Desiludidos, desconfiados, esperançados, optimistas

João Manuel Rocha (jornalista) Este artigo faz parte a Revista XXI nº 7, "A Democracia em Sobressalto" (Jun-Dez de 2016)

O inquérito confirma que os deputados têm uma má imagem. A palavra “deputado” é – seguida de “militante” e “manifestante” – aquela que menos simpatia recolhe entre um conjunto de termos propostos. No pólo oposto, “voluntário” e “cidadão” são as que recebem mais apreciações positivas, seguidas de “simpatizante” e “eleitor”.

Jovens de costas voltas para a política? veja o debate Fronteiras XXI. Dia 17 de Outubro, às 21h30na RTP3

 

O que pensam os jovens do sistema político português? Como avaliam quem nos governa ou nos quer governar? Como encaram o futuro? Fomos ouvi-los. Uma geração na primeira pessoa.

 

José chega a dizer que “já não é preciso” lutar pela democracia, porque ela “está enraizada”.  Mais adiante afirmará que “voltar a uma ditadura, isso é impossível”. Mas aquelas primeiras palavras não passaram despercebidas a Marta, que, do outro lado da acanhada sala, contrapõe de imediato que “todos os que votam estão a lutar pela democracia”.

Sem esconderem críticas, nem José, 25 anos, nem Marta, 26, nem ninguém no grupo concebe perder as liberdades com que cresceram e que associam à democracia. “Agora que temos a democracia, não abrimos mão dela”, diz António, 20, já no final das quase duas horas de conversa no focus group em que foram comentando os resultados de um questionário sobre os jovens e a Democracia. Uma vez mais, Marta faz uma ressalva: “Não a podemos tomar como garantida”.

Cruzados os dados do inquérito, ouvido o focus group, o retrato que fica deste estudo, que não tem pretensões de representatividade estatística, é o de jovens desiludidos, desconfiados, mas esperançados e optimistas com o futuro da democracia. “Já estão desiludidos” mas “ainda não perderam completamente a esperança”, concorda Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Mas de que falamos quando falamos de democracia? A maioria dos 62 jovens inquiridos, com idades entre os 18 e os 29 anos, não hesitou em relacionar, “de certeza”, democracia com a possibilidade de votar livremente: 69%. A associação entre democracia e liberdade de imprensa foi mencionada por 58%; e a ligação com igualdade de género foi feita por 50%.

Agora, na conversa mais restrita do grupo  composto por dez outros jovens, o conceito de democracia vai sendo definido como “oportunidade”, “liberdade” e possibilidade de “escolha”. É “ter oportunidade de estarmos aqui a falar sobre o assunto”, diz José, trabalhador-estudante, aluno de mestrado em Finanças. “Liberdade de expressão”, resume Rúben, empresário com mestrado em Recursos Humanos. “Tem a ver com o direito de podermos escolher como queremos ser governados ou quem queremos que nos governe. A partir do momento em que podemos escolher isso, também podemos expressar a nossa opinião, uma coisa sem outra era quase impossível”, declara Marta, que está a fazer mestrado em Engenharia Informática ao mesmo tempo que trabalha.

A ênfase na liberdade, quando se trata de definir democracia, confere com os resultados de estudos representativos dos jovens portugueses, confirma Pedro Magalhães. “Isso não impede que muitos assinalem também igualdade, mas liberdade primeiro”, sublinha. “O peso da igualdade de género na concepção de democracia dos mais jovens é um traço geracional importante e que os distingue dos mais velhos.”

 

A grande perplexidade

Um dos indicadores recolhidos no questionário causa perplexidade. É a percentagem dos que se consideram democratas: apenas 60%. “Neste eu preciso de ajuda”, diz Paula, a moderadora da sessão, à procura de explicações para as respostas dadas no painel mais alargado. “Se calhar a ligação foi muito ao social-democrata”, arrisca Marta. “Não sei como interpretaram esta frase”, diz Rúben. A moderadora envereda por outro caminho. “Qual é o contrário…”. “Ditador”, interrompe Rúben. “Ou apoiante da ditadura”, acrescenta António. Mas Teresa, 24 anos, não vai por aí. “Acho que as pessoas não pensaram assim. Não acredito que 40% são a favor da ditadura”, afirma esta estudante de mestrado em Psicologia.

José pensa que “a ideia da sociedade hoje em dia já não converge com essa possibilidade”. “Nunca mais vamos voltar a uma ditadura, isso é impossível, pelo menos na minha opinião. A nível económico, as coisas podem piorar. Estou pessimista. Mas a nível democrático, estou optimista.” A sua explicação para a baixa percentagem dos que se consideram democratas é “um bocadinho de desconhecimento do que é que é uma democracia” e ter havido “pessoas que responderam sem saber o que estavam a responder”. Também não percebe em “a diferença” entre os 75% que declaram admirar os que lutam ou lutaram pela democracia e os 60% que se consideram democratas.

A moderadora pergunta em quem teriam pensado os jovens entrevistados online. Marta responde prontamente: “Nos capitães de Abril, nos capitães de Abril”. Teresa e Gonçalo respondem em abstracto: “Em quem lutou por ter direitos”, diz ela. “Em quem lutou para [estarmos] onde estamos hoje”, acrescenta ele. Paula tenta que sejam mais precisos, pede nomes de três figuras que achem que representem “os ideais da democracia”, em Portugal ou noutro país. As reacções são poucas. Rúben é o mais concreto. “Lembro-me do Mário Soares, porque acho que está muito ligado ao 25 de Abril,  inclusivamente esteve preso e por aí a fora. Mas mais por estar ligado ao 25 de Abril do que pelo percurso político que fez. Mas a minha memória para nomes é péssima, essa pergunta para mim é muito difícil.” “Não me vem à cabeça ninguém”, responde Teresa. “ Mas… pode repetir a pergunta?”, pede ainda Rúben.

A moderadora alarga o ângulo, pede nomes de quem “hoje em dia lute pela democracia em Portugal”. É nesta altura que José manifesta a opinião de que isso “já não é necessário” porque a democracia “está implementada, enraizada”. E que Marta diz que “todos os que votam e que exercem esse direito estão a lutar pela democracia, porque se estão a manifestar a favor”, tal como lutam pela democracia os “não sei quantos que se levantam, se queixam” quando há “uma violação qualquer da nossa democracia, quando há problemas de liberdade de expressão” como – acrescenta Rúben – “aconteceu com jornalistas há uns tempos”, aos quais “nas eleições, queriam impor não sei o quê”.

A baixa percentagem dos que se consideram democratas é um dos dados que mais  surpreendeu Pedro Magalhães e que, em seu entender, exigiria estudos mais aprofundados. “Destoa do que sabemos das amostras representativas. Mas pode ter a ver com a formulação da pergunta. No focus group acabam muito a falar de características de personalidade. A  palavra ‘democracia’ é utilizada de tantas formas e em tantas circunstâncias que já nem sabemos o que quer dizer para as pessoas. Nem elas.”

“Se lhes perguntássemos se preferiam viver numa democracia ou noutro regime, não tenho dúvida de que a esmagadora maioria preferiria democracia. É assim em todos os inquéritos a amostras representativas. Mas ser-se ‘democrata’ parece pedir mais: democrata em várias esferas da vida, participativo, tolerante, etc. Vários no focus group nem sabem bem o que isso quer dizer”, afirma também. Na verdade, quando Paula quis saber se todos se consideram democratas, uma voz demarcou-se do sim geral, mais tácito ou mais verbalizado. “Não sei bem. Não sei o que quer dizer em termos práticos”, disse Teresa.

Mesmo que não saibam também o que significa democracia na prática, outros jovens gostariam que ela lhes desse resposta a problemas concretos,  designadamente criando emprego. “Criar mais postos de emprego para reduzir a emigração”, foi, com variações na formulação, uma resposta várias vezes repetida à pergunta aberta do questionário online sobre o que pode a democracia fazer pelos jovens.

 

Deputados malvistos

O estudo confirma que os deputados têm uma má imagem, um indicador confirmado por  outros estudos. A palavra “deputado” é – seguida de “militante” e “manifestante” – aquela que menos simpatia recolhe entre um conjunto de termos propostos. No pólo oposto, “voluntário” e “cidadão” são as que recebem mais apreciações positivas, seguidas de “simpatizante” e “eleitor”.

São 39% os que responderam não simpatizar nada e 26% não simpatizar com a palavra “deputado”, o que totaliza 65% de apreciações negativas contra 6% que dizem simpatizar e zero que simpatizam muito. Nos comentários do focus group a este dado, “deputado” mistura-se frequentemente com “político”. Corrigindo: com uma conotação negativa de “político”. Rúben acha que são casos como o que envolve José Sócrates que levam muitas pessoas a “não apreciarem tanto palavras ligadas à política ou partidos”, o que se reflecte, na opinião de Rúben, “no conjunto de pessoas que vão votar”, na elevada abstenção.

Gonçalo encontra razões para a pouca simpatia na ideia de que “os políticos são todos iguais, dizem que fazem uma coisa e quando estão no poder fazem outra” – uma forma de ver que tem subjacente o entendimento expresso por alguns de que é necessário “mentir” e “manipular” para ganhar eleições.

A associação do conceito de política a práticas desviantes ajudará também a compreender o pouco agrado dos inquiridos com o termo “militante”: 23% não simpatizam nada com ele, o que somado aos 27 que não simpatizam dá uma rejeição de 50%. Rúben observa que é um termo “ligado à classe dos deputados que também está mal classificada”. Marta fala negativamente das “carreiras políticas”, das “universidades de verão” dos “ políticos profissionais”. Teresa associa o termo militante “ao extremismo, às ideias fixas, no sentido da rigidez e pouca flexibilidade”.

“A rejeição deles em relação à política convencional é total, o que faria supor pessoas disponíveis para outras formas de participação. Mas também não há grandes sinais disso, nem no inquérito nem focus group. Têm uma atitude passiva no focus group: lêem sobre política ‘aquilo que vai ter com eles’ e gostavam de conhecer ‘ferramentas’ para além do voto mas estão à espera que elas surjam.”

Efectivamente, só uma das participantes, Marta, fala numa dimensão concreta de participação democrática fora dos moldes tradicionais. “O momento em que senti que participei mais foi quando votei no orçamento participativo, não são tantos a votar, são projectos e podemos ver exactamente para onde vai e o resultado. Aí senti que tive um papel activo.”

No caso dos “manifestantes”, aqueles que, na definição de Gonçalo, “lutam em prol do que querem”, a má imagem – 18% não simpatizam nada com a palavra e só 8% simpatizam muito – é, no entender de Maria, explicada pelos media. “É sempre o mau da manifestação que aparece. Muito raramente aparece a parte boa. Aparecem as brigas entre a polícia e os manifestantes, a palavra torna-se um bocadinho pesada.”

Beatriz pensa que as pessoas põem o manifestante “mais no negativo” por causa das consequências de protestos que as impedem de “andar de metro, de autocarro”. Teresa aproveita a deixa que liga “manifestação” a “greve” e lembra-se de que “quando ia para a faculdade e todos os meses havia três ou quatro greves de metro” acabava por gastar “um dinheirão ao final do mês”.

A antipatia com o “manifestante” é outro dos dados que Pedro Magalhães pensa que deveria ser mais bem estudado. “Sabemos que os mais jovens tendem a rejeitar a política muito institucional e dirigida por elites, daí que a antipatia pelo ‘deputado’ ou pelo ‘militante’ não me surpreendam. Mas pelo ‘manifestante’ também? Será que o protesto em Portugal é visto como estando monopolizado por partidos e sindicatos?”

Pelo menos para alguns dos participantes no focus group, a palavra manifestação parece ter sentidos diferentes do comum. “Não nos manifestamos de sair para a rua, mas no nosso círculo manifestamo-nos. Podemos manifestar-nos através de acção e através dos direitos”, diz Marta. “Pode manifestar-se emigrando, que foi o que a maior parte dos meus amigos fizeram”, argumenta Ruben. Teresa apoia esta leitura de emigração. “Não é visto como uma forma de manifestação, mas deveria ser.” Pedro estabelece um paralelismo entre o direito à  manifestação e outras formas de cidadania. “É o mesmo direito que reclamar numa loja. Estamos a reclamar acerca de algo.”

 

O factor género

A convicção nas virtudes da democracia – “de todos os sistemas é o mais interessante”, resume Rúben – talvez explique que 63% dos que responderam ao questionário gostassem que esse fosse o regime de todos os países do mundo. Mas a adesão aos princípios democráticos anda a par com a “desilusão”, a “desconfiança” e também a “esperança” – as três palavras mais escolhidas no questionário para expressar sentimentos sobre a democracia em Portugal, mencionadas, respectivamente, por 56%, a primeira; 53%, a segunda; e 48% a terceira. “Percebo a esperança. A esperança… temos esperança que melhorem”, diz Maria, em linha com as tendências do estudo mais alargado, em que esse foi o sentimento mais escolhido pelas mulheres, tal como a “incompreensão”. Pelo lado masculino, Gonçalo está em linha com a tendência expressa no questionário, onde foram “eles” os que mais manifestaram “desilusão” e “desconfiança”. Este contraste entre homens e mulheres – homens desiludidos e desconfiados, mulheres mais esperançosas e optimistas destoa dos estudos representativos dos jovens portugueses. “Não é evidente para mim que isto vá para além desta amostra  concreta, mas valia a pena investigar”, comenta Pedro Magalhães.

Porquê a desilusão? Marta responde com “um caso prático”, o das últimas eleições legislativas em que “um partido ganhou as eleições e outros três é que fizeram governo”. Teresa acha que a maior parte das pessoas não sabiam que isso podia acontecer e declara-se desiludida. “Nós já achávamos que poderíamos ter pouco poder de decisão, agora fiquei a achar que tenho zero”, diz, antes de defender uma solução de eleição uninominal, a “possibilidade de eleger cada um dos deputados”. Beatriz faz questão de dizer que não tem qualquer tendência partidária, mas considera o que aconteceu “injusto”. Rúben não vê as coisas bem assim. “Não tenho uma visão muito fechada sobre a coisa. Não votei… mas de facto houve três partidos que juntos tiveram uma maioria superior ao que ganhou”, observa.

Só 6% dos que responderam ao questionário disseram falar frequentemente entre amigos de assuntos relacionados com a democracia que, tanto a crer nas respostas aos questionários como aos comentários no focus group é pouca discutida na escola. Carlos Liz, fundador e sócio da Ipsos Apeme, a empresa que conduziu o estudo, chama a atenção para um dado a que atribui interesse – o facto de alguns dos jovens mencionarem os pais como responsáveis pela sua “sensibilidade política”. “Tem a ver com os nossos valores, isso é passado pelos nossos pais e pelo nosso meio”, disse Teresa.

Com décadas de experiência de estudos de mercado e opinião, Carlos Liz identifica em diferentes reacções a importância que os inquiridos atribuem aos media no desenho do seu “mapa de actores e de práticas que compõem a democracia”, valorizando e hierarquizando, revelando “disfunções do sistema e ampliando conteúdos divergentes” e fornecendo “conteúdos para decidir o voto”. Marta parece confirmar esse papel, e por isso não está satisfeita com o que lhe é proposto. “Se todos os canais, não é o tempo de antena, investissem para fazer de um programa sobre política algo atractivo, como fazem com programas de entretenimento, lixo, algo atractivo …”

O futuro da democracia é, em todo o caso, encarado com optimismo por 37%, contra 32% do universo de inquiridos que estão pessimistas. Relevante é também a soma dos que responderam “Não faço ideia” e “Não me interessa”: 31% no total.

 

NOTAS

Este artigo faz parte a Revista XXI nº 7, A Democracia em Sobressalto (Jun-Dez de 2016)