Tirar um curso a qualquer hora e a muitos quilómetros da universidade

Joana Ferreira da Costa

O trabalho está a mudar, a forma de aprender também. Com o crescimento da economia digital e da inteligência artificial, os especialistas acreditam que o trabalhador do futuro terá de estar constantemente a adaptar-se a novos desafios e funções. Aprender durante toda a vida passará, assim, a ser regra. O futuro do ensino superior passa, por isso, por aqui: garantir a melhor educação "online".

«Uma vida, várias carreiras?» é o tema do debate sobre os desafios do ensino superior no Fronteiras XXI de 12 de Setembro na RTP3.

 

O trabalho está a mudar, a forma de aprender também. Com o crescimento da economia digital e da inteligência artificial, os especialistas acreditam que o trabalhador do futuro terá de estar constantemente a adaptar-se a novos desafios e funções. Aprender durante toda a vida passará, por isso, a ser regra. O Ensino online é já uma realidade para muitos estudantes portugueses, mas será cada vez mais uma necessidade. Por isso, o futuro do superior também passa por aqui: garantir a melhor educação a distância.

Ana Paula Dias, terminou o doutoramento em Educação,  com a defesa da tese em Novembro passado. Teve aulas, tirou dúvidas e discutiu argumentos com professores que estavam a 11 mil quilómetros de avião. É essa a distância dos voos entre Macau, onde Ana Paula vive há quase uma década, e Lisboa onde está sediada a Universidade Aberta, a única instituição pública no país a oferecer, em exclusivo, ensino superior totalmente a distância.

Assessora nos serviços de educação de Macau, onde faz promoção e divulgação da Língua Portuguesa, Ana Paula, de 58 anos, diz que esta opção foi a solução encontrada para compatibilizar os estudos com o seu emprego. “Desta forma, tive liberdade para organizar o meu horário e ritmo de trabalho. O facto de poder aceder à plataforma [de ensino online] em qualquer lugar e a qualquer hora a partir do meu computador não me colocava qualquer restrição, nem mesmo quando precisava de viajar em trabalho”, explica.

Na plataforma informática, Ana Paula tinha acesso a informação, mas também a fóruns de discussão para interagir com professores e colegas de doutoramento. O funcionamento era “simples e intuitivo”, conta. Usava o Skype ou o sistema de mensagens pessoais da plataforma para tirar dúvidas com os docentes ou contactar com outros doutorandos, muitos deles a viver longe de Portugal, nomeadamente no Brasil, Canadá ou em Cabo Verde.

Começou o doutoramento em 2012 e entregou a tese em Janeiro do ano passado. Teve 19 valores e o seu trabalho tem sido apresentado em conferências internacionais.

 

Mais estudantes distantes 

O caso de Ana Paula é paradigmático de um tipo de aprendizagem que tem sido alvo de planos de acção e iniciativas políticas europeias, e que não vai parar de crescer, defendem os especialistas.

O Consórcio para a Aprendizagem e Desenvolvimento de Adultos, nos EUA ­ ­-  um grupo que integra professores, investigadores , membros de empresas tecnológicas como a Google ou da banca, agregados pela consultora McKinsey – reúne-se desde 2016 para debaterem soluções para o futuro.

Para os peritos não há dúvidas de que a acelerada mudança tecnológica, aliada à inteligência artificial, irá revolucionar o trabalho como o conhecemos. E que a aprendizagem ao longo da vida terá de ser a norma. “Vamos viver numa era onde as pessoas vão perceber aos 45, 40 ou 35 anos que as suas qualificações se tornaram irrelevantes”, explica Bob Kegan, professor na Harvard Graduate School of Education, que integra o consórcio. “O que vamos fazer em relação a isto?”, questiona.

Parte desta solução, passa pela educação online, através de meios tecnológicos cada vez mais interactivos e especializados. “O ensino a distância vai ter de se expandir, porque a sociedade contemporânea assim o exige”, afirma o professor catedrático Paulo da Silva Dias, reitor da Universidade Aberta, que este ano comemora 30 anos de existência.

“A educação ao longo da vida não é, muitas vezes, compatível com o ritmo e a falta de tempo dos dias de hoje, e o ensino a distância é uma resposta fundamental a essa realidade”, acrescenta, lembrando que hoje este tipo de oferta nada tem a ver com vídeos de aulas gravadas a que assistíamos na televisão na década de 1980. “É interactiva”, baseada “num ambiente conversacional, com debate e partilha de ideias em comunidades de aprendizagem, num encontro de interesses”, explica.

Este ano, o número de alunos inscritos na Universidade Aberta disparou. “Os últimos dados apurados mostram que, neste momento, estão matriculados mais de 7.000 alunos em licenciaturas, mestrados e doutoramentos, o que revela um aumento da procura” comparativamente a anos anteriores, adianta o reitor.

Um crescimento de cerca de 1.500 alunos em relação aos que estavam inscritos em cursos superiores no ano lectivo 2016/2017, de acordo com os últimos dados disponíveis na Direcção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência.

A estes juntam-se outros 7.000 alunos inscritos nas chamadas “aulas abertas”, que são gratuitas e onde podem fazer minicursos virtuais e ter um primeiro contacto com este tipo de ensino.

As potencialidades de crescimento são imensas. Não só em Portugal mas também junto da comunidade de países de língua portuguesa. Para Paulo da Silva Dias, “o ensino a distância é um ensino sem distâncias”.

 

“Uma licenciatura hoje é apenas um ponto de partida”

Na Universidade  Aberta a maioria dos estudantes tem entre os 35 e os 45 anos. Ali, só podem inscrever-se alunos com mais de 21 anos ou trabalhadores-estudantes  entre os 18 e os 21, que trabalhem há pelo menos 24 meses.

As licenciaturas são os cursos mais procurados, sobretudo as de Ciências Sociais e a de Gestão. Mas está a crescer o interesse por mestrados e doutoramentos, diz o reitor.

“Uma licenciatura hoje não é válida para a vida, significa apenas um ponto de partida”, frisa, salientando que o mercado de trabalho exige cada vez mais “um investimento permanente em educação”.

Por isso nesta universidade há 14 pós-graduações, que tentam responder às necessidades daqueles que estão no mercado de trabalho  e querem aprofundar áreas específicas. A esta oferta juntam-se 22 mestrados e 10 doutoramentos online, que permitem atribuição de grau, uma prerrogativa que, no ensino de e-leaning (totalmente a distância), é exclusiva da Universidade Aberta e das instituições – universidades e politécnicos – a que se associa.

Entre elas, a universidade mais antiga do país, a de Coimbra, com quem há três anos a Universidade Aberta fez um consórcio para a oferta de cursos online conjuntos. Este ano já está lançado um novo curso de Português Língua estrangeira, uma pós-graduação em Sustentabilidade Local ou uma Especialização em Ciências da Voz.

Mas também tem alianças com outras universidades e politécnicos. “Acredito que quase todas as instituições, num futuro próximo, terão de ter ofertas de formação a distância, adequando-a à sua realidade”, conclui.

 

Aulas virtuais e presenciais

Quase todas as universidades portuguesas, públicas ou privadas, e vários politécnicos, não quiseram perder o comboio do ensino a distância, e oferecem já algum tipo de curso online.

Muitos dos cursos não atribuem graus académicos, mas créditos, que podem depois ser convertidos em equivalências para quem quer prosseguir para cursos superiores nessas instituições. É o que sucede na Universidade do Minho, onde o ensino online se faz com cursos de curta duração, em áreas muito específicas, que não conferem grau. Neste ano lectivo, há nove ofertas em áreas diversas que vão da Analise Estatística de Dados, a um curso sobre Geoparques.

Na maioria dos casos, o ensino online é complementado com algumas aulas presenciais, num modelo misto, conhecido por b-learning. É o que oferece por exemplo a Universidade Católica Portuguesa, a pioneira em lançar uma licenciatura em Filosofia, neste registo.

Foi também este o modelo encontrado na Universidade do Algarve por Filipa Pinto, que aos 41 anos, também decidiu voltar a estudar e optou por ter aulas por videoconferência em horário pós-laboral.

Terapeuta da fala, casada e com três filhas, não tem tempo para correr para a Faculdade e assistir às aulas. A viver na capital, foi no Algarve que encontrou a pós-graduação que queria e se inscreveu. “Queria muito actualizar-me profissionalmente, porque houve evoluções, e só agora consegui encontrar uma pós-graduação nesta área, virtual, e com bons professores”, explica.

Vai começar a especialização em “Perturbações do Sons da Fala” ainda este mês e terá aulas durante dois semestres. “Além do estudo através da plataforma, terei aulas a distância, por videoconferência, duas vezes por semana, mas sempre depois das 18 horas, explica.

A avaliação dos será feita ao longo do ano com testes de escolha múltipla ou apresentação de trabalhos por videoconferência. “No final, terei de apresentar um projecto teórico-prático”, adianta. “Se não fosse assim, não poderia voltar à faculdade”.