“Sou tentado a pensar que a arquitectura morreu”

Artigo de João Morgado Fernandes, publicado originalmente na Revista XXI nº4: "Isto é cidade"

Nesta entrevista o arquitecto Álvaro Siza Vieira, um dos mais prestigiados arquitectos a nível mundial, fala sobre o futuro das casas, das cidades, da arquitectura. Entre o sonho e o desencanto.

“Do campo para as cidades” foi o tema em debate no Fronteiras XXI de dia 7 de Junho de 2017 na RTP3.
A proposta era ouvir Álvaro Siza sobre o futuro da arquitectura, das nossas cidades, das casas. Não é fácil entrevistar o mais famoso arquitecto português e um dos mais reconhecidos e premiados a nível mundial – aos 81, continua com uma agenda intensa, de reuniões, deslocações ao estrangeiro, trabalho e conferências. O encontro decorreu no atelier do Aleixo, janela rasgada para o Douro em dia de chuva miudinha. Não era uma entrevista de vida, como as que tem dado ultimamente, mas antes o desafio para elencar uma dúzia de ideias à volta das cidades. Os primeiros comentários foram para a actualidade, umas notícias sobre a (des)regulação bancária nos Estados Unidos, pretexto para algumas reflexões pessimistas acerca do estado geral do mundo. Daí à arquitectura, um pequeno passo. O desencanto é a tónica dominante – em poucas décadas, a arquitectura passou de disciplina quase desconhecida a presença obrigatória, primeiro, e a um quase luxo, agora. Para quem tem tanta obra feita, Álvaro Siza usa pouco a primeira pessoa, prefere falar dos movimentos e das tendências. Antes da cada resposta, há sempre uma pausa para reflexão – e para acender mais um cigarro –, e nada de irrelevante é dito. As palavras são pesadas, não para tolher o pensamento, antes para lhe vincar as arestas. Fala sem rodeios, com a palavra certa. A conversa só acaba quando lhe recordam que tem dois jovens arquitectos com os quais vai trabalhar, como habitualmente, à hora de almoço. No final, ainda uns minutos para falar dos seus famosos esboços e escolher um para estas páginas. A vivacidade do olhar não deixa dúvidas: por muito desencantado que esteja com o rumo que as coisas tomaram, Álvaro Siza quer acreditar no futuro da arquitectura.
Planeamento
As cidades portugueses são hoje mais planeadas e por equipas de especialistas mais diversificados e abrangentes. Que estejam bem planeadas, isso claramente que não, e está bem à vista. Houve mesmo algum retrocesso nos últimos anos.
Centro/periferia
Há um problema – que não é apenas português – que é a concentração das atenções apenas nos centros históricos. A ideia da preservação, por exemplo, limita-se ao centro. Nos centros históricos, há mais cuidados e mais preocupação, embora nem sempre no bom sentido. Na periferia, há muito menos controlo, não é o vale tudo, mas anda lá perto. A atenção, real ou apenas afirmada, aos centros históricos tornou-se indispensável, servindo mesmo de álibi ao desleixo na periferia. Sempre que ocorre uma selvajaria no centro há um coro de protestos, mas se for na periferia passa completamente despercebida.
Modas
Há um certo tipo de temas, como a sustentabilidade ou a preservação, que funcionam mais a nível discursivo e de moda do que na realidade. Isso tem conduzido a novos desequilíbrios, em que o essencial acaba secundarizado. Na arquitectura, deve-se atender ao todo, não privilegiando aspectos parcelares. É o caso da preservação, do foco excessivo na preservação, que quase leva a que nos esqueçamos do resto e o resto é muitas vezes o essencial – para que serve afinal a habitação?
Talento
Recentemente, fiz o projecto de uma igreja em França. Houve conversas com o arcebispo sobre as implicações que as mudanças na liturgia teriam no espaço. Quando o projecto estava pronto, após todos esses debates e após ter sido apresentado um projecto de execução, recebi uma carta inacreditável que dizia, mais ou menos, isto: nós queremos o seu talento, deixe-se lá da ideia de desenhar os detalhes, deixe isso aos especialistas… Espera-se do arquitecto que apresente uma bela imagem, muito original – a originalidade vem muito, hoje em dia, da repetição de algumas ideias base… – e nada mais se espera do arquitecto, muito menos a coordenação do projecto.
Casa do futuro
A ideia que tenho é que as casas nunca serão muito diferentes. As casas não mudaram assim tanto ao longo do tempo. O progresso que se tem feito é de uma certa regulamentação de alguns requisitos. Por exemplo, a necessidade de isolamento térmico, ou outros aspectos. Mas isso em nada modifica o conceito de casa enquanto protecção indispensável, a casa-abrigo, e também como centro da actividade e da vida social. Nada, aliás, mudou assim muito ao longo da história… Se formos a um museu, veremos que as cadeiras dos egípcios não são muito diferentes das nossas. Daí a ideia da preservação. Se as casas antigas não servissem, não seriam preservadas. A preservação seria um capricho.
Design e conforto
Houve progressos de conforto, alguns deles talvez discutíveis. Não sei se o excesso de conforto não é também um prejuízo… Por exemplo, num automóvel, havia um exercício óptimo, que era o de rodar a manivela para abrir ou fechar as janelas. Hoje, temos um botão, as pessoas não fazem esforço nenhum, e depois vão para a marginal correr para compensar… Há um proteccionismo exacerbado do corpo, que vai criando uma degradação física.
Luxo
Instalou-se a ideia de que o arquitecto é caro. Pelo contrário, se o arquitecto desempenhar bem as suas funções evitam-se muitos custos, muitas sobreposições. É já antiga a ideia de que só os ricos podem pagar arquitectos, mas essa é uma ideia que não colhe sustento na História. Nos anos 30 do século passado, por exemplo, houve uma revolução total no desenho dos objectos. E a grande preocupação dessa altura era trabalhar para o grande público, pelo que o custo baixo era fundamental. Todos os arquitectos desenharam cadeiras, por exemplo. O arquitecto holandês Rietveld [1888-1964] trabalhou com carpinteiros, de forma a conseguir objectos extremamente simples e baratos. A certa altura, qualquer pessoa poderia fazer uma cadeira dessas. Hoje, os mesmos móveis são caríssimos, porque, pelo meio, apareceram empresas que garantiram exclusivos, gerando fenómenos meramente económicos. São essas distorções que vão criando a ideia de que o arquitecto é caro.
Habitação social
Um dos grandes momentos de afirmação da arquitectura, nos anos 20 do século passado, consistiu na resposta ao crescimento das cidades e à grande concentração populacional, com as suas altas densidades e também desigualdades. Há aí um tema ideológico muito forte e que caracterizou a arquitectura das décadas seguintes – a criação de condições de vida e de trabalho para um grande número de pessoas, completamente diferentes das que foram geradas pelo grande impacto da revolução industrial. Basta recordar que, na segunda metade do século XIX, metade da população da cidade do Porto vivia em ilhas [habitações precárias]. Mesmo em Portugal, embora de forma muito tímida, houve alguma construção social nessa época. O próprio Marques da Silva [1869-1947] fez alguns conjuntos de habitação social, mas o movimento não chegou a ganhar dimensão. Mais tarde, os bairros de Olivais e Chelas, em Lisboa, em épocas diferentes, são também disso bons exemplos – de interdisciplinaridade coordenada por arquitectos.
Crise
Há uma crise tremenda da arquitectura. Muitas vezes, sou tentado a pensar que a arquitectura, a ideia que tínhamos de arquitectura, acabou. E, embora seja obviamente mais sensível ao que se passa em Portugal, tenho trabalho lá fora e verifico que há, um pouco por todo o lado, certas mudanças no exercício da arquitectura que deitam por terra tudo o que pensávamos acerca da arquitectura e do papel do arquitecto. Por exemplo, nas discussões em curso sobre os processos de construção, propõe-se que o arquitecto seja impedido de fazer uma série de tarefas que estão, desde sempre, no seu perfil profissional. Talvez a mais relevante seja a ideia de que o arquitecto não possa ser o coordenador da equipa, quando tradicionalmente o arquitecto é o coordenador natural, visto que há várias especialidades que intervêm na construção, concentrações de saberes muito específicos e complexos, mas alguém, não especialista, tem de pôr em relação todos esses saberes, muitas vezes contraditórios. Ou seja, o projecto, até agora centrado no arquitecto, passa a ser resultado de uma adição de conhecimentos aplicados e a própria coordenação pode ser assumida por um qualquer especialista. Passa a faltar o não especialista, ou especialista em não ser especialista, que é o arquitecto.
Alemanha
A verdadeira despromoção do papel do arquitecto está a enraizar-se em toda a União Europeia. Na Europa, apenas a Suíça e talvez os países nórdicos escapem a essa tendência. E, curiosamente, a Alemanha, que não aderiu à corrente europeia de liberalização dos honorários e de secundarização dos arquitectos. Porquê? A Alemanha – que muitos seguem cegamente, mas não nesta matéria – sabe que é preciso qualidade e que a qualidade é garantida por manter o arquitecto no centro do projecto.
Interesses e ignorância
A secundarização do arquitecto resulta, desde logo, da conjugação de interesses, nomeadamente dessa ideia de que o arquitecto é caro. Uma ideia falsa – a componente de pagamento de honorários é quase irrelevante nos custos globais de um projecto de construção. Mas, além dos interesses, há também muita ignorância sobre o papel do arquitecto e das mais-valias que a sua intervenção directa pode gerar. Tenta-se impor a ideia de que o arquitecto é um sonhador, alguém que não tem os pés assentes na terra. Nada de mais errado…
Ensino
Em Portugal há cerca de 30 cursos de Arquitectura, ou seja, é o mesmo que existe em Espanha, que tem cinco vezes a nossa população. E lá até consideram que há um número exagerado de escolas de Arquitectura. Há uma desregulação completa entre o ensino e o mercado de trabalho – há arquitectos, e mesmo engenheiros, que estão a emigrar. E estão a ser muito bem recebidos lá fora (Brasil, Angola, Suíça, Inglaterra…), porque são muito competentes. Alguns estão mesmo a ser convidados para o ensino.
Câmaras
Em 1974, talvez exceptuando Lisboa e o Porto, as Câmaras não sentiam a necessidade de terem arquitectos a trabalhar nos seus serviços. Antes disso, Duarte Pacheco [1900-1943] foi o primeiro a dar relevância ao papel do arquitecto. A seguir ao 25 de Abril, perante a evidente necessidade, chegaram a criar-se brigadas móveis, que circulavam pelas Câmaras. Hoje, está assumida a sua indispensabilidade.
No próximo programa Fronteiras XXI, saiba mais sobre o despovoamento em Portugal e no mundo: Do campo para as cidades, dia 7 de Junho, às 22h, na RTP3 e online.