E o tempo para si próprias?…

A opinião de Heloísa Perista Socióloga, investigadora sénior no CESIS – Centro de Estudos para a Intervenção Social

Depois das horas de trabalho, pago e não pago, resta às mulheres menos 1 hora e 13 minutos, em cada dia (quando comparado com os homens), para o tempo de que podem dispor para si próprias.

Como são e o que querem as mulheres? É este o tema do debate Fronteiras XXI de 12 de Fevereiro às 21h30 na RTP3

 

Às mulheres em Portugal, hoje, falta tempo! 

E falta-lhes, sobretudo, tempo para si próprias.

Os resultados do último inquérito aos usos do tempo realizado no nosso país (Perista et al., 2016) confirmam que são muitas as mulheres (e muito mais mulheres do que homens) que dizem que, na sua vida do dia-a-dia, raramente têm tempo para fazer as coisas de que realmente gostam.

Esta falta de tempo para satisfazer os gostos pessoais, para fazer as pequenas coisas que lhes dão prazer – coisas aparentemente tão simples como ler um livro, ver um filme, tricotar, aprender uma língua estrangeira, dar um passeio à beira mar… – é particularmente sentida pelas mulheres com idades entre os 25 e os 44 anos: 55% destas mulheres (face a 44% dos homens do mesmo grupo etário) expressam este sentimento de falta de tempo, de um tempo que possam chamar seu (ou a time to call our own, como diria Pamela Odih).

E é nesta etapa do ciclo de vida das mulheres que o stresse, a pressa, o quotidiano acelerado ou – nas palavras de uma das mulheres que entrevistámos – viver com ‘o turbo ligado’ num constante ‘zuk-zuk’, refletem de modo particularmente acentuado as assimetrias de género que persistem na partilha do trabalho pago e, sobretudo, do trabalho não pago.

Com efeito, o tempo afeto pelas mulheres ao trabalho pago tem-se vindo progressivamente a aproximar do tempo que lhe é dedicado pelos homens – o diferencial de género a este nível não ultrapassa os 27 minutos em cada dia, em desfavor dos homens. Contudo, o diferencial de género é muito mais alargado, atingindo 1 hora e 40 minutos em cada dia, e neste caso em desfavor das mulheres, no que toca ao tempo afeto ao trabalho não pago, isto é, às tarefas domésticas e ao trabalho de cuidado.

Significa isto que a jornada de trabalho diária das mulheres é bem mais longa do que a dos homens.

Significa isto, também, que, depois das horas de trabalho, pago e não pago, resta às mulheres menos 1 hora e 13 minutos (em relação aos homens), em cada dia, para o tempo de que podem dispor para si próprias.

Não causará, portanto, estranheza que uma larga maioria das mulheres (mais de 64%, face a 52% dos homens), no Portugal de hoje, diga sentir-se demasiado cansada depois do trabalho para usufruir da sua vida pessoal. Com este cansaço tão presente, o tempo para o lazer, o tempo para a valorização de competências, o tempo para a participação cívica e política, o tempo para os afetos, o tempo para o ócio, todos estes são tempos que ficam claramente comprometidos na vida das mulheres.

Ora, sem a eliminação das fortes assimetrias de género, no sentido de uma partilha justa e equilibrada do trabalho não pago de cuidado entre mulheres e homens, não será possível garantir que o tempo das mulheres seja “algo que vivemos, ao invés de nos viver”*.

 

 

* Tomando aqui de empréstimo as palavras de María Ángeles Durán, a primeira mulher a receber, há poucos dias, o Prémio Nacional de Sociologia, em Espanha, em reconhecimento do seu contributo para a promoção da igualdade entre mulheres e homens.

 

Como são e o que querem as mulheres em Portugal? É este o tema do debate Fronteiras XXI de 12 de Fevereiro às 21h30 na RTP3