No futuro, o triunfo é das cidades

Joana Ferreira da Costa

A concentração da população em mega cidades traz consigo enormes desafios. Não é apenas resolver o problemas da mobilidade de milhões de pessoas, dos gigantescos engarrafamentos ou dos transportes pouco eficientes, do consumo de energia e do lixo acumulado em quantidades avassaladoras. É também enfrentar a falta de habitação, a pobreza e a marginalização para que são atirados muitos destes novos citadinos.

«Do campo para as cidades» foi o tema do debate Fronteiras XXI de dia 7 de Junho de 2017 na RTP3.

Por semana, três milhões de pessoas em todo o mundo mudam-se para as cidades. A Lagos, na Nigéria, vão chegar por hora 85 novos habitantes nos próximos anos e outros 19 entrarão em Istambul, na Turquia, revelam as estimativas das Nações Unidas (ONU). 

A uma velocidade crescente, engordam as mega cidades, onde o número de moradores é superior a toda a população portuguesa. Hoje há 29 mega cidades mas serão 41 dentro de pouco mais de uma década, prevêem os especialistas da ONU. Vão crescer sobretudo nas regiões mais pobres do sudeste asiático e da África subsariana, onde a população continuará a aumentar, ao contrário do que sucede na Europa (ver infografia aqui).

Esta concentração fará disparar as cidades suburbanas e trará consigo enormes desafios. Não é apenas resolver o problemas da mobilidade de milhões de pessoas, dos gigantescos engarrafamentos ou dos transportes pouco eficientes, do consumo de energia ou do lixo acumulado em quantidades avassaladoras. É também enfrentar a falta de condições de habitação, a pobreza e a marginalização para que são e serão atirados muitos destes novos urbanos.

 

Um quarto do mundo urbano em bairros de lata

Hoje quatro mil milhões de pessoas vivem em cidades. Mas para muitas esta nova realidade não significa qualidade de vida. Quase um quarto desta população urbana dorme em bairros de lata, barracas ou simplesmente nas ruas, sem acesso a água potável ou condições mínimas de higiene, alertam os peritos da Conferência da ONU sobre Habitação e Desenvolvimento Urbano Sustentável (Habitat III), que se reuniram no Equador, em Outubro passado, para estudar soluções para estes problemas.
Nestes subúrbios sem condições, os riscos de má nutrição, de infecção com doenças sexualmente transmissíveis, de violência ou acidentes rodoviários é enorme e continuará a aumentar, prevêem os peritos.

A poluição é outra das grandes ameaças à saúde destes urbanos. Em cidades como Pequim já há dias onde é mais perigoso respirar do que fumar um maço de cigarros, e em Xangai, as autoridades têm sido obrigadas a proibir as actividades ao ar livre e a circulação automóvel devido aos picos de concentração de poluentes no ar.
Além disso, a temperatura nas grandes metrópoles será particularmente atingida: os termómetros podem subir até 8º C nas zonas mais populosas durante este século, diz um estudo publicado no mês passado na revista “Nature Climate Change”. Em causa está o efeito conjugado da poluição e da concentração urbana, que acentuam os efeitos do aquecimento global, criando “ilhas de calor”.
“As cidades estão a ficar maiores, sobretudo nos países em desenvolvimento, mas isso não as torna melhores”, defende num artigo da revista “Forbes” Joel Kotkin, professor de estudos urbanos na Universidade de Chapman, nos EUA.

Para o investigador, as actuais mega cidades nos países em desenvolvimento, de Bombaim (Índia) a Manila (Filipinas)  ou a Lagos (Nigéria), não são mais do “uma repetição trágica dos piores aspectos da urbanização em massa, que já ocorreu no Ocidente”.
Um das maiores preocupações dos especialistas é o acesso à habitação. Segundo as Nações Unidas, mil milhões de casas serão necessárias até 2025 para acomodar os 50 milhões de novos moradores que se mudam anualmente para as cidades.
Os preços das habitação nos centros urbanos são incomportáveis para a esmagadora maioria e a tendência é que os novos habitantes sejam empurrados para os subúrbios, com as periferias a alargarem-se indefinidamente, encontrando-se com as zonas mais rurais.

 

Construir comunidades em constelação

O enorme risco é que este crescimento no futuro continue a ser feito através de bairros de lata, zonas dormitório ou guetos. “As cidades muitas vezes têm desigualdades económicas muito maiores do que o total do país”, reconhecem os especialistas do grupo de trabalho para a criação de cidades mais inclusivas da Habitat III. Essa realidade conduz a fenómenos de “exclusão e criminalização de grupos desfavorecidos e vulneráveis”, dos mais pobres, aos emigrantes, mas também de mulheres, crianças ou idosos.
Os peritos propõem por isso medidas políticas que garantam acesso a habitação, cuidados de saúde e de educação aos mais pobres e marginalizados, mas também medidas de envolvimento destes cidadãos para que participem activamente no seu destino.

Outra das respostas para esta inclusão social está na concepção e desenho dos bairros de habitação, explica o arquitecto malaio que revolucionou a urbanização de Singapura a partir da década de 1960, através de um programa governamental de construção de casas populares, que garantiu habitação a 1,3 milhões de pessoas das zonas rurais e bairros de lata. “A nossa cidade não tem guetos de pobres nem áreas nobres”, explicou Liu Thai Ker numa entrevista ao jornal brasileiro “O Globo”. “Em cada um desses novos bairros temos pessoas que eram invasoras, pessoas que eram muito pobres, profissionais liberais, jovens empresários”.

A esta mistura de cidadãos de diferentes origens sociais e económicas num mesmo bairro, o programa de realojamento em casas populares, juntou o conceito de cidades compactas, onde emprego, serviços públicos, entretenimento e habitação estão integrados na mesma zona. A cidade vai crescendo bairro a bairro, como uma constelação.
Desta forma, explica Liu Thai Ker ao diário brasileiro, “não construímos só uma cidade-dormitório, mas sim uma comunidade”. Um modelo que, defende, é replicável noutras cidades do mundo, como as sul-americanas Cidade do México ou São Paulo, no Brasil.

 

Mais saudáveis para pessoas e economia, diz especialista

Para o economista norte-americano Edward Glaeser, da Universidade de Harvard, não há qualquer dúvida de que quem escolhe as cidades faz a escolha certa. O professor e escritor vê nelas um espaço de oportunidades e defende que são mais saudáveis para as pessoas, para a economia e até mais ecológicas do que os subúrbios e as zonas rurais.

No seu livro “O Triunfo da Cidade: como a nossa maior invenção nos faz mais ricos, espertos, verdes, saudáveis e felizes” , defende que “a densidade urbana pode criar maravilhas”.
Aproxima pessoas culturalmente diferentes, garante mais emprego e torna-as mais produtivas do que nas cidades pequenas ou zonas rurais, diz Glaeser exemplificando que nos EUA a produtividade de um trabalhador urbano é 50% superior à produtividade do que a dos que vivem fora dela.
O economista admite, contudo, que esta urbanização “também tem o seu preço”: “toda a cidade por mais pequena que seja está dividida em dois: “a cidade dos pobres e a cidade dos ricos”, frisa na sua obra.
Apesar disso, e mesmo perante os graves problemas de pobreza que atingem as grandes concentrações urbanas do mundo, acredita que o balanço é mais positivo para os citadinos. “As cidades atraem os mais pobres com a promessa de uma vida melhor do que a do campo. Cerca de três quartos da população de Lagos, na Nigéria, têm água potável segura. A média no país é inferior a 30%”, argumenta no livro.

 

Neste Fronteiras XXI saiba mais sobre o fenómeno da urbanização de Portugal e do mundo. Reveja online o programa «Do campo para as cidades», emitido a 7 de Junho de 2017, na RTP3.