Por que não agimos?

 

Ainda estamos a discutir hoje como resolver os problemas ambientais que nos alarmaram há meio século. Mas há boas notícias e muito por onde agir.

Por Ricardo Garcia

Nunca a população mundial cresceu a um ritmo tão rápido como na década em que nasci. Nos anos 1960, por cada oito pessoas que morriam, nasciam dez. Na média global, cada mulher tinha cinco filhos. Em Portugal, três. Em 1968, a taxa de aumento populacional atingiu um nível recorde, suficiente para duplicar o número de pessoas sobre a Terra em 33 anos.

Por um lado, era um bom sinal. O boom populacional resultava de uma combinação de fatores inegavelmente positivos, em particular a paz e os avanços da medicina. No entanto, a explosão demográfica causou uma grande comoção. E éramos menos da metade do que hoje.

A ironicamente chamada revolução verde – o aumento da produção agrícola com a ajuda de pesticidas e fertilizantes – salvara-nos da fome mas enchera os rios e solos de químicos nocivos. Em 1962, a bióloga norte-americana Rachel Carson descreveu os efeitos ecológicos deste festim, que estava a matar pássaros e peixes. O seu livro Primavera Silenciosa reverberou com enorme intensidade. Num ano, estava já traduzido em 14 línguas, criando uma colossal bola de neve ambientalista. De repente, todos estavam preocupados com o planeta. Surgiram leis, organismos, think tanks, estudos, inquéritos, teorias. Sucederam-se iniciativas mobilizadoras, como o primeiro Dia da Terra e o Ano Europeu da Conservação da Natureza, em 1970.

Na mesma época, outro biólogo norte-americano, Paul Elrich, recuperou a teoria de Malthus para defender que, com a demografia a andar àquele passo, a humanidade enfrentaria crises alimentares catastróficas já na década seguinte. O seu livro, The Population Bomb, também se tornou um bestseller.

As previsões mais dramáticas de Elrich não se concretizaram. O crescimento demográfico começou a desacelerar naturalmente, as mulheres passaram a ter cada vez menos filhos e hoje sabemos que a humanidade caminha até para uma possível redução da população no futuro.

Este cenário só não nos tranquiliza, porque, até lá, o número de residentes do planeta continuará a crescer e poderá chegar a 10 mil milhões em menos de quatro décadas. Atualmente, somos 7,7 mil milhões.


A população mundial vai continuar a crescer, mas a um ritmo cada vez menor

 

Fonte: ONU,World Population Prospects 2019

Passei a infância alheio a toda essa inquietação ecológica. Para uma criança, o que importava era jogar à bola e brincar com os amigos. A modernidade era fascinante e um dos seus expoentes máximos eram os modelos novos de automóveis que saíam a cada ano. Eu não fazia a menor ideia de que um carro pudesse ser um problema. E quando a população mundial atingiu os quatro mil milhões de habitantes, em 1974, aquele número pareceu-me fantástico, como um feito de que nos deveríamos orgulhar. A educação ambiental nas escolas, é claro, era muito incipiente.

Se preocupação bastasse, já havia todos os ingredientes há meio século para que agíssemos. Mas, apesar do enorme impulso dado às preocupações ecológicas já naquela época, a verdade é que, em grande medida, ainda estamos a discutir hoje como resolver os problemas estruturais abordados na Conferência da Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em Estocolmo, em 1972.

A primeira crise do petróleo em 1973 – o grande tropeção que demos na crença da energia barata e inesgotável – passou-me despercebida. Mas os efeitos da segunda, quando eu já possuía o ambíguo direito de conduzir, foram uma chatice. No Brasil, onde eu vivia, era um tédio, só se podia andar a 80 quilómetros por hora nas autoestradas. Indiretamente, foi uma medida admiravelmente eficaz para reduzir as emissões de CO2 dos automóveis. Naquela altura, no entanto, ninguém falava de alterações climáticas, apenas de poluição atmosférica. A crise era sobretudo energética e foi para isso que apareceram alternativas, como o etanol para substituir a gasolina ou uma efémera geração de carros elétricos. Passada a tempestade, voltámos a pisar a fundo.

Onde o petróleo mais mostrava as suas garras era nos acidentes com navios-tanque. E a década de 1970 foi pródiga nessa matéria. Em média, houve 25 acidentes por ano envolvendo o derrame de mais de 700 toneladas de petróleo, contra apenas dois agora, segundo a ITOPF, uma federação internacional de donos de petroleiros. Suscetível a imagens chocantes, como qualquer um, eu naturalmente ficava horrorizado com as imagens das marés negras. No entanto, continuei a ignorar que os carros fossem parte do problema.

Nada se compararia ao grande sobressalto quando se descobriu que o planeta padecia de males sistémicos, que não eram meramente pontuais, mas sim transnacionais ou globais. Vieram todos em catadupa: as chuvas ácidas, o buraco na camada ozono, o aquecimento global, a perda de biodiversidade.

Nenhum deles era novo. As chuvas ácidas e as alterações climáticas têm origem na Revolução Industrial, os gases que destroem a camada de ozono começaram a ser usados na década de 1930 e extinções de espécies foram observadas em direto durante a expansão colonial. A diferença é que, no espaço de uma década a partir do fim dos anos 1970, surgiram evidências científicas alarmantes de que a Terra sofria de todas aquelas maleitas.

Foi um susto valente e a humanidade respondeu de forma rija. Alguns dos principais marcos da diplomacia ambiental apareceram nessa época. Muitos deles foram aprovados de uma só vez, na primeira Cimeira da Terra, a Eco-92, no Rio de Janeiro. Foram dois novos tratados internacionais, para o clima e a biodiversidade, as bases para um terceiro, sobre a desertificação, uma declaração de princípios para a floresta e um plano global para o desenvolvimento sustentável – uma proeza diplomática impensável hoje, em que o multilateralismo está francamente em baixo.

Assisti a tudo isso já como jornalista. Era uma posição privilegiada, dado que me punha em contacto com muita informação, muito mais facilmente. Foi o que me mobilizou. Se eu não fizesse nada, não poderia cobrar nada a ninguém, pessoa ou entidade. Hoje, o conhecimento está à distância de um clique. Não há desculpa para ficar parado.

Principais marcos da diplomacia ambiental: a resposta dos governos à crise do planeta

1933

Convenção de Londres

Preservação da fauna e flora selvagem em África

1946

Convenção Baleeira

Regulamentação da caça à baleia

1971

Convenção de Ramsar

Uso sustentável e proteção de espécies de zonas húmidas

1973

MARPOL

Prevenção da poluição dos navios

CITES

Restrições ao comércio de espécies selvagens

1979

Convenção de Bona

Conservação de aves migratórias

Convenção Poluição do Ar

Controlo da poluição transfronteiriça

1982

Convenção sobre o Direito do Mar

Direitos e responsabilidades sobre o uso dos recursos marinhos

1985

Convenção de Viena

Primeira convenção sobre a camada de ozono

1987

Protocolo de Montreal

Restrições aos gases que destroem a camada de ozono

1989

Convenção de Basel

Movimento transfronteiriço de resíduos perigosos

1992

Convenção sobre a Diversidade Biológica

Preservação e uso sustentável da biodiversidade

1994

Convenção sobre a Desertificação

Cooperação no combate à desertificação e secas, sobretudo em África

1997

Protocolo de Quioto

Metas obrigatórias de redução de emissões de CO2

2000

Protocolo de Cartagena

Segurança dos organismos geneticamente modificados

2001

Convenção de Estocolmo

Normas para o controlo dos poluentes orgânicos persistentes

2010

Protocolo de Nagoya

Acesso aos recursos genéticos e partilha dos seus benefícios

2015

Acordo de Paris

Novos compromissos para o combate às alterações climáticas

Fontes: Environmental Treaties and Resource Indicators, ECOLEX