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«Precisamos de uma Rural Summit, de reinventar a economia da floresta»

Entrevista a Luís Neves Silva, engenheiro florestal e coordenador do projecto “New Generation Plantations”, do World Wide Fund for Nature (WWF) por Filipa Basílio da Silva

Precisamos que as pessoas voltem a apaixonar-se pelo mundo rural e adoptem novos estilos de vida, mas sem preconceitos. Ideias como que a agricultura intensiva é má, que a agricultura orgânica é que é boa, que o eucalipto é mau, que a floresta natural é que é boa. Precisamos de pessoas descomplexadas e dispostas a inventarem uma sociedade da sustentabilidade. E essa sociedade deverá incorporar novas tecnologias e as nossas melhores tradições ancestrais [aprender a viver na Natureza, conhecer as plantas e saber para que servem]. (...) O mundo rural vai ser a moda daqui a algum tempo. As pessoas já começam a perceber que estamos num momento em que ou nos tornamos sustentáveis ou falhamos. (...) Este sonho é possível, só ainda não encontrámos a forma de o montar.

 

Reveja o Fronteiras XXI “Quanto vale a floresta?”

 

Dependemos delas para respirar, para nos alimentar, para fazer medicamentos, para construir habitações, para combustível e para muito mais. No entanto, parece que a sociedade não tem valorizado todos os bens e serviços que as florestas nos dão – gratuitamente. Luís Neves Silva, coordenador do projecto “New Generation Plantations”, do World Wide Fund for Nature (WWF), nota que “sempre fizemos um grande uso da floresta”, mas deixa um alerta: “O uso de matérias-primas tem vindo sempre a aumentar”. E esta pressão sobre os ecossistemas florestais continuará a acompanhar o crescimento da população mundial e das suas necessidades. Ainda assim, e apesar do monumental desafio que se avizinha, o engenheiro florestal diz que “o progresso que temos feito ao nível da gestão florestal e da gestão agrícola abrem perspectivas de optimismo”. Já em Portugal, Luís Neves Silva frisa que é essencial “despolitizar a floresta” e que “as pessoas voltem a apaixonar-se pelo mundo rural”.

 

 

Porque é que precisamos de florestas?

Sem florestas não existiriam condições para a sobrevivência do ser humano no planeta Terra. Elas são a principal fonte de oxigénio, fazem a reciclagem do dióxido de carbono na atmosfera (ajudam a regular o clima), têm um papel fundamental no ciclo e filtragem da água e são ecossistemas de suporte a grande parte da biodiversidade que existe no planeta. E é sempre importante lembrar que, por seu lado, a biodiversidade é o suporte para os ecossistemas produtivos, quer florestais quer agrícolas – dos quais dependemos.

 

As florestas prestam serviços diferentes consoante a sua localização no planeta?

Sim, as florestas naturais são diferentes consoante as zonas do globo. As florestas equatoriais como a Amazónia são tropicais, de climas quentes. Caracterizam-se por terem taxas de crescimento e de actividade biológica muito intensa, devido ao calor e à humidade. São extremamente ricas do ponto de vista da biodiversidade e também grandes armazéns de carbono. Na faixa europeia e dos Estados Unidos da América temos as florestas temperadas, que mudam no inverno e no verão – muitas espécies perdem folha no inverno –, e têm um crescimento mais lento. Mais a norte, antes de chegarmos aos polos, temos as florestas boreais – tipicamente com espécies de folha permanente (como os pinheiros e os abetos) e de crescimento muito lento. Estas florestas têm uma enorme importância do ponto de vista do clima, porque armazenam essencialmente o carbono ao nível do solo. Como os climas são muito frios, a degradação da matéria orgânica é muito lenta; então, esses solos são muito profundos e armazenam grandes quantidades de carbono. O aquecimento dessa região e o aumento dos incêndios é uma das grandes ameaças para o clima, actualmente, porque esses solos vão ardendo lentamente e libertando grandes quantidades de gases com efeito de estufa para a atmosfera.

 

Qual é o valor económico da floresta?

Sempre fizemos um grande uso da floresta, desde os tempos remotos em que recolhíamos e caçávamos, até às matérias-primas. Ao longo dos séculos, fomos evoluindo na agricultura e dependendo menos da parte de recolecção. Mas o uso de matérias-primas foi aumentando sempre. Retiramos das florestas naturais desde plantas medicinais para a produção de medicamentos, tratamentos, produtos químicos, até ao uso da madeira. Hoje, temos florestas intensivas de elevada produtividade e exclusivamente viradas para a produção dos materiais que nós precisamos. São uma estratégia para aliviar a pressão sobre as florestas naturais, porque se nós usamos uma mata de eucalipto para fazer madeira não precisamos de extrair essa madeira de uma floresta natural.

 

O aumento da população mundial e das necessidades de consumo podem ser uma ameaça para as florestas?

Sem dúvida que o crescimento da população coloca pressão sobre os ecossistemas e os recursos naturais. Desde que nasci, há 50 anos, a população mundial passou de 3,5 mil milhões para quase 8 mil milhões – mais do que duplicou durante a minha vida. É absolutamente incrível. Nas próximas décadas vamos chegar perto dos 10 mil milhões, segundo as projecções das Nações Unidas. E vamos ter de encontrar forma de resolver problemas extraordinários. Mas o progresso que temos feito quer ao nível da gestão florestal quer ao nível da gestão agrícola também nos abrem perspectivas de optimismo. Hoje, apesar de ainda existir pobreza e populações com falhas básicas, a maioria da população mundial tem acesso àquilo que é necessário para viver: alimentos, medicamentos e condições de habitação. Algo impensável se discutíssemos isto nos anos 90. A forma como nos países mais desenvolvidos conseguimos equilibrar a sociedade desenvolvida e a protecção da natureza, permite-nos pensar que isto será uma forma de estar no mundo que se vai alargar às outras regiões do planeta que entraram nesta fase do desenvolvimento mais recentemente.

 

Acredita que é possível conservar as florestas naturais e ter uma economia mundial desenvolvida?

Será possível, certamente. Só ainda não encontrámos esse equilíbrio. Existe uma tensão muito grande entre países que hoje estão preocupados com o ambiente e países que estão preocupados com o desenvolvimento. Mas o mundo ocidental não pode esperar que os países que começaram há 20 anos um processo de desenvolvimento industrial e de crescimento da população consigam dar o salto quântico e adoptem as mesmas práticas que os países europeus que começaram este processo há 100 anos.

Na primeira metade do século XX, a Europa ficou destruída após duas Guerras Mundiais e hoje a sua população tem qualidade de vida e um certo nível de bem-estar. E é por causa dessa evolução que, hoje, a Europa se pode dar ao luxo de ter uma política ambiental desenvolvida. Só podemos pensar que as regiões do globo que estão agora nesse processo de desenvolvimento e têm problemas de poluição e de destruição de ecossistemas, elas próprias também vão encontrar as suas estratégias de satisfação das necessidades básicas da população e equilíbrio com o mundo natural. Há de facto países que estão a lutar para chegarem a esse nível de bem-estar e estão a fazer muito uso dos recursos naturais. Mas, durante muito tempo, o mundo ocidental fez um grande uso dos recursos naturais do mundo inteiro. É uma questão de justiça social e mundial.

 

Falta solidariedade e educação para haver um desenvolvimento sustentável, no mundo?

A educação é sem dúvida central em qualquer processo de crescimento. Mas o mais importante nesta relação entre os países ricos e os países pobres passa por os países ricos não chegarem com a receita já passada. Os países ricos devem estar dispostos a ajudar na criação de mecanismos, de instituições e de massa crítica que possam implementar soluções.

Sim, precisamos de solidariedade e de cooperação, mas também precisamos de uma governança internacional que, infelizmente, nos últimos cinco anos foi muito maltratada. Esperemos que esta pandemia sirva para os cidadãos e os políticos perceberem a importância dessa gestão internacional dos problemas. Pandemias e alterações climáticas não se resolvem à escala nacional, dentro de fronteiras e com nacionalismos exacerbados.

 

Que florestas vamos ver no planeta, nos próximos 50 anos?

Vamos ver mais florestas naturais bem protegidas e mais florestas de produção intensivas. Mas precisamos de territórios mais integrados, em que as cidades, a agricultura e as pessoas coexistam lado a lado com os ecossistemas naturais.

 

Como é que se consegue essa integração do território?

Consegue-se através de uma análise do território, para perceber quais são os ecossistemas que precisam ser protegidos e quais são as melhores zonas para produção agrícola e para produção florestal. Por exemplo, as zonas em torno dos rios são importantes corredores ecológicos para as espécies. Além disso, precisamos de alocar espaço para a expansão urbana. No fundo, criar um mosaico de diversos usos do território.

Depois, precisamos de caminhar para processos onde as comunidades locais (populações que vivem nos territórios, agricultores, ONG’s, autoridades locais, etc.) trabalhem em conjunto – através da criação de plataformas de participação pública e de consulta pública. É importante as pessoas conhecerem o território onde residem, vivenciarem-no e saberem o que lá acontece. É importante que expressem a sua opinião e que os decisores políticos e os investidores tenham essa opinião em conta. Consentimento mútuo é uma questão de educação.

 

Esta proposta de governança participativa é aplicável em Portugal, onde parte significativa do território é uma manta de retalhos (nalguns casos sem dono)?

Portugal tem um problema grave de despovoamento do interior. A região mais problemática é a região Centro, ciclicamente afectada pelos incêndios – cada vez maiores e cada vez mais violentos, porque o território está cada vez mais abandonado. E sempre que há incêndios as espécies pioneiras tomam conta do território, porque recuperam mais rapidamente.

Cada vez temos menos gestão florestal, há menos proprietários, empresários, agricultores e pessoas activas no território. Ainda não conseguimos encontrar a abordagem correcta para travar esse processo e conseguir revertê-lo. E sem pessoas no território, não temos governança participativa nem temos interlocutor para impor uma estratégia de gestão do território. Na região Centro estamos de facto numa situação crítica.

Temos tido uma abordagem muito pobre no debate público sobre a floresta, em Portugal. O movimento anti-eucalipto não tem contribuído absolutamente nada para se encontrarem soluções. A região Centro precisa de ter no seu território pessoas, agricultura, floresta natural, floresta intensiva e espaços de descontinuidade para que o fogo não se comporte de forma descontrolada. Não havendo pessoas, não há ninguém para implementar e gerir modelos de negócio no dia a dia nem para proteger o território. Esse é problema para o qual não temos solução.

 

A que se deve o desinteresse na região Centro do país e o consequente desinvestimento económico no sector florestal?

Na região Centro lidamos com sistemas florestais, ao passo que, por exemplo, no Alentejo lidamos com sistemas agrícolas. Na agricultura, os ciclos são tipicamente anuais e o retorno do investimento é mais rápido. Na floresta, é tudo muito mais lento. Mesmo o eucalipto, que cresce rápido, não deixa de ser lento. E depois tem um problema grave: a floresta não dá resultados a quatro anos, a tempo dos ciclos eleitorais. E a gestão política é baseada no presente, no agora. Resultado, ganha o político que tem uma estratégia de combate aos incêndios. Porque isso é que é visível.

 

Os incêndios são um factor determinante para o despovoamento do Centro?

Sim. Mas é um processo que não começou agora, tem décadas. Há mais de 50 anos que o problema dos incêndios está identificado nesta região. Daí o abandono. Desde o proprietário da terra a qualquer empresário, por muito teimosos que sejam, ao fim de dois ou três incêndios vão embora. E com a intensificação dos incêndios – que passaram a ser incêndios do território, já não poupam as aldeias –, as pessoas já não se sentem seguras em casa. Desde os incêndios de 2017, as pessoas passaram a ter medo, medo de viver na região. O medo é tangível. No ano de 2017 batemos no fundo, mesmo. E é um ciclo que se tem vindo a acentuar. A questão até está na agenda política, mas não se vê a transformação prometida. As câmaras fazem intervenções, como se costuma dizer, “para inglês ver” – neste caso, para quem passar de carro ver.

 

Então, a floresta está esquecida nesta região?

Só 20% da floresta está a ser intervencionada, porque ainda existem três ou quatro grandes grupos a operar no sector florestal em Portugal. Duas no sector do papel, a Navigator e a Altri, a SONAE na madeira e a Amorim na cortiça. Se não fosse a indústria à escala em que a temos hoje, já não havia intervenção no território.

Antigamente, o proprietário individual fazia o seu pinheiro, o seu eucalipto, tinha o seu gado, a sua casa. Isso, na região Centro, está praticamente desaparecido. E não conseguimos reverter. Quando chegar o dinheiro da “bazuca”, não vão estar lá pessoas para os projectos arrancarem. Vai continuar a ser um problema difícil de ultrapassar.

 

Que estratégias proporia? Programas de gestão da floresta a longo-prazo? Atrair nómadas digitais para o interior?

[risos] Sim, vamos sonhar! Primeiro, precisamos de despolitizar a floresta. Esta politização do eucalipto que se faz em Portugal é a coisa mais absurda, e é muito negativa.

Segundo, esta digitalização da sociedade e da economia é uma oportunidade espectacular. Precisamos de uma Rural Summit [risos], de atrair empreendedores e pessoas que queiram reinventar a economia do mundo rural.

Mas a romantização do mundo rural não está a ajudar a encontrar caminhos. Precisamos que as pessoas voltem a apaixonar-se pelo mundo rural e adoptem novos estilos de vida, mas que vão para o mundo rural sem preconceitos. Ideias como que a agricultura intensiva é má, que a agricultura orgânica é que é boa, que o eucalipto é mau, que a floresta natural é que é boa. Precisamos de pessoas descomplexadas e dispostas a inventarem uma sociedade da sustentabilidade. E essa sociedade deverá incorporar novas tecnologias e as nossas melhores tradições ancestrais (conhecer as plantas e saber para que servem).

Nós demos o salto do espaço. Seja pela Internet seja pelas autoestradas, o mundo rural está a um passinho. E isto abre um mundo de oportunidades. O sector financeiro está interessado em investir no território e em novos empresários, portanto há dinheiro. O mundo rural vai ser a moda daqui a algum tempo. As pessoas já começam a perceber que estamos num momento em que ou nos tornamos sustentáveis ou falhamos. Com as alterações climáticas, vamos ter de nos voltar para as matérias-primas naturais. É na agricultura e na silvicultura que vamos encontrar os substitutos. Hoje, a indústria já consegue produzir ecrãs de computador à base de fibras vegetais da madeira. Este sonho é possível, só ainda não encontrámos a forma de o montar.

A Natureza passou a ser uma coisa intocável. Parece um programa da National Geographic, em que só podemos fotografar, não tocamos e não deixamos pegadas. Isso não é saudável, porque cria distanciamento. Precisamos de reaprender a viver na Natureza.

 

 

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