Intestino, um segundo cérebro?

Filipa Basílio da Silva

A nutricionista Catarina Sousa Guerreiro encoraja as pessoas a questionarem-se sobre a natureza dos alimentos que consomem. "Quanto menos artificiais forem, melhor", garante a especialista em problemas intestinais.

«Somos o que comemos?» é o tema do próximo debate Fronteiras XXI, no dia 17  de Julho às 22h na RTP3.

 

 

Entre a comunidade científica, o intestino passou de personagem secundária a protagonista. Isto porque há cada vez mais investigação a revelar que o seu funcionamento tem um impacto sistémico e que tem uma ligação directa com o cérebro. Além disso, hoje sabe-se que o intestino pode ser uma resposta eficaz na prevenção e tratamento de doenças como a obesidade e a depressão. Para sabermos como manter saudável este órgão, falámos com Catarina Sousa Guerreiro, investigadora no Laboratório de Nutrição da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa especializada em doenças intestinais.

 

Por que é que, ultimamente, o intestino tem sido alvo de tanta investigação?

No passado, foi um órgão pouco valorizado. Nós associávamos o intestino apenas à degradação e metabolização daquilo que era ingerido, mas hoje sabe-se que as bactérias que o habitam têm um papel central no funcionamento do nosso organismo. As bactérias do intestino têm impacto na regulação metabólica de órgãos como o pâncreas e de sistemas como o imunológico, e são fundamentais para a produção de compostos como os ácidos gordos de cadeia curta e algumas vitaminas.

 

Temos bactérias melhores que outras?

Claro. Há bactérias que são benéficas para a saúde do organismo e outras que produzem substâncias nefastas.

 

É possível perceber se a nossa microbiota está desequilibrada?

Sim, através de sintomas como a dificuldade de digestão, a distensão abdominal e alteração do trânsito intestinal. Podem ser sinais de que houve um crescimento exagerado de bactérias más. Também já existem exames médicos que nos dizem como é a nossa microbiota, ou, pelo menos, alguns dos tipos de bactérias que temos.

 

Com base nessa informação, a dieta pode ser personalizada?

Ainda não se consegue fazer uma escolha de alimentos muito dirigida, porque há milhares de bactérias. O objectivo destes testes é que se possa promover o crescimento das bactérias boas e não dar alimento para as más.

 

Então, consegue-se controlar o crescimento das bactérias más?

De certa forma. Sabemos que há um determinado leque de alimentos com mais factores agressores, como os açúcares, as gorduras processadas (trans), as gorduras saturadas e as gorduras animais. Se não reduzir o consumo desses alimentos, vou estar a dar mais substrato para as bactérias más se desenvolverem e poderem agravar os sintomas. Primeiro tenho de retirar os alimentos mais fermentáveis e só depois é que colonizo o intestino com bactérias boas. Há uma fase de eliminação seguida de provocação.

 

Através de alimentos probióticos, por exemplo?

Nomeadamente. Os probióticos são, por exemplo, o chucrute, kefir, os pickles, alimentos que têm bactérias boas. E nós queremos ter o intestino cheio delas! Se as pessoas não apresentarem sintomas, devem fazer uma alimentação que tenha um grau de fermentação alto para que possam crescer bactérias saudáveis e evitar que se desenvolvam as bactérias más. É por isso que as crianças não devem comer alimentos ricos em açúcares e gorduras trans, porque levam ao crescimento de bactérias más.

 

Concretamente, quais são os alimentos que provocam mais desequilíbrios na microbiota?

Diria que os farináceos processados: as batatas fritas, as bolachas, os pães brancos de fermento rápido e com aditivos, as massas. Mas o consumo exagerado de fruta também pode levar a sintomas, ou seja, o indivíduo em vez de ingerir uma porção de fruta ingeriu três ou mais e isso é demasiada frutose para ser alvo de bactérias.

 

A quantidade é importante?

Completamente! É um factor chave. As pessoas que fazem uma dieta de eliminação acompanhada dizem, com frequência, que não tiveram sintomatologia após a reintrodução dos alimentos. Porquê? Estão a reintroduzir em doses pequenas. O problema é quando essas porções deixam de ser pequenas ou começam a existir várias fontes de alimentos fermentáveis. Se o recomendado é duas a três doses diárias, não convém comer-se mais do que isso de forma sistemática.

 

Como é que devemos zelar pela saúde do intestino, desde cedo?

Ingerindo mais alimentos sem processamento associado. Quanto mais próximos da sua forma natural os alimentos estiverem, melhor, porque significa que há menos aditivos, gorduras trans, açúcares artificiais. Mais do que as refeições principais, são as refeições intermédias que devem ser repensadas com vista a prolongar a saúde do intestino. Devemos preferir as frutas, o pão escuro, os frutos secos, diversificar o leque de alimentos naturais que consumimos e o seu produtor.

 

«Somos o que comemos?» é o tema do próximo debate Fronteiras XXI, no dia 17  de Julho às 22h na RTP3.