Dez tecnologias que podem mudar as nossas vidas

Joana Ferreira da Costa

E se amanhã o seu filho o levar de carro para o trabalho antes de seguir para a escola? A hipótese está longe de ser ficção, porque os carros sem condutor são já uma realidade. Esta é apenas uma das dez tecnologias que, segundo os consultores do Parlamento Europeu, prometem revolucionar a forma como vivemos, trabalhamos ou produzimos alimentos.

“Como será o trabalho do futuro?” foi o tema do Fronteiras XXI de 15 de Março de 2017 na RTP3.
E se amanhã o seu filho o levar de carro para o trabalho antes de seguir para a escola? A hipótese está longe de ser ficção. Segundo os últimos dados do Parlamento Europeu dentro de alguns anos “milhares” de carros sem condutor, vão andar pelas ruas e auto-estradas da Europa.
A circulação destes automóveis pode levar a que motoristas de táxi ou de autocarro deixem de ter emprego, revolucionará a forma como se controla o trânsito e mudará a cobrança de indemnizações ou o modo de fazer seguros de acidentes.
Estes “veículos autónomos” são apenas uma das “dez tecnologias que podem mudar as nossas vidas” e foram identificadas no relatório do STOA (ver estudo), o departamento do Parlamento Europeu (PE) que presta consultadoria às comissões parlamentares reunindo os últimos avanços científicos e tecnológicos.
Com base neste documento, os eurodeputados avaliaram os benefícios e desafios dos avanços da tecnologia para a Europa. E no passado dia 16 de Fevereiro, 396 eurodeputados aprovaram uma resolução onde fazem propostas concretas à Comissão Europeia sobre a forma como deve regular alguns destes novos desenvolvimentos, da robótica à inteligência artificial. Querem uniformizar a legislação para todos os países membros, ao mesmo tempo que garantem a protecção de pessoas na sua relação com robôs ou a inteligência artificial. E pedem, por exemplo, que, no futuro, os robôs mais avançados sejam considerados “pessoas electrónicas”, podendo ser responsabilizados pelos problemas que criem.
Aqui fica a lista da dezena de novas tecnologias identificadas no relatório “Antecipar o Futuro”, bem como as vantagens, dúvidas e os desafios que cada uma coloca aos legisladores europeus, segundo os responsáveis do STOA.

1. Veículos autónomos
Os carros sem condutor são apenas um dos veículos autónomos a ser testados na Europa. O Google Car foi dos primeiros exemplos, mas há outros que começarão a circular em projectos-piloto, nomeadamente em Lisboa, já este ano e em 2018. Segundo a Google os carros sem condutor poderão evitar 30 mil mortes por ano nas estradas dos EUA. Por outro lado, a sua circulação vai exigir uma imensa quantidade de dados. Os veículos autónomos serão capazes de escolher o melhor caminho para chegar ao destino ou interagir com outros veículos e máquinas de forma automática. Segundo alguns analistas, explica o relatório, dentro de cinco anos existirão 1,8 mil milhões de conexões automóveis de máquina para máquina, ou seja que serão feitas sem a intervenção do homem.
Impacto previsto: Melhoria na circulação e fluidez do trânsito, redução de acidentes rodoviários, aumento do número de veículos eléctricos, redução da poluição atmosférica.
Impacto imprevisto: Estes veículos poderão ser conduzidos por menores ou deficientes que hoje não podem guiar um carro? Qual será o efeito no sector dos transportes? De quem será a responsabilidade em caso de acidente? Do utilizador, do construtor do veículo ou do fabricante da tecnologia?

2. Grafeno
Nunca ouviu falar dele? É natural… Este é “o primeiro nanomaterial 2D produzido por cientistas”, revela a análise do STOA. Feito a partir de grafite, é considerado o material mais forte, leve e fino do mundo, com potencial para substituir o aço. Os cientistas descrevem-no como altamente flexível e um “excelente” condutor eléctrico e térmico, podendo ser usado no fabrico de electrónica, de células fotovoltaicas ou de circuitos ópticos, por exemplo. A proeza de produzir grafeno com a espessura de um átomo valeu, em 2010, o Nobel da Física aos investigadores Konstantin Novoselov e Andre Geim, da Universidade de Manchester, Inglaterra. Hoje este material está a ser feito e testado em centenas de laboratórios.
Impacto previsto: Pode ser usado no fabrico de ecrãs sensíveis, lentes de contacto para visão nocturna, chips mais pequenos e circuitos mais rápidos, células fotovoltaicas ou como material para a impressão em 3D.
Impacto imprevisto: Apesar de o grafite ser abundante, as grandes reservas deste mineral estão na China, Índia e Brasil. Se a UE fosse dependente deste minério qual seria o impacto para a economia dos 28? Se o grafeno for usado na produção de energia fotovoltaica que efeitos teria no sector europeu de energia renovável?

3. Impressão 3D
Imprimir objectos a três dimensões a partir de um simples ficheiro digital poderá revolucionar a forma como consumimos e temos acesso aos produtos. Neste momento  já é possível imprimir armas, jóias ou peças aeroespaciais através destas impressoras que, em que em vez de tinta, depositam “camadas sucessivas de materiais de plástico, metal, madeira, cimento”, diz o relatório.
Segundo o STOA já foram impressos sistemas vasculares artificiais, prevendo-se que, no futuro, se criem tecidos e órgãos humanos utilizando células de organismos (bio-impressão).
Impacto previsto: Pode mudar a economia baseada no consumo, já que será possível imprimir em casa, desde roupa a canetas. Em áreas como a medicina a revolução será enorme: dentro de alguns anos, por exemplo, poderemos tratar queimaduras graves com um produto em spray, produzido através de uma bio-impressora que usa cópias das células do doente e colagénio.
Impactos imprevistos: Com a generalização da impressão 3D “caseira”, desaparece a necessidade de comprar directamente em lojas, o que poderá afectar sobretudo o comércio local, mas também a interacção social. O modo como esta tecnologia for usada pode também provocar grandes desigualdades sociais.

4. Cursos online abertos a todos
A possibilidade de tirar cursos através da Internet permite que milhares de pessoas em todo o mundo tenham aulas em simultâneo, muitas vezes de forma gratuita. Nos EUA, onde o ensino superior tem poucos apoios públicos, o recurso a este tipo de cursos online disparou após o aumento das propinas em 2012, revela o STOA. Na Europa, diz o relatório, algumas instituições começam também a utilizá-los “como forma de tornar as aulas mais estimulantes”, podendo depois os alunos tirar dúvidas directamente com os professores.
Impacto previsto: Redução de custos pagos por alunos e universidades, alargamento do acesso ao ensino superior, aumento da empregabilidade dos estudantes. Há críticas e preocupações quanto à qualidade do ensino.
Impactos imprevistos: Podem estes cursos aumentar o acesso ao ensino superior? De que forma é que os mais velhos, com menores capacidades tecnológicas, beneficiarão deste conhecimento? A massificação destes cursos pode facilitar a utilização indevida dos dados fornecidos online pelos estudantes?

5. Moedas virtuais (bitcoin)
Moedas como a bitcoin funcionam virtualmente entre um grupo de utilizadores anónimos através da internet. Formam uma rede de pagamentos electrónicos de bens e serviços em que as moedas trocadas ficam guardadas numa carteira digital. Todas as transacções são registadas num livro contabilístico online, acessível a todos os utilizadores do sistema, tornando desnecessário o controlo bancário. Devido ao nível encriptação, diz o relatório, a moeda virtual é uma alternativa muito mais segura do que as actuais formas de pagamento: dinheiro vivo, cartões de crédito/débito ou transferências entre bancos.
Impacto previsto:  O uso generalizado destas moedas tornaria desnecessárias as contas bancárias e “reduziria drasticamente” os custos com as transacções.  A adopção de moedas virtuais pelas instituições financeiras seria o “começo de uma nova era de meios de pagamento altamente seguros, mais baratos e de fácil acesso”, defende o STOA.
Impactos imprevistos: A segurança destas moedas é uma faca de dois gumes: em caso de fraude será muito mais complexo seguir o rasto de transacções suspeitas, já que no sistema todos os utilizadores são identificados apenas por um número, ao contrário do que hoje acontece nos bancos, que registam outros dados de identificação e localização.

6. Tecnologias para usar junto ao corpo
Estas novas tecnologias incluem desde tecidos inteligentes, que garantem uma maior protecção contra o frio ou o calor, até aparelhos electrónicos, como pulseiras que vigiam sinais vitais. Um dos sistemas mais conhecidos são os Google Glass, óculos com um ecrã na parte de cima de uma das lentes, que permitem caminhar e ver notícias ou ler ao mesmo tempo e que já estiveram à venda no mercado.
Impacto previsto:  Melhoria do controlo de doenças e prestação de cuidados médicos, permitindo a vigilância ao minuto da saúde ou da recuperação dos doentes, em casa ou hospitais.
Impactos imprevistos: De que forma este controlo da saúde à distância pode mudar a relação dos doentes com os seus médicos? O acesso a dados à distância pode pôr em causa a privacidade dos utilizadores? Quem vai recolher, analisar e guardar as informações obtidas através de tecnologias para uso junto ao corpo?

7. Drones
As aeronaves não tripuladas que captam imagens à distância deixaram de ser usadas apenas para fins militares. Neste momento há empresas que utilizam drones para entregar encomendas e cada vez mais utilizadores individuais. Esta massificação levanta questões jurídicas e éticas, até porque a captação de fotografias e filmes coloca “graves” problemas de privacidade.
Impacto previsto:  Os drones poderão ser usados por forças militares e civis para garantir a segurança, o combate a incêndios e o policiamento, substituindo postos de trabalho.  Serão cada vez mais utilizados para fins comerciais e pelo público.
Impactos imprevistos: Os drones podem aumentar “o medo dos cidadãos de serem observados”? Que impacto terá a substituição do policiamento comunitário por drones? Como evitar os riscos de colisão de drones com aviões comerciais e civis?

8. Sistemas aquapónicos
Juntam a criação de peixes à produção de plantas e podem ser uma solução para uma agricultura e pesca mais sustentáveis. Estes sistemas funcionam em “circuito fechado”: os peixes são alimentados com nutrientes e os seus excrementos aproveitados para serem usados como fertilizante para as plantas que crescem numa parte dessa água. Por sua vez as plantas ajudam a filtrar a água que é reutilizada para os peixes. Neste momento, existem numa escala reduzida e com preços de produção elevados quando comparados com a agricultura tradicional.
Impacto previsto: Esta é uma produção sustentável e pode ser uma solução para cultivar alimentos em zonas urbanas. Reduz a quantidade de água necessária para produzir alimentos, possibilitando o seu cultivo em locais mais próximos dos consumidores.
Impactos imprevistos: A tecnologia existente só permite produzir um número limitado de plantas, o que pode ter efeitos na dieta das populações abrangidas. Que efeito teria esta produção nos preços dos alimentos? E que impacto teria no emprego?

9. Tecnologias “Casa inteligente”
Encher a banheira para um banho de imersão ainda a caminho de casa, ligar o aquecimento central para aquecer a sala ou abrir a porta com um toque no telemóvel. Hoje as “casas inteligentes”, onde sistemas digitais estão ligados em rede e comunicam uns com os outros, permitem aos seus habitantes controlar à distância o que se passa no interior dos edifícios. Além de melhorarem a qualidade de vida, já são também uma forma importante de garantir poupanças no consumo de energia, permitindo gerir os gastos com água, gás ou electricidade.
Impacto previsto:  A generalização da tecnologia das “casas inteligentes” pode reduzir o consumo e aumentar o armazenamento de energia em cada habitação. Os edifícios podem até tornar-se mini-estações de abastecimento para carros eléctricos.
Impactos imprevistos: Qual será o impacto na privacidade ou na segurança de sistemas que utilizam dados como os horários e os hábitos dos moradores? Que efeitos pode ter esta tecnologia na forma como se prestam apoios ou cuidados a idosos dependentes, que assim poderiam deixar de estar em lares ou clínicas?

10. Hidrogénio
É considerada neste relatório a forma mais promissora de armazenar energia no futuro. Sistemas de produção de hidrogénio estão a ser desenvolvidos, para permitir que o gás criado seja armazenado e “depois utilizado para alimentar um processo de combustão para voltar a gerar electricidade”, lê-se na análise do STOA. Esta tecnologia de armazenamento, aliada às energias solar ou eólica produzidas nos vários países europeus, pode reduzir custos e as emissões poluentes para a atmosfera.
Impacto previsto:  As novas tecnologias de armazenamento reduzirão o consumo de petróleo e gás, aliviando a Europa da dependência dos países produtores de combustíveis fósseis. Serão essenciais para o aumento das energias renováveis e para garantir “redes inteligentes” de geração e fornecimento de electricidade.
Impactos imprevistos: Estes novos sistemas permitirão que certos locais possam “desligar-se” da rede principal mais facilmente? Isto pode ser mais rentável para habitantes e empresas de certas regiões? Aumentará a utilização de carros movidos a hidrogénio?
No Fronteiras XXI, saiba mais sobre as profissões do futuro, as que estão em risco de desaparecer e como nos devemos preparar para os desafios que aí vêm: Como será o trabalho no futuro?, veja ou reveja online.