ENTREVISTA

“Esta crise é uma oportunidade para criarmos um normal melhor do que tínhamos”

Entrevista a Maria Helena André, directora do Departamento das Actividades dos Trabalhadores da Organização Internacional do Trabalho (OIT-ACTRAV) e ex-Ministra do Trabalho e da Solidariedade Social

“Temos de deixar de medir a produtividade pelo número de horas prestadas e passar a avaliar aquilo que é produzido face à encomenda feita ao trabalhador. É preciso promover o direito a desligar, permitir aos trabalhadores dizerem que depois do horário de trabalho não atendem chamadas nem respondem a e-mails – um aspecto que terá impacto na manutenção e progressão das mulheres no mercado de trabalho”.

 

Não perca o debate Fronteiras XXI “Que mundo vem aí?”, no dia 24 de Junho, às 22h, na RTP3

 


Hoje, vivemos numa realidade arquitectada por um vírus. E nesse mundo reina a incerteza. Mas nem o facto de enfrentarmos a maior crise económica de que há memória desanima Maria Helena André, directora do Departamento das Actividades dos Trabalhadores da Organização Internacional do Trabalho (OIT-ACTRAV). A ex-Ministra do Trabalho e da Solidariedade Social acredita que o choque provocado pela pandemia oferece a possibilidade de as empresas e governos fazerem mudanças que melhorem a sustentabilidade das indústrias e a qualidade de vida das pessoas. “Este é o momento em que todas estas matérias têm de vir para a mesa de negociação”, defende. “Só tenho pena que isto aconteça quando temos a pistola apontada à cabeça.”

 

A pandemia da Covid-19 terá consequências na globalização?

Sim, a actual pandemia e a crise que provocou podem levar a um repensar de alguns trâmites da globalização. Algumas estruturas da globalização não estão a ser suficientemente redistributivas. Os benefícios do comércio para todos, sobretudo para os que fazem parte das cadeias de aprovisionamento, até agora não se concretizaram. A meu ver, as cadeias de aprovisionamento vão diversificar-se e isso pode ter consequências no comércio mundial. Partes da produção de bens e serviços irão regressar aos países desenvolvidos e as novas tecnologias vão conduzir a uma ainda maior automação do processo produtivo.

 

Uma reindustrialização dos países ajudaria a distribuir melhor a riqueza?

Penso que sim. Ao mesmo tempo, também me parece que os países desenvolvidos podem ajudar os países em desenvolvimento do hemisfério sul a diversificarem as suas economias. A globalização traz melhorias das condições de trabalho através da melhoria das condições de produção, mas não diversifica a actividade económica. Seria importante ajudar os países em desenvolvimento a criar cadeias de valor regionais, porque poderão ser cruciais para recuperar da crise, para o desenvolvimento económico e para o equilíbrio social.

 

África está a ser apontada como potencial substituta da China, enquanto produtora de bens e serviços para o mundo. Pode ser uma oportunidade para os países africanos e para aqueles com ligações históricas a este continente?

Do ponto de vista económico e do equilíbrio da divisão do trabalho a nível mundial, faz todo o sentido. Por um lado, uma relação económica será sempre mais saudável entre países com a mesma língua, os mesmos traços culturais e a mesma raiz de entendimento e compreensão. As parcerias económicas entre Portugal e os países africanos de língua portuguesa são um bom exemplo disso. Por outro lado, os afectos devem fazer parte da Economia e contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas e o desenvolvimento social dos países.

 

As indústrias enfrentam grandes desafios. Quais podem não sobreviver à pandemia?

Ainda é difícil avaliar, porque muitas actividades produtivas ainda estão encerradas ou a operar em países que continuam a ter alguma forma de confinamento. Mas sabemos que alguns sectores ficaram profundamente afectados, como a indústria transformadora, o comércio grossista, os transportes, a hotelaria e a restauração. Particularmente, estas indústrias do lazer vão enfrentar sérias dificuldades devido à grande quebra no consumo e ao aumento da incerteza. E vão provocar muito desemprego, por envolverem actividades de mão-de-obra intensiva. Também não podemos dizer que eram sectores de grande qualidade antes da crise: recorriam muito a trabalhadores informais e a erosão das relações de trabalho era muito observável.

 

Que sectores económicos têm potencial de crescimento?

Os sectores que mantiverem a capacidade de produção durante a pandemia. Para já, podemos destacar três que prestaram uma resposta imediata às necessidades que surgiram durante a crise sanitária: o da saúde, o da agricultura e o do processamento de alimentos. E não tenho dúvida nenhuma de que sectores como a economia verde, as infra-estruturas digitais ou a educação ganharão destaque na fase de recuperação da crise, porque vão beneficiar dos investimentos públicos.

 

Como é que as empresas conseguem ser sustentáveis num cenário de pandemia?

Uma das pré-condições para que as empresas sejam sustentáveis é o grau de qualificação da sua mão-de-obra. Outra condição essencial é que haja diálogo entre empregadores e trabalhadores. Depois, se as empresas tiverem a capacidade de se adaptar aos avanços tecnológicos, aos desafios da transição digital e aos novos padrões de consumo, estão mais aptas a sobreviver. Penso que as empresas que tiverem capacidade de actuar numa economia global (ainda que mais volátil) são aquelas que estão mais bem posicionadas para o futuro.

 

Em Portugal, são sobretudo os jovens, as pessoas com baixa escolaridade e as mulheres que mais têm perdido o emprego.

Sim, registou-se um aumento desproporcional do desemprego entre os jovens, em todo o mundo – muito devido a contractos precários. Além de que os jovens também viram interrompidas as suas oportunidades de educação e de formação no trabalho. Isto pode ter um impacto devastador. Os quadros políticos nacionais e europeus devem fazer todos os esforços para que os jovens voltem ao mercado de trabalho, de preferência, com melhores condições de trabalho. Hoje, temos jovens altamente qualificados, mas cujo trabalho não é devidamente remunerado, reconhecido, valorizado e protegido. As sociedades que não conseguem proteger o emprego dos jovens estão a hipotecar o seu próprio futuro, e podem pôr em causa a democracia.

 

A crise económica provocada pela pandemia despertou valores conservadores. Esta tendência pode ter consequências ao nível dos direitos das mulheres?

Sim, temos visto manifestações preocupantes nas redes sociais relativamente ao papel da mulher na família, na sociedade e no trabalho. E receio que o confinamento possa ter provocado um recuo nas conquistas das mulheres. Durante os últimos meses, muitas mulheres desempenharam em simultâneo o papel de mãe, de cuidadora dos pais e/ou de outros familiares, de cozinheira, de empregada doméstica, de professora e de trabalhadora. Muitas tiveram de aceitar o regime de teletrabalho para poderem manter os seus empregos. Espero que isto não tenha efeitos perversos a médio e longo prazo. Mas talvez venham a ser necessárias quotas que regulem o número de mulheres e de homens em teletrabalho.

 

Porque é que as mulheres são dos grupos mais vulneráveis ao desemprego?

Há condicionantes culturais em relação ao papel da mulher na família, que explicam muitas das descriminações a que as mulheres estão sujeitas no mercado de trabalho. Embora muitas vezes tenham qualificações elevadas, a estrutura social ainda não permite o acesso das mulheres a todo o mercado de trabalho. Também é importante perceber que o sistema educativo continua a orientar as mulheres para profissões tradicionalmente ocupadas por mulheres, quando devia abrir novas perspectivas e oportunidades de carreira.

 

Que competências é que os estudantes do ensino obrigatório e a população activa devem desenvolver, a pensar no futuro?

Para nos adaptarmos às transformações económicas e tecnológicas que vão decorrer desta crise, vamos ter de investir de forma séria e célere na aquisição de competências de todas e de todos, jovens e idosos. Mas os nossos sistemas educativos são pouco ágeis e os seus programas curriculares rígidos não servem. É preciso que se ajustem às necessidades da sociedade e do mercado de trabalho. Sobretudo, é necessário que consigam dar às pessoas a possibilidade de adquirirem conhecimentos de base suficientemente larga, de base tecnológica, de convivência social e de capacidade de resolução de problemas. A capacitação dos indivíduos não tem de ocorrer apenas em ambiente formal, as competências informais são igualmente importantes. E a aprendizagem ao longo da vida tem um valor redobrado neste momento.

 

Que aprendizagens devemos reter destes últimos meses mergulhados numa pandemia?

É o momento em que todas estas matérias têm de vir para a mesa de negociação. Temos de deixar de medir a produtividade pelo número de horas prestadas e passar a avaliar aquilo que é produzido face à encomenda feita ao trabalhador. É preciso promover o direito a desligar, permitir aos trabalhadores dizerem que depois do horário de trabalho não atendem chamadas nem respondem a e-mails – um aspecto que terá impacto na manutenção e progressão das mulheres no mercado de trabalho. Se o teletrabalho continuar a ser utilizado para as pessoas poderem manter os seus empregos e como forma de organizar o trabalho dentro das empresas, vão ser necessárias outras estruturas de acompanhamento e de apoio à família que façam com que o teletrabalho não seja um fardo impossível. A ameaça iminente das alterações climáticas não desapareceu e precisa de uma resposta verdadeiramente global. Esta crise é uma oportunidade para criarmos um normal melhor do que tínhamos antes da pandemia. Só tenho pena que isto aconteça quando temos a pistola apontada à cabeça.

 

 

Não perca o debate Fronteiras XXI “Que mundo vem aí?”, no dia 24 de Junho, às 22h, na RTP3