Desarrumar as ideias – estimular o pensamento criativo!

Fotografia de Gonçalo Barriga

Texto de Susana Gomes da Silva Responsável de programação educativa do Museu Calouste Gulbenkian, Fundaçao Calouste Gulbenkian

Uma escola que não separe a prática artística das restantes áreas, que a entenda como um terreno sobre o qual se constrói tudo o resto, como uma área essencial de desenvolvimento humano e crescimento é certamente uma escola mais capaz de formar mentes inquietas, mãos curiosas, corpos despertos, ouvidos disponíveis, juízos plurais e abrangentes.

 

Cultura, para que te quero? Não perca dia 15 de Maio, 22h, na RTP3


 

Há muito que se convencionou como símbolo de uma boa ideia essa lâmpada acesa que paira, suspensa e sugestiva, sobre a cabeça das personagens de desenho animado.

De facto, a luminosidade do pensamento, tão bem representada nesse pequeno símbolo gráfico, mais não faz do que ilustrar as ligações eléctricas que, quando confrontado com os estímulos que nos rodeiam, o nosso cérebro cria enquanto desenha estratégias de raciocínio e gera novas ideias.

Mas como nascem as ideias? Como se estimula o pensamento criativo? Como aprendemos, afinal?

Todos aprendemos no confronto com a novidade.

É aquilo que percepcionamos como novo e diferente do habitual que, por não encaixar naquilo que já sabemos (e sabemos sempre muito mais do que pensamos saber), nos faz procurar nova informação e refazer os conhecimentos que já tínhamos de forma a integrar os novos elementos.  

Neste fascinante e rico processo de aprender, nunca ninguém parte de um zero absoluto. Venhamos de onde viermos, saibamos o que soubermos, todos armazenamos ao longo da vida conhecimentos, experiências, sensações, emoções, memórias, construindo uma imensa bagagem e património que nos permite dar sentido ao mundo que nos rodeia e desenhar ferramentas e estratégias para lidar com toda a sua complexidade.

No entanto, se dependêssemos exclusivamente do uso dessa muita informação tão utilmente guardada e construída ao longo do tempo nunca poderíamos experimentar a geração de novas ideias. Para que isso aconteça é fundamental experimentar coisas novas, procurar novos ângulos, olhar de diferentes perspectivas, sair da zona de conforto e conhecimento habituais. 

Em suma, desarrumar as ideias para que dessa desarrumação possa nascer nova ordem e com ela novas possibilidades de ver o mundo!

A educação artística é um campo de excelência para a promoção do pensamento criativo como ferramenta de crescimento e desenvolvimento. A curiosidade, característica que nos caracteriza desde que nascemos, está na base da nossa motivação para a aprendizagem mas tem de ser estimulada e alimentada ao longo de toda a vida de forma a poder transformar-se numa estratégia de interpretação do mundo tornando-nos mais disponíveis e atentos à descoberta e integração daquilo que é novo e desafiante.

O contacto com objetos artísticos e a participação em processos da criação artística, quando feito de forma interrogadora e aberta, apresentando várias possibilidades de leitura e relacionamento, estimulando diferentes experiências de compreensão, permite incidir justamente nesta zona de dúvida e inquietação, a zona de curiosidade e desassossego onde os pontos de interrogação podem dar origem a lâmpadas iluminadas! Conjugar todas as aprendizagens com a produção e expressão artística nas suas muitas formas, aliando o pensamento à acção e a acção à emoção e ao prazer, é uma das formas mais estimulantes de desarrumar as ideias e dessa desarrumação fazer nascer mundos novos.

Uma escola que inclua a prática artística como um eixo estruturador da construção das aprendizagens é uma escola que multiplica as ferramentas de desenho de um sentido para o mundo, que abre portas, que estimula uma das ferramentas mais essenciais de crescimento e resolução de problemas: o pensamento criativo e a vontade de experimentar. Uma escola que não separe esta prática artística das restantes áreas, que a entenda como um terreno sobre o qual se constrói tudo o resto, como uma área essencial de desenvolvimento humano e crescimento é certamente uma escola mais capaz de formar mentes inquietas, mãos curiosas, corpos despertos, ouvidos disponíveis, juízos plurais e abrangentes. E com isso, formar cidadãos completos, conscientes e múltiplos, mais capazes de entender e agir na diversidade e na mudança deste mundo em permanente transformação.

Como diz Elliot Eisner “To neglect the contribution of the arts in education, either through inadequate time, resources or poorly trained teachers, is to deny children access to one of the most stunning aspects of their culture and one of the most potent means for developing their minds.

 

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