramente maior do que se conhece”, resume Rui Araújo, sublinhando que ainda há muito para descobrir sobre os mecanismos que conduzem à doença de Alzheimer. «Sabe-se que se depositam proteínas anómalas que levam posteriormente à morte dos neurónios e à perda de função cognitiva». A essa substância, os cientistas chamam de amilóide. Segundo o médico, «a morte neuronal é progressiva, vai condicionando a perda de faculdades, como a memória, o raciocínio, a linguagem e as alterações de comportamento».

Um dos problemas mais associados à doença é sem dúvida a memória. «A forma clássica da doença de Alzheimer decorre com envolvimento dos neurónios do lobo temporal, o que faz com que os doentes tenham dificuldade na retenção de informações novas», esclarece ainda o neurologista.

Já a demência vascular resulta de problemas na circulação do sangue para o cérebro e, em alguns casos, a degradação inicia-se por  existirem vários e pequenos enfartes cerebrais pequenos (acidentes isquémicos transitórios) que causam danos em certos circuitos cerebrais, ligados não só à memória mas também, por exemplo, à linguagem,  segundo explica a Associação Portuguesa de Familiares e amigos de doentes com Alzheimer.

Já noutro tipo de demência conhecida como Corpos de Lewy, formam-se, nas células nervosas que morrem, uns depósitos anormais (chamados corpos de Lewy) de uma proteína (α-sinucleína).

Mas as parecenças entre as doenças são tantas que às vezes é difícil, em vida, perceber e identificar correctamente as diferentes demências. O Banco de Cérebros pode contribuir para a certeza no diagnóstico que faltou em vida. «Muitas vezes em vida pensa-se que é uma doença e depois na realidade quando a analisamos após a morte percebe-se que é outra», confirma o especialista do Hospital de Santo António, que integra o Centro Hospitalar do Porto.

Num trabalho feito recentemente por vários neurologistas do país, e publicado na revista da Ordem dos Médicos («Acta Médica»), são dadas recomendações sobre a forma de diagnosticar a Demência por Corpos de Lewy. Os peritos sublinham que esta doença é das causas mais comuns de demência neurodegenerativa acima dos 65 anos, tendo uma taxa de declínio rápido. E alertam que muitas vezes não é diagnosticada, o que faz com que não possa ser devidamente gerida.

Segundo os médicos, estes doentes têm alucinações visuais recorrentes. «São bem formadas, detalhadas e coloridas, geralmente de pessoas adultas, crianças ou animais», indicam, acrescentando que outro sinal é a existência de «movimentos nocturnos que traduzem conteúdos dos sonhos», o que causa problemas de sono.

Além disso, descrevem, os pacientes têm problemas de rigidez e tremores (como no Parkinson) e, durante o dia, revelam “flutuações cognitivas e da vigília”.

Foi esta doença que atormentou o actor norte-americano Robin Williams, que se suicidou aos 63 anos. Num documentário que se seguiu à morte do comediante em 2014, a sua mulher, Susan Williams, contou que ele tinha insónias e também alucinações que o faziam gritar de madrugada. Vivia num inferno, relatou: além da dificuldade de actuar, por não se lembrar das falas, não conseguia dormir nem movimentar o braço esquerdo e ficava obcecado com determinadas coisas.

Susan Williams, que mais tarde escreveu o livro «O terrorista dentro do cérebro do meu marido», contou que só soube da doença de Robin Williams três meses da morte do actor, tendo sido confundida em vida com Parkinson ou até uma depressão. Esta dificuldade, que sucede com muitos doentes portugueses, levou os autores do trabalho a sublinharem que «intervenções com a de Susan Williams «são essenciais para consciencializar a sociedade para esta doença. E deixam um aviso: «É necessário sensibilizar os médicos, os doentes e as suas famílias para a importância da doação de cérebros para o Banco Português de Cérebros», onde se fazem diagnósticos definitivos através de análises ao tecido cerebral.

Ali, estão exemplares de cinco doentes portugueses que foram traídos por estes Corpos de Lewy. «Alguns vinham com outro diagnóstico», confirma o coordenador do projecto que foi lançado em 2014, tendo como presidente o neurologista Manuel Melo Pires e como coordenador-executivo Ricardo Taipa, que conta com uma equipa de cinco pessoas.

Mas se os mecanismos da demência ainda não foram descobertos – ou seja, o que leva a que uma pessoa desenvolva a doença e outra não, alguns factores de risco já estão identificados. “Há múltiplas causas, talvez algumas ainda não conhecidas. A idade é o factor de risco mais importante”, começa por explicar Élia Baeta.

Aliás, as projecções da Alzheimer Europe indicam que, em 2025, 2,29%  da população portuguesa terá demência, valor que chegará aos 3,82% em 2050. Isto com base no envelhecimento da população. Basta ver que, segundo a comunidade médica, o risco de ter Alzheimer duplica a cada 10 anos a partir dos 65 anos.

No Banco de Cérebros, a idade média em que morreram os doentes a quem pertenciam aqueles 80 exemplares foi de 67 anos. “Recebemos dadores com diferentes tipos de doenças neurológicas e as idades variam entre os 18 anos e os 85 anos”. O mais velho faleceu com Alzheimer, sendo um dos 19 com a mesma doença que se encontram nesta unidade única no País.

Admitindo que o aumento da longevidade contribuirá para o crescimento das demências, o neurologista Rui Araújo garante que «é possível envelhecer-se sem demência». O médico explica: «Ainda que em muitas pessoas existam factores de risco que não podem ser evitados, uma porção significativa de pessoas tem factores de risco modificáveis, como o sedentarismo, a ausência de actividade física, uma alimentação rica em hidratos de carbono e gorduras, o tabagismo, hipertensão arterial, diabetes».

É que estas situações, avisa, «contribuem para lesões vasculares cerebrais que poderão acelerar ou mesmo causar demência». A médica Élia Baeta concorda: «Tem-se comprovado que mais de 40% das demências poderiam ser atrasadas ou evitadas se fossem combatidos factores como a hipertensão, diabetes, dislipidemia, hábitos tóxicos como etilismo e tabagismo, obesidade, inactividade com falta de exercício físico, iliteracia e insuficiência de treino mental, doenças psiquiátricas como a depressão e traumatismos crânio encefálicos».

Há, no entanto, certas demências que estão relacionadas com a genética. É o caso da demência frontotemporal – um terço dos doentes herdam-na dos pais.  E o caso de problemas mais raros que afectam os circuitos cerebrais, causando danos cognitivos. Foi o que sucedeu com o jovem de 18 anos que doou o seu cérebro ao Banco do Hospital de Santo António. É o dador mais novo e vítima de uma demência que herdou dos genes dos pais.

No Alzheimer, diz Élia Baeta, também há alguma tendência genética, mas que não explica a maior parte dos casos.

 

À procura da solução

Em laboratórios científicos de todo o mundo tentam encontrar-se respostas para estas doenças. E alguns investigadores recorrem, para isso, a tecidos cerebrais de doentes portugueses no Banco de Cérebro.

“O banco Já contribuiu com material para investigação em seis projectos nacionais e internacionais”, conta Ricardo Taipa. Com a colaboração desta unidade foi possível, por exemplo, “estudar mecanismos de neuro-inflamação em duas demências neurodegenerativas, na doença de Alzheimer e demência frontotemporal”.   Já quanto à principal descoberta que contou com a ajuda do Banco de Cérebros, o neurologista aponta a «descrição da patologia de uma forma genética de doença de Parkinson».

«Com o estudo do cérebro deste dador pudemos verificar que a patologia se aproxima muito da forma esporádica (e mais comum) da doença, abrindo a possibilidade de usar este modelo genético para o estudo da doença e testar novos tratamentos».

Apesar de não terem sido noticiadas grandes descobertas nos últimos anos que contribuíssem para mudar a história destas doenças, Élia Baeta garante que «há frequentemente resultados que por si só parecem ser menosprezáveis mas que vão sempre acrescentando conhecimento». Seja «em relação à prevenção, ao diagnóstico, à caracterização genética, a patogénese e neuropatologia, mas também aos estudos moleculares e consequentemente à esperança de terapêutica», acrescenta. Por exemplo, diz, «hoje já se consegue saber que o desenvolvimento do Alzheimer se inicia vários anos antes dos sintomas». No entanto, ainda não há forma de prever o seu aparecimento.

Este e outros mistérios permanecem e, por isso, os tratamentos são raros e destinam-se apenas aos sintomas.

Rui Araújo sublinha que os tratamentos melhoram «os esquecimentos, as alterações do comportamento, do humor, do sono, mas não travam a progressão da doença».  Essa é hoje a meta de muitos cientistas.

«Tem havido um enorme esforço da comunidade científica para produzir um fármaco “modificador de doença”, ou seja, que se administrado cedo possa travar a sua progressão», conta o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, adiantando que, neste momento, existem vários estudos a decorrer, «desde moléculas novas para tratamento, até ao doseamento de proteínas associadas à doença de Alzheimer no sangue periférico». Todos trabalhos que classifica de «promissores». Avisa, contudo, que «é prematuro criarem-se expectativas que poderão ser defraudadas».

No Banco de Cérebros há vários projectos em curso. Nomeadamente com a Universidade do Minho, a Universidade do Porto, a Universidade de Lund, na Suécia, e a Universidade de Madrid, em Espanha.

Entre as investigações que correm pelo mundo há uma que chama a atenção de Élia Baeta: o estudo da auto-imunidade em relação a estas doenças.

Decifrando: os cientistas acreditam que o sistema imunitário pode ter um papel importante nas demências. Há até duas teorias, explica Ricardo Taipa. Uma que investiga a possibilidade de ser esse sistema o próprio agressor, neste caso dos neurónios, como sucede nas doenças auto-imunes. Outra teoria, que de acordo com o médico tem tido mais ensaios e estudos, liga a demência a uma falha do sistema imunitário. Ou seja, este não é capaz de remover o «lixo» que se acumula na sequência do normal funcionamento do cérebro. Por exemplo, nas comunicações entre neurónios ao longo do tempo e de forma repetida vão-se acumulando produtos que não têm função que têm de ser retirados. «Ao não serem podem ter um efeito nocivo na célula e promover a neurodegeneração», explica Ricardo Taipa, dizendo que são precisas ainda muitas respostas, pois por enquanto, admite, «o cérebro continua a ser um grande mistério por desvendar».

 

 

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