Entrevista

“Em cinco anos, a mesma geração de jovens leva com uma crise outra vez”

Entrevista a Amílcar Moreira, professor convidado do ISEG e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, licenciado em Sociologia e doutorado em Política Social por Filipa Basílio da Silva

“A evidência mostra que experiências negativas no processo de transição entre a escola e o mercado de trabalho têm efeitos fortes a longo-prazo, em termos de progressão salarial e do número de vezes a que se está sujeito ao risco de desemprego. Se os processos se acumularem, os jovens vão ter menos rendimentos, mais dificuldade em arranjar casa própria, mais riscos de saúde e uma pensão mais baixa.”

 

Não perca o debate Fronteiras XXI “Estarão estas gerações perdidas?”, no dia 7 de Outubro, às 22h30, na RTP3

 

Poucos anos passaram desde o fim da última crise económica e o mundo já está mergulhado noutra. Os jovens são um dos grupos que mais tem sofrido com estes impactos, tanto aqueles com alguma experiência laboral como os que ainda não entraram no mercado de trabalho. “Não é expectável que uma economia baseada em salários baixos e condições de trabalho precárias possibilite a emancipação dos jovens”, critica Amílcar Moreira, professor convidado do ISEG e investigador do ICS-UL. Vão além do conforto as razões que levam os mais novos a ficarem cada vez mais tempo em casa dos pais, dependentes da “almofada de protecção que o Estado não oferece”. Mas, mais do que reformas económicas, o sociólogo especialista em políticas sociais diz que é necessário investir nas qualificações da população: “A aposta na Educação é absolutamente vital para a sobrevivência de Portugal a longo-prazo”.


Porque é que os jovens são dos que mais sofrem com as crises económicas?

Sofrem aqueles que estavam no mercado de trabalho há pouco tempo, mas sobretudo os que entrarem no mercado de trabalho durante a recessão. Segundo a Pordata, este Verão, a percentagem de desempregados à procura do primeiro emprego aumentou 40% relativamente ao ano passado. Isso significa que uma parte significativa dos desempregados que temos agora são jovens a quererem entrar no mercado de trabalho. A estes acrescem aqueles que perderam o emprego porque estavam com condições de trabalho precárias, com contratos a tempo certo e a recibos verdes. No contexto da actual crise, esses foram os primeiros empregos a serem destruídos, porque as empresas podiam ver-se livres deles sem terem custos. A forma como os jovens entram no mercado de trabalho é cada vez mais precária.

 

Que efeitos é que essas experiências podem ter na vida dos jovens?

A evidência mostra que experiências negativas no processo de transição entre a escola e o mercado de trabalho têm efeitos a longo-prazo, em termos de progressão salarial e do número de vezes a que se está sujeito ao risco de desemprego. Se os processos se acumularem, os jovens vão ter menos rendimentos, mais dificuldade em arranjar casa própria, mais riscos de saúde e uma pensão mais baixa.

 

Alguns jovens estão a enfrentar uma nova crise no espaço de praticamente cinco anos, desde que terminou a anterior. Como é que isso os vai afectar?

Eles entram nesta nova crise numa situação muito mais precária do que aqueles que eram jovens empregados quando se deu a crise do Euro. Basicamente, no espaço de cinco anos, a mesma geração leva com tudo outra vez. Justamente quando pensavam que a vida deles estava a estabilizar. Se voltarem ao desemprego, estão numa posição muito mais precária.

 

Isso significa que, provavelmente, muitos vão continuar dependentes da família.

Um dos problemas que Portugal tem é os jovens não se conseguirem emancipar suficientemente cedo. Temos pais demasiado protectores e filhos com vontade de sair de casa [risos]. Mas isso também se deve à forma como se gere as expectativas de qual deve ser o processo de transição para um jovem. Há a ideia de que a saída de casa dos pais só se faz quando já se atingiu um contexto de absoluta estabilidade – pode ser por casamento ou por terem conseguido poupar para comprar casa. Por outro lado, quando há crises económicas, os pais e as famílias funcionam como uma almofada de protecção que o Estado não oferece. O Estado Social português não proporciona condições para os jovens terem uma vida autónoma. Nos anos de 1990, nos países nórdicos, havia apoios estatais para promover a emancipação dos jovens. Nós nunca tivemos esta filosofia. E não é expectável que uma economia baseada em salários baixos e condições de trabalho precárias possibilite a emancipação dos jovens.

 

Na crise económica anterior, muitos jovens viram goradas as suas expectativas de encontrar trabalho remunerado ou não precário – mesmo tendo uma licenciatura, mestrado ou até doutoramento. Porque é que devemos continuar a apostar na Educação?

A aposta na Educação é absolutamente vital para a sobrevivência de Portugal a longo-prazo. Nem se pode questionar. O problema é não investirmos suficientemente na Educação para fazer dela o motor do crescimento e modelo de desenvolvimento do país. Há um problema de oferta ao nível do ensino superior e há um problema na procura por parte do mercado, que não está a conseguir preencher as vagas nalgumas profissões. Mas financeiramente compensa as pessoas investirem num curso superior. O prémio salarial da Educação, em Portugal, ainda é relativamente elevado e reduz a probabilidade de se ficar desempregado.

 

Que mudanças seriam necessárias para melhorar a resposta do mercado de trabalho às qualificações dos jovens?

O que acontece no modelo de ensino superior Português é que se a pessoa entra para um curso de Sociologia, só aprende Sociologia. Já no modelo anglo-saxónico, os jovens podem fazer um “major” num curso e um “minor” noutro – ou seja, favorece a aquisição de competências mais transversais e torna os indivíduos mais empregáveis. Em Portugal, as pessoas que estudam humanísticas têm muitas dificuldades no mercado de trabalho, porque os empregadores não reconhecem nesses cursos competências que eles possam utilizar. O que não significa que os jovens não tenham essas competências. Por outro lado, nos países anglos-saxónicos, o curso que a pessoa tira não determina onde ela trabalha. Podes estudar artes e trabalhar no sector financeiro, desde que demonstres que tens competências para fazê-lo. Nesse aspecto, o mercado de trabalho em Portugal é muito mais segmentado e pouco flexível. Seria algo a melhorar.

 

O tecido empresarial português tem interesse em dar formação aos jovens, adequar as competências deles às suas necessidades e apostar na inovação?

Em Portugal, com raríssimas exceções, poucas empresas têm disponibilidade financeira e organizacional para apostar na inovação. Se nem mesmo as maiores empresas e grupos empresariais investem, imagina as pequenas e médias empresas que compõem o tecido económico português.

 

Compensa emigrar nesta conjuntura, como terá sido sugerido aos jovens na crise anterior?

Se esta crise se prolongar, não me admira que a emigração de jovens aumente de forma significativa. Mas é uma reacção natural. Os países que têm economias mais pujantes funcionam como polos de atracção de capital humano. E a mão-de-obra portuguesa é relativamente bem qualificada e integra-se bem. Portanto, somos um país vulnerável a este tipo de situação – estar a alimentar as economias dos países mais desenvolvidos. Compete-nos criar uma economia que não permita isso.

 

Quais são os grupos mais vulneráveis à pobreza, na sociedade portuguesa?

Em 2017, tínhamos uma taxa de pobreza próxima dos 17%. As crianças têm uma taxa de 18% e a população sénior está ligeiramente abaixo. Mas os subgrupos que estão mais expostos ao risco de pobreza são: as pessoas isoladas – que não têm filhos nem companheira(o) –, as famílias monoparentais, e os desempregados.

 

O que é que Portugal tem feito para combater as desigualdades socioeconómicas?

Em Portugal, as desigualdades combatem-se na base, diminuindo a taxa de pobreza. Foi, em parte, por se terem melhorado os rendimentos dos escalões mais pobres da população que observámos uma diminuição das desigualdades de rendimentos, nos últimos 20 anos. Isso deveu-se a uma combinação de factores, como os aumentos do salário mínimo, a actualização do rendimento social de inserção ou o aumento do emprego. Mas a evolução positiva também se deveu muito a políticas públicas em áreas como a saúde e a educação. Apesar de continuarmos a ser um país de baixas qualificações, a escolaridade é cada vez maior e mais pessoas ficam na escola até mais tarde. O que tem tido impacto na distribuição dos salários.

 

Diz que o emprego ajudou a diminuir as desigualdades, mas em Portugal temos quase 11% de trabalhadores que vivem em risco de pobreza.

Sim, um em cada dez portugueses que trabalha não consegue os rendimentos para estar acima do limiar de pobreza. Isso deve preocupar-nos. Da mesma forma que nos deve preocupar o facto de as transferências sociais não serem capazes de impedir que uma pessoa desempregada escape ao risco de pobreza. Em Portugal, o facto de se estar desempregado aumenta muito significativamente o risco de pobreza.

 

Como é que se explica este paradoxo?

Portugal tem um problema de baixos salários. O salário médio está perigosamente próximo do salário mínimo. E houve um aumento significativo de pessoas com salário mínimo. O que não espanta, porque mais de 40% da nossa população activa só tem o ensino básico. Comparando com outros países, somos dos mais mal qualificados da Europa. Não podemos esperar ter uma economia de salários mais elevados enquanto a população não tiver qualificações mais elevadas.

 

Se tornássemos gratuito o ensino a partir dos 0 anos, isso ajudaria a diminuir as desigualdades?

Sim. As mulheres que vivem nas periferias das cidades e se levantam às 5 da manhã para ir trabalhar têm de deixar os filhos com alguém, e não vai ser com as amas nem nos berçários e creches a que as famílias de classe média ou mais abastadas têm acesso – porque os preços são verdadeiramente exorbitantes. Isso cria logo situações de desigualdade que estão na base das taxas de abandono escolar ainda hoje são bastante elevadas no nosso país, apesar de estarem a diminuir. Tem de ser feito um investimento em todo o ciclo de formação das crianças, dos 0 anos até acabar a licenciatura. Portugal tem feito um esforço grande de alargamento do ensino entre os 3 e os 6 anos, mas falta uma rede universal dos 0 aos 3 anos. O ensino é muito importante para promover uma maior igualdade.

 

Incluindo uma maior igualdade de género?

Sim, absolutamente. Este ensino dos 0 aos 3 anos asseguraria uma maior participação das mulheres no mercado de trabalho, porque significaria que não teriam de sair do mercado de trabalho para cuidarem das crianças. Há evidências que mostram que o nascimento de um filho tem um impacto negativo para o salário da mulher e que se mantém ao longo da vida. Mesmo com políticas de apoio, o salário da mulher nunca recupera. O apoio no pré-escolar garante uma maior igualdade de oportunidades e garante às mulheres uma maior equidade com os homens no mercado de trabalho, e em termos macroeconómicos promove uma maior oferta de mão-da-obra.

 

Não perca o debate Fronteiras XXI “Estarão estas gerações perdidas?”, no dia 7 de Outubro, às 22h30, na RTP3

 

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