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«O hidrogénio tem o potencial de agilizar a transição energética em Portugal»

Entrevista a Ana Sousa, investigadora do CERENA nomeada pelo World Energy Council para representar o programa Future Energy Leaders em Portugal por Filipa Basílio da Silva

A energia que tem mais impacto na transição energética é aquela que está associada aos transportes e à indústria. Se a transição for feita nestes sectores, existe uma maior possibilidade de termos resultados extremamente positivos num curto espaço de tempo. Além disso, a conjugação do gás natural com o hidrogénio pode agilizar a transição energética, no sentido de reduzir o consumo de combustíveis fósseis nas casas das pessoas.

 

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Portugal é dos países mais vulneráveis às alterações climáticas, com uma extensa costa exposta à subida do mar e frequentes períodos de seca. Por isso, «é de todo o interesse que a transição energética seja o mais rápida possível», frisa Ana Sousa, investigadora do Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA) do Instituto Superior Técnico. E, segundo a representante de Portugal no World Energy Council, o país «tem todas as condições para cumprir as metas». Como? A resposta pode estar no elemento químico mais leve do universo: «o hidrogénio terá um papel fundamental», revela a especialista.

 

Qual tem sido a estratégia de Portugal para a transição energética?

Portugal tem tido uma estratégia energética muito voltada para as energias renováveis. Podemos usufruir de um clima fantástico, com um enorme potencial solar e eólico. Por isso, a estratégia tem sido procurar a neutralidade carbónica através do aumento da produção de energias renováveis, e agora com a estratégia para o hidrogénio.

 

Mas as energias renováveis são instáveis e ainda não existe uma solução para armazenar os picos de produção. Como é que isto se resolve?

As energias renováveis têm de facto este obstáculo de não permitirem o armazenamento de energia em situações de ponta. Neste sentido, o hidrogénio tem aqui um papel estabilizador do sistema, porque pode armazenar energia para ser utilizada mais tarde.

Em Portugal, as barragens tem tido um papel fundamental estabilizador da rede. As centrais hidroeléctricas reversíveis permitem turbinar energia e voltar a bombar a água para as barragens de montante. Através destes ciclos reversíveis podemos armazenar potencial de energia para ser turbinada numa altura de maior ponta.

Além disso, nesta transição suave da transição energética, o gás natural vai ser importante até termos outras formas de armazenar excedente de energia de fontes renováveis. Embora seja proveniente de combustíveis fósseis, o gás natural é dos menos poluentes e permite comprar tempo enquanto as tecnologias se desenvolvem.

 

O gás natural não nos deixa demasiado dependentes de países terceiros?

Portugal tem diferentes fornecedores de gás natural, provenientes de diversos países em África e dos Estados Unidos. O que diminui substancialmente o risco associado à nossa dependência de gás natural.

 

O país tem capacidade financeira para ter uma transição energética bem-sucedida?

Acredito que sim, que Portugal tem capacidade de fazer a transição energética. A energia que tem mais impacto na transição energética é aquela que está associada aos transportes e à indústria. Se a transição for feita nestes sectores, existe uma maior possibilidade de termos resultados extremamente positivos num curto espaço de tempo.

Além disso, a conjugação do gás natural com o hidrogénio pode agilizar a transição energética, no sentido de reduzir o consumo de combustíveis fósseis nas casas das pessoas. Prevê-se a injecção de uma percentagem de hidrogénio na rede de gás natural (na ordem dos 20%) para ajudar a reduzir os impactos ambientais do gás natural. Isto permitirá fazer uso das infra-estruturas existentes sem ser necessário fazer adaptações à rede. Existem centros de investigação, nomeadamente no Instituto Superior Técnico, a estudar o impacto que esta injecção de hidrogénio na rede de gás natural terá nos electrodomésticos que as pessoas têm em casa. Até ao momento, os resultados parecem promissores.

 

Esse optimismo mantém-se apesar da subida de preços na energia e nalgumas matérias-primas, que estão a encarecer os produtos de algumas indústrias (nomeadamente automóvel) e conta da electricidade das famílias? Isto pode ameaçar as campanhas pelas energias renováveis e pela sustentabilidade ambiental?

Essa é uma das minhas maiores preocupações e do World Energy Council. Para a transição energética ser eficiente, as pessoas têm de conseguir acompanhá-la. Nesse sentido, os preços da energia têm de facto de ser compatíveis com a necessidade das pessoas. Se neste momento já beneficiamos de uma tarifa social, à qual grande parte dos utilizadores conseguem aceder através da electricidade. No entanto, se observarmos as tarifas sociais para as redes de gás natural verificamos que o número de utilizadores é muito mais baixo. Isso coloca uma desigualdade, uma vez que, se as pessoas não são servidas por redes de gás natural, não concedem aceder às tarifas sociais do gás natural.

 

Como é que se resolvem as desigualdades no acesso à energia?

Estamos a atingir valores cada vez mais baixos nos leilões de energia. O aumento da competitividade entre tecnologias fará com que o mercado obrigatoriamente nivele os preços da energia. Claro que agora estamos numa situação distinta, a pandemia provocou dois anos completamente atípicos. É normal que os custos da energia também tenham sido impactados. Mas a minha visão é que o desenvolvimento tecnológico e a aposta na investigação vão permitir baixar os preços da energia.

 

Poderá Portugal algum dia tornar-se exportador de energias renováveis, dadas as condições naturais que temos no país?

Sem dúvida. Aqui, o hidrogénio volta a ter um papel preponderante, porque tem a flexibilidade de não só armazenar o potencial energético da produção renovável como de transportar essa energia para os países da Europa.

 

O que falta para Portugal alcançar a transição energética?

Devemos diversificar ao máximo nas fontes de energia renovável, porque é isso que nos permite não estarmos completamente dependentes de uma única fonte de energia. Dito isto, acho que a transição energética em Portugal está a correr bem e as metas a que nos propomos até 2030 são atingíveis. Recentemente, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, da ONU) publicou um parecer onde alerta para a necessidade de haver uma transição energética rápida. E Portugal tem todas as condições para o cumprir. Aliás, é de todo o interesse para Portugal que a transição energética seja o mais rápida possível. Sendo um país litoral, está mais vulnerável às alterações climáticas – com a subida do nível do mar e a maior frequência de fenómenos de seca extrema.

 

Que devem fazer os países desenvolvidos e países em desenvolvimento para alcançar as metas definidas pela ONU, para o sector da energia?

Os países desenvolvidos deverão focar-se na redução do consumo de energia. É fundamental usar os recursos de forma mais eficiente. Nalguns países em desenvolvimento com alto consumo, como a Índia, talvez a energia nuclear possa ajudar na diminuição do uso do carvão e de combustíveis fósseis para a produção de energia – que são os grandes responsáveis pela poluição atmosférica.

Existe um receio no uso da energia nuclear, e na Europa há alguns países que estão a fechar as centrais [é o caso da Alemanha]. Mas todas as fontes de energia têm riscos associados. O facto de terem acontecido acidentes ao nível da energia nuclear permitiu-nos aprender e crescer. Portanto, penso que o nuclear ainda poderá ter um papel preponderante na transição energética. Mas as energias nucleares requerem planeamento a longo-prazo, com uma estratégia superior a 20 anos.

 

Portugal deveria produzir energia nuclear?

Não acho que faça sentido construir centrais nucleares em Portugal. O país consegue produzir quantidades de energia suficientes a partir de fontes renováveis e da utilização do hidrogénio.

 

Se todas as fontes de energia têm riscos, quais são os das energias renováveis?

O principal risco é a incerteza no fornecimento e assegurar a estabilidade da rede. Por isso, continuo a acreditar que o gás natural poderá ter um efeito estabilizador, enquanto não existem formas de armazenar energia em grandes quantidades.

Além disso, a instalação de grandes superfícies de painéis solares para produzir energia tem impactos ao nível da utilização dos solos e do ecossistema.

 

Gostaria de deixar uma última mensagem?

Sim. A estratégia energética nacional e internacional tem sempre de ter em consideração a segurança energética, a equidade e a sustentabilidade. São os três pilares fundamentais, mas tende a haver um foco só na sustentabilidade ou só na segurança energética. É essencial haver um equilíbrio e não esquecer as pessoas.

 

 

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