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“Parem de dizer às multinacionais que Portugal é uma boa aposta porque tem mão-de-obra barata, sol e praia”

Uma conversa com Vasco Portugal, fundador e CEO da empresa tecnológica Sensei por Filipa Basílio da Silva

Lá fora é mais fácil ter capital e meios para fazer crescer um negócio. Os mercados também são mais ricos. É verdade. Mas independentemente disso tudo, Portugal é um país privilegiado. E às vezes é preciso ter visto outras realidades para se perceber isso. Nós somos um dos países mais seguros do mundo, temos pessoas muito afáveis, temos bom clima, temos uma cultura única e estamos relativamente próximos de economias mais ricas do que a nossa.

 

Reveja o Fronteiras XXI «De que empresas precisamos?»

 

Os empresários portugueses são cada vez mais qualificados e viajados, com vontade de inovar e de fazer melhor. Acima de tudo, valorizam o que o país tem para oferecer. Depois de ter passado quase uma década a estudar e a trabalhar no estrangeiro – em domínios tão distintos como o design, a realização, fabricação digital e a engenharia de concepção –, Vasco Portugal regressou para fundar e gerir duas empresas tecnológicas: a Meta e a Sensei. Nesta conversa, descobrimos como um percurso académico diversificado ajudou a formar este empreendedor e que, na sua opinião, Portugal tem tudo para conseguir competir a nível global. Mas, para isso, “precisa de uma mudança estratégica e de mentalidade”.

 

A sua primeira aventura além-fronteiras dá-se cedo, ainda no liceu… o que lhe trouxe essa experiência?

Sim, estava a terminar o 11º e um dos meus professores fazia parte de um programa internacional chamado AFS. Consegui a bolsa para completar o 12º na Holanda. Foi uma experiência absolutamente transformadora na minha vida. Até aos 15 anos não tinha saído de Portugal e como sou de Castelo Branco, uma cidade mais pequena, a experiência de poder estudar no estrangeiro e de ter contacto com outras culturas, outras maneiras de pensar, abriu-me os horizontes. E aproveitei o facto de a Holanda estar numa região central na Europa para viajar sozinho e conhecer mais países. Visitei a Áustria, a República Checa, a Alemanha, Bélgica, França, Inglaterra. Além de que o programa me colocou em contacto com estudantes oriundos de países como a Austrália, os EUA, o Canadá. Foi uma experiência que marcou a minha vida.

 

Teve alguma influência na escolha de se licenciar em Design?

[risos] Na altura não tinha bem noção do peso que o curso que se tira tem no nosso percurso académico e profissional. Na verdade, foi um curso que nunca tinha pensado fazer na minha vida. Mas adquiri conhecimentos que continuam válidos para o que faço como carreira, hoje – dá características especiais ao meu trabalho.

 

Logo depois tirou um curso de realização, manteve-se num domínio criativo.

Bom, esse curso foi mais uma realização pessoal do que uma ambição profissional. O cinema é uma paixão que me acompanha desde muito novo. Mas, mais uma vez, adquiri competências que foram importantes para os primeiros anos no mercado de trabalho. A capacidade de fazer 3D e animação destacaram-me profissionalmente.

 

Foram competências valorizadas no seu primeiro estágio, em Itália?

Sem dúvida. A maior parte das pessoas dentro da empresa não tinha essas competências. E o facto de eu ter esses conhecimentos foi vantajoso, deu-me mais oportunidades dentro da própria empresa.

 

Porque é que na sequência deste primeiro passo profissional decidiu tirar um mestrado na área de Fabricação Digital, em Barcelona?

A experiência anterior levou-me a trabalhar em áreas com as quais nunca tinha interagido, como a prototipagem rápida e a impressão 3D. Coisas altamente revolucionárias naquele tempo. Fiquei a querer saber mais sobre o seu funcionamento, então procurei o melhor mestrado na área. O IAAC – Instituto de Arquitectura Avançada da Catalunha, em Barcelona, tinha o programa mais completo. E lá fui eu. Quando trabalhávamos nos laboratórios de fabricação, havia um ecrã que estava ligado 24 horas por dia aos laboratórios do MIT. Cresceu em mim uma vontade de participar nos projectos do MIT.

 

Seguiu-se então o doutoramento no programa MIT Portugal, em Engenharia de Concepção e Sistemas Avançados de Produção.

Sim. Entre o processo de candidatura e o início do doutoramento passou quase um ano. E durante esse tempo estive a trabalhar em Copenhaga, na Dinamarca. Depois, quando começou o programa, regressei a Portugal. O primeiro ano foi essencialmente curricular, em que as aulas se dividiam sobretudo entre o Instituto Superior Técnico (IST) e o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). No segundo ano, dei aulas no IST e fiz workshops. Descobri que havia lá um laboratório parado, e tentei retomar algumas das actividades de investigação para as quais tinha sido construído.

 

Quanto tempo passou nos EUA? Como compara a experiência no mesmo curso, em Portugal?

Estive dois anos, nos EUA. São duas realidades muito diferentes, Portugal e os EUA. Em Portugal, a componente lectiva é muito grande. No MIT, comecei logo a trabalhar num projecto de um grupo de investigação que queria construir casas com robots.

 

Foi uma viagem ao futuro.

Foi! O objectivo deste projecto era criar um software que permitisse automatizar todo o processo de concepção e de construção. Essencialmente, passar de uma construção manual para uma construção feita por máquinas, braços mecânicos, etc.

 

No fundo, desenvolveu tecnologia para habitações?

Não exactamente. Mais tarde trabalhei no grupo Changing Places, dentro do Media Lab do MIT. O professor Kent Larson convidou-me a participar num projecto de desenvolvimento de micro-casas, chamado CityHome. Aí sim, concebemos casas com um sistema robotizado integrado que adaptava a habitação aos espaços que a pessoa necessitasse em cada momento: ginásio, escritório, salão de festas. Efectivamente, conseguíamos ter o equivalente a uma casa de 200 m² num espaço de 50 m².

 

Nesse laboratório também criavam soluções de mobilidade sustentável?

Sim, desenvolvemos um pequeno carro eléctrico chamado CityCar. Estive sobretudo envolvido na parte do desenvolvimento de soluções de carregamento. Para mim, este era e continua a ser o maior desafio. Se houver uma adesão massiva aos carros eléctricos, tem de se aumentar o número postos de carregamento. De repente, os passeios começam a ficar obstruídos pelos carregadores. O sistema que criei ficaria integrado no passeio e carregaria os carros por indução. Bastaria estacionar os veículos de forma a encaixarem no passeio.

 

Quando é que começou a pensar em abrir uma empresa própria?

Foi sobretudo durante a estadia no MIT que nasceu a vontade de começar uma empresa. Senti que tinha chegado o momento de aplicar todo o conhecimento e aprendizagens acumulados num projecto próprio. O Media Lab do MIT faz investigação aplicada, é financiado por empresas. Em Portugal, parece que a maioria da investigação que se faz está desligada da realidade do mercado. É igualmente fundamental fazer-se investigação geral, mas faz falta ter uma componente de negócio. No MIT, muito do trabalho de investigação resulta em negócios – negócios rentáveis e disruptivos.

 

Porque é que decidiu voltar para Portugal – tendo passado por tantos países onde, eventualmente, seria mais fácil fazer um negócio singrar?

Lá fora é mais fácil ter capital e meios para fazer crescer um negócio. Os mercados também são mais ricos. É verdade. Mas independentemente disso tudo, Portugal é um país privilegiado. E às vezes é preciso ter visto outras realidades para se perceber isso. Nós somos um dos países mais seguros do mundo, temos pessoas muito afáveis, temos bom clima, temos uma cultura única e estamos relativamente próximos de economias mais ricas do que a nossa. E, quando voltei para abrir a empresa (em 2014), houve uma mudança: foram lançados vários projectos tecnológicos de sucesso, em Portugal. Temos vários exemplos de empresas que nasceram e cresceram em Portugal e que se tornaram marcas de referência para o mundo. Por isso, não me sinto minimamente prejudicado por ter fundado uma empresa em Portugal.

 

A Meta foi a primeira empresa que abriu?

Sim, foi uma experiência excelente para quem ainda não sabia bem aquilo em que realmente gostaria de trabalhar. Era uma empresa de serviços, que estava aberta a fazer todo o tipo de investigação e desenvolvimento tecnológico para outras start-ups. Ao longo de dois anos e meio a empresa cresceu: chegámos a ser 21 pessoas. Trabalhávamos com clientes na resolução de problemas e no desenvolvimento de produtos. Fizemos vários projectos em Portugal, Inglaterra, EUA.

 

Funcionou como primeira aprendizagem para o negócio que seguiu, a Sensei? Está agora mais focado no mercado português?

A Meta foi muito importante para a criação da Sensei, sim. Mas a Sensei é uma empresa global, que neste momento só está focada no mercado europeu por uma questão de escala e de maturidade da própria empresa (tem três anos). Nós identificámos um problema suficientemente grande para nos sentirmos entusiasmados a resolvê-lo: melhorar a experiência de compras em loja. O check-out é o grande problema – as máquinas de self-check-out não são necessariamente mais rápidas e eficientes do que ter uma pessoa a registar os produtos. E nós achámos que podíamos resolver este problema através de inteligência artificial e machine learning. Eu gostava de entrar numa loja, escolher aquilo que quero comprar e simplesmente sair da loja quando já tiver tudo. É nisso que estamos a trabalhar.

 

Serão concorrentes da Amazon Go?

Não, a Amazon não é nossa concorrente; é concorrente dos nossos clientes. Nós somos uma empresa que permite a qualquer retalhista competir com as lojas da Amazon Go – desde que tenha a mesma proposta de valor. A Amazon, independentemente de ser uma empresa tecnológica, é um retalhista. Tem uma cadeia de lojas muito grande, sobretudo nos EUA, e algumas lojas na Europa. É claro que a Amazon usa a tecnologia Go como vantagem competitiva para as próprias lojas. A Sensei é uma alternativa para outros retalhistas que queiram oferecer uma experiência de loja semelhante aos seus clientes.

 

De que empresas é que Portugal precisa para não ser tão vulnerável a crises económicas?

Portugal precisa de uma mudança estratégica e de mentalidade. Temos a mesma capacidade de produzir e de fazer crescer as empresas que qualquer outro país bem-sucedido. Mas é preciso criarem-se condições para que tal aconteça. Precisamos de parar de dizer às multinacionais que Portugal é uma boa aposta porque tem mão-de-obra barata, sol e praia. Esta mentalidade está errada. As empresas nacionais devem ser ajudadas a tornarem-se empresas globais. Israel é um país com pouco menos habitantes do que Portugal e consegue exportar serviços e produtos para o resto do mundo. Não vejo porque é que Portugal não possa fazer o mesmo.

 

 

 

 

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