Os novos velhos

Texto de Catarina Guerreiro Jornalista, editora-executiva da revista "Visão"

Os dados de um novo estudo nacional desmistificam a ideia de que os idosos são todos dependentes, dementes e doentes. Entre os portugueses com mais de 65 anos que vivem nas suas casas, mais de 80% não tem défice cognitivo e mais de 70% é independente nas tarefas diárias. A velhice está a mudar. Mas, avisam os especialistas, é preciso acabar com o preconceito que existe na sociedade.

 

“A idade é só um número?” Não perca o próximo Fronteiras XXI, dia 23 de Outubro às 22h30, na RTP3

 


“Velhicismo”. O termo é pouco conhecido, mas simboliza o que se tornou num fenómeno nos dias de hoje. “É a palavra usada para falar dos que têm preconceitos contra os idosos”, explica João Gorjão Clara, um dos maiores especialistas portugueses em geriatria – área de Medicina focada no idoso.  E em Portugal, garante, “há muito desse preconceito”.  “No País, o envelhecimento não é visto como uma conquista civilizacional, mas como um castigo, um castigo económico”.  A solução, defende, é mudar as mentalidades, a começar nas escolas, onde além de se passar a mensagem de que não se deve fumar, ou comer açúcar, por exemplo, se tem de ensinar que é preciso respeitar os idosos. Isto para contrariar a ideia que hoje prevalece de que os mais velhos “são um estorvo, só servem para consumir recursos ao Estado, à Saúde e às famílias e não produzem”. 

“Os mais novos devem ter a noção de que estão cá por causa dos mais velhos, dos pais, dos avós”, nota o geriatra, garantindo que actualmente os idosos são apenas vistos como dependentes, doentes e dementes. E isso, nem corresponde sequer à realidade, observa Gorjão Clara, que durante anos liderou a unidade geriátrica da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Num estudo inovador concluído recentemente em Portugal, estando alguns resultados a ser ainda estudados – o PEN-3S – até os investigadores foram surpreendidos com o cenário que encontraram entre os portugueses com mais de 65 anos que vivem nas suas casas ou com familiares. Cerca de 70% são independentes, no que se refere às actividades básicas do dia-a-dia, e mais de 80% não tem défice cognitivo. Só 10% diz sentir-se sozinho e a percentagem dos que estão deprimidos fica-se pelos 20%. “Encontrámos um cenário mais positivo do que se estaria à espera”, nota Teresa Madeira, nutricionista e uma das autoras do projecto de investigação que contou também com a participação de Gorjão Clara como investigador principal e de psicólogos, sociólogos, médicos de geriatria e de família e ainda dietistas. “Não nos deparámos com uma situação que confirmasse a ideia de que os idosos são todos dependentes, sem capacidades”, que parece instalada na sociedade, explica a especialista, sublinhando, no entanto, que os que responderam aos mais de 1.000 inquéritos que sustentam o estudo não são, naturalmente, as pessoas que estão em piores condições.  Apesar disso, um dado é inegável: a idade tem um elevado impacto na degradação da função cognitiva – que inclui a atenção e concentração, a memória, a linguagem, entre outros.  Os números são reveladores: se, nos idosos entre os 65 e os 74 que vivem na comunidade, nem 10% tinha a função cognitiva comprometida, naqueles que têm mais de 85 anos, esse valor sobe para 40%. Já na depressão e na dependência não se notam alterações tão evidentes com o avançar dos anos.

 

Preparar a ida para o lar

José Figueira tem 90 anos, feitos no passado dia 2 de outubro, e é uma das provas desse cenário mais positivo que surpreendeu os investigadores.  Trabalhou anos a fio como maquinista da Marinha Mercante. É bem disposto e de conversa solta e raciocínio rápido. “Somos vistos como empecilhos, uma carga de trabalhos”, começa por dizer. “Os velhos são vistos como um atraso de vida”, garante, para afirmar, de seguida: “Mas não se podem livrar de nós”.  Ainda vive com a mulher, Margarida, cinco anos mais nova, num apartamento no Algarve, mas acredita que um dia destes vão acabar num lar. “É o nosso destino. É fatal”.  Não têm filhos e, por isso, sabem que cada vez se tornará mais difícil.  Mas, por enquanto, vão aguentando, mesmo com os problemas de saúde habituais dos idosos: José vê mal, sofre de cataratas, já foi operado ao coração e tem problemas na próstata, pelo menos. Mas a memória não falha. Recorda-se, e fala com detalhe, do tempo em que estudou na Escola Náutica e em que trabalhou, durante dois anos, em submarinos da Marinha de Guerra e, depois, a conduzir as máquinas dos navios da Marinha Mercante. “O mais divertido é que ainda hoje não sei nadar”, diz, rindo-se, mas grato por, a apenas uma década de atingir um século de vida, ainda sentir que tem as funções cognitivas em ordem.  Por isso, ainda gosta de “ler, ler e ler,” como refere. “Chego a ir a Portimão comprar leituras”.

José está sentado num dos bancos de madeira que se encontram espalhados pelo Jardim da Parada, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa. Naquela manhã estão todos cheios com pessoas da sua idade, como é habitual. Umas conversam, outras descansam apenas, outras jogam cartas e outras ainda passam ali parte do tempo. Maria Olívia Gonçalves está sentada num desses bancos.  Ela e José Figueira não se conhecem, mas Maria Olívia também fez 90 anos – e apenas dois dias antes dele. Está muito bem arranjada e ninguém lhe dá a idade que tem. Por isso, quando lhe perguntam os anos, costuma lançar o desafio. “Tente lá adivinhar…”. Nasceu a 30 de Setembro de 1929, mas as nove décadas que já viveu não lhe afectaram a memória e a desenvoltura nem a capacidade de conversar.  Conta que foi técnica de análises clínicas em hospitais públicos, que adorava fazer croché, que sempre gostou de passear e lembra que perdeu todos os quatro irmãos e que os pais morreram em desastres – o pai ainda jovem, com 39 anos, num acidente de mota, e a mãe atropelada aos 82 anos.  Em comum com José tem, além da idade, outros detalhes. Olívia e o marido, um antigo engenheiro técnico, também não tiveram filhos e por isso estão igualmente preparados para se mudarem para um lar. “Aliás, já nos inscrevemos num aqui ao pé”, conta. Enquanto isso não sucede, vão recorrendo a uma empregada que os ajuda nas tarefas.  

A verdade é que segundo os dados do estudo PEN-3S, há uma grande diferença entre os idosos que vivem nas suas casas e em lares: estes últimos são mais dementes, sentem-se mais sozinhos e estão mais deprimidos. “Mas isso poderá estar relacionado com o facto de se tratar de pessoas em idades muito avançadas e em situações mais debilitadas”, refere a investigadora Teresa Madeira. Essa, acredita, também será a explicação para a perigosa constatação com que se depararam em termos de nutrição. “Quase metade dos idosos que se encontra em lares está malnutrido ou em risco de desnutrição”, adianta a autora do trabalho “Estado nutricional dos idosos portugueses: estudo de prevalência nacional e construção de um sistema de vigilância”.

 

Depressões e isolamento

Entre os que vivem na comunidade a situação não é tão complicada. Há, no entanto, diferenças marcadas entre os sexos. Eles são menos independentes, elas sentem-se mais sós, indicam os resultados do estudo. Nesse dia, no Jardim da Parada, muitos homens jogam ou conversam juntos nas mesas que ali existem. Um deles é José Jacinto, de 81 anos. “Venho todos os dias aqui pela manhã”, diz. É casado e tem um filho, mas gosta de conviver.  Já a estratégia de Hortênsia Ferreira, de 80 anos, para combater o isolamento passa pelo centro paroquial. “Vou lá almoçar todos os dias e ficamos a conversar umas com as outras”, explica, continuando “fico por lá o tempo que me apetecer”. Vive sozinha, num apartamento no bairro. É viúva e o marido, “que era dourador de molduras que vendia para os centros comerciais”, morreu há 10 anos com um edema pulmonar.

Mas Hortênsia costuma ter o apoio da filha. Ao fim de semana vão muitas vezes juntas a um baile na zona. É ela que lhe paga o jantar todos os dias. “Uma sanduíche, um galão e um carioca”, conta.  Tem alguma dificuldade em falar, porque lhe faltam alguns dentes, mas facilidade em recorrer à memória para recordar os episódios mais marcantes da sua vida. E não esconde que sempre foi um pouco rebelde.  “Fugi de casa aos 12 anos”, diz, enquanto dá uma dentada num papo seco, antes de prosseguir. “Quando era novinha vendia sabões, cabides, atacadores, pentes, ali no mercado do Rato”, mas depois, lembra, acabou colocada numa instituição em Peniche. Mais tarde trabalhou como empregada num restaurante. “Também fui organista. Tocava na igreja”, acrescenta. Hoje não tem nada de especial e concreto para fazer. “Não faço nada. Mas também com esta idade…”. Apesar disso, não se sente triste, garante. “É mesmo assim”. 

A verdade é que Hortênsia não faz parte do elevado grupo de idosas que enfrentam a depressão. Mas, segundo vários estudos, pertence ao grupo de risco: é viúva e mulher. 

Esse foi, aliás, outro fenómeno que se tornou evidente no estudo de Teresa Madeira: na velhice, as mulheres encontram-se em pior situação no que se refere aos estados depressivos. “Encontrámos uma percentagem de depressão no sexo feminino que é o dobro da no sexo masculino”.

Maria Flor está quase a fazer 65 anos e a entrar no que se chama ainda a terceira idade. Mas parece muito mais velha. Sente-se cansada. “Dizem ser depressão”, conta, enquanto garante que não lhe apetece fazer nada. Trabalhou durante anos a recolher lixo para a Câmara Municipal de Lisboa pelas ruas da cidade. “Eu gostava muito de trabalhar ao ar livre”.  Agora está com dificuldades em andar pois tem problemas num joelho, resultado dos anos em que fazia limpeza com os joelhos no chão e a carregar pesos. E os seus problemas psicológicos são resultado de uma vida dura, acredita.

O neuropsicólogo André Carvalho, do Hospital Lusíadas, em Lisboa, explica o que leva a que tantas mulheres sofram deste problema na velhice. “Estão em fases da vida em que têm muitos factores de risco: o luto, pois perderam muitas pessoas; enfrentam doenças crónicas, que sabem que têm de viver o resto da vida com elas; e muitas debatem-se com carência económicas”.

“O panorama entre os mais velhos é pior nas mulheres”, adianta Teresa Madeira, explicando que uma das características que observaram no estudo foi essa diferença em relação ao género. “Elas estão pior, mas também vivem mais tempo”, nota.

Segundo dados da Pordata, em 2017, a esperança média de vida era de 83,4 anos para as mulheres e 77,8 para os homens.  Números que prometem revolucionar a demografia nos próximos anos.  Em 2080, segundo dados divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE), o número de jovens diminuirá de 1,5 para 0,9 milhões e o de idosos passará de 2,1 para 2,8 milhões.  Ou seja, 40% da população portuguesa terá mais de 65 anos. E, segundo o Pordata, para cada 100 jovens no país existem actualmente 157 idosos, quando há uma década o número se fixava nos 115.  No mundo, e pela primeira vez, há mais avós do que netos, segundo dados divulgado este ano pela ONU. Ou seja, existem 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre os zero e os quatro anos.

Estas estimativas levam Gorjão Clara a sublinhar a importância de se mudar a forma como se olha para os idosos e a implementar medidas para adaptar a sociedade à nova realidade: os idosos serão a maioria.

Foi a pensar nessa ideia que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu começar a apostar no tema e a lançar políticas para encontrar soluções para os problemas que irão surgir.  Recentemente foi divulgado um guia sobre o que devem ter as cidades amigas dos idosos. Nas ruas, deverão ser colocados bancos para as pessoas se poderem sentar quando andam a pé e deverá haver casas de banho públicas para enfrentar os obstáculos da idade. Basta ver que, em Portugal por exemplo, uma em cada cinco pessoas com mais de 40 anos já sofre de incontinência urinária.  “A disponibilidade de bancos e áreas para sentar é uma característica urbana necessária para os idosos: para muitos deles, é difícil andar pela cidade se não houver algum lugar para sentarem e descansarem”, refere o estudo da OMS.

Também nos transportes públicos terão de ser feitas mudanças:  devem ter todos fácil acesso, com piso rebaixado, degraus baixos e bancos largos e elevados.  Outra mudança a ser feita é nas calçadas, que de acordo com os autores do guia da OMS, “tem um impacto óbvio na capacidade de locomoção do idoso”. Em Portugal por exemplo, a calçada portuguesa promete ser um problema. “É uma ratoeira”, diz Gorjão Clara.

Muitas vezes, é essa calçada que provoca quedas de idosos, uma das grandes causas de internamentos neste grupo etário. Um estudo feito por médicos do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar de São João, no Porto, garante que o número de internamentos de idosos nos hospitais em consequência de fractura do colo do fémur tem aumentado de ano para ano.

Entre 2005 e 2013, por exemplo mais de 100 mil foram admitidos nas unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com uma idade média de 79,3 anos, sendo que 75% eram do sexo feminino.

Não é de estranhar que naquela manhã no Jardim da Parada quase todos andassem com uma bengala.  Hortênsia caiu precisamente a andar na calçada portuguesa e hoje tem de usar uma bengala com flores cor-de-rosa. Já teve várias quedas. José Figueira também já repetiu o acidente que teve, pela primeira vez, há ano e meio. “Caí duas vezes já”, diz, sugerindo que as autarquias nivelassem a calçada: “Hoje é muito fácil”.  A Maria Olívia aconteceu o mesmo: mas uma das vezes a queda foi em casa e a segunda no cabeleireiro. Partiu o colo do fémur e agora anda com duas canadianas.  “Fui operada e fiquei internada uma semana”, recorda.

A forma como os hospitais lidam com os doentes idosos é outra das alterações que muitos especialistas dizem ter de ser feitas nos próximos tempos. Gorjão Clara lembra que são urgentes mudanças na forma de tratar e receber estes doentes .“Muitos entram pelo seu pé, bem, e quando saem estão piores, tendo perdido massa muscular, que nessa idade é muito importante”, sublinha, defendendo que uma das soluções passa por criar unidades de geriatria que ficam encarregues de alguns idosos, em especial daqueles que têm várias doenças em simultâneo.

 

Condomínios só para idosos

A verdade é que esta revolução demográfica está já a gerar novos projectos pelo mundo e também em Portugal.  A Cáritas de Coimbra tem neste momento quatro robôs sociais, criados para viverem com os idosos, que ajudavam nas várias tarefas da casa e combatiam o isolamento. “Eles têm um simulador de diálogo”, explica Flávia Rodrigues, do departamento de Inovação da Cáritas, explicando que estão equipados com um sistema de diálogo inteligente, que consegue detectar emoções e por isso são capazes de manter interações.

Os robôs surgiram integrados no do projecto internacional de robótica GrowMeUp, co-financiado pela União Europeia, e coordenado pela Universidade de Coimbra e tinha o objectivo de testar e aperfeiçoar um robô inovador para pessoas com mais de 65 anos. O projecto terminou e os quatro robôs – quase do tamanho de uma pessoa – estão neste momento nas instalações da Cáritas. “Mas foram testados em casa de utentes”, explica a responsável

Ao país está também a chegar uma nova tendência: condomínios de idosos geridos pelos próprios. Ou seja, são uma alternativa aos lares de terceira idade. Em Águeda, por exemplo, existe uma “aldeia sénior”, criada por uma instituição particular de solidariedade social. No aglomerado de pequenas casas vivem 18 idosos, com o apoio de profissionais especializados. Além disso, há vários projectos a serem desenvolvidos, como sucede na Santa Casa da de Misericórdia do Porto, que vai recuperar e reabilitar “um antigo bairro destinado a mulheres viúvas”. O fenómeno cresce de dia para dia e, se até aqui, estava dependente da iniciativa de instituições, agora os próprios estão a começar a criar formas de envelhecerem com amigos. De tal forma que, no último ano, surgiu pela primeira vez em Portugal uma associação que tem como objetivo desenvolver comunidades de habitação, nomeadamente para idosos.

“A ideia é as pessoas juntarem-se e viverem todas num sítio. Cada uma na sua casa, mas com serviços e espaços comuns”, explica Mituxa Carvalho, membro da direcção da nova associação Hac.Ora Portugal Senior Cohousing Association, explicando que a nova lei da habitação, que entrou em vigor em Outubro, já contempla este tipo de situação.  “O nosso objetivo é divulgar o conceito deste tipo de habitação”, diz falando do co-housing – expressão usada para definir o grupo de pessoas que se organiza e cria esse espaço de vivência em conjunto. Neste momento estão já a ser desenvolvidos com a associação dois projectos, um deles é um grupo de casais de idosos que decidiram ir viver juntos para o Alentejo. Trata-se de espaços criados e geridos pelos próprios idosos, que decidem como e onde querem viver a sua velhice e reforma.

Se em Portugal a ideia está a dar os primeiros passos, em Espanha, por exemplo, há vários casos de sucesso. Na cidade espanhola de Cuenca há uma república, onde vivem juntos 87 idosos. Tudo começou com dois casais, mas muitos outros foram conquistados pelo lema que partilham: “Dar vida à idade”. O condomínio tem os mesmos serviços que existem nos lares e as mesmas regras, como casas de banho preparadas para idosos, móveis sem esquinas ou botões de emergência em todos os quartos.

Outra das soluções em que se está a apostar pelo mundo é juntar jovens e velhos, Na Holanda, por exemplo, num lar em Deventer, vivem 160 idosos e seis universitários que, em troca de um local para morarem, fazem companhia aos mais velhos. Em Lisboa, no bairro Padre Cruz, há um espaço – promovido pela Câmara Municipal de Lisboa e gerido pela Santa Casa da Misericórdia – que tem “creches e espaços de acompanhamento de jovens” no rés-do-chão e residências assistidas nos andares de cima, apenas para idosos com autonomia.

Para muitos, esta é a resposta que pode fazer a diferença para mudar a forma como a sociedade e os mais novos encaram os mais velhos. “A solução deve passar por os aproximar dos mais jovens. Com uns e outros a trocarem a sua experiência”, acredita o neuropsicólogo André Carvalho, notando que nos próximos tempos haverá também uma alteração das características dos próprios idosos.

Por enquanto, muitos dos portugueses mais velhos ainda são analfabetos, mas essa realidade irá mudar em breve.  A nova geração de idosos é diferente, acreditam os especialistas. Os avanços da medicina, o aumento da esperança de vida, a revolução estética já estão a mudar a velhice. Hoje muitos, quando entram nos 65 anos, decidem começar a viajar, a fazer ginástica, a lançar um negócio ou até a estudar. Uma situação que não se enquadra no conceito tradicional de terceira idade e que leva alguns peritos a defenderem uma nova nomenclatura para os idosos mais idosos, para aqueles que tem 90 ou 100 anos: a quarta idade.

“O importante é as pessoas começaram a preparar o pós-reforma. Tal como programam o casamento, a carreira, etc.”, aconselha André Carvalho, garantindo que essa pode ser a diferença entre uma boa ou má velhice. “Há duas vidas: antes e depois da reforma”, assegura, explicando que uns “vivem-na em tédio, outros reinventam-se”. Até a tecnologia, defende, pode ser útil para manter a saúde mental.  “As redes sociais podem ajudar o idoso”, diz o neuropsicólogo.

Para Gorjão Clara não há dúvida. Tem de se acabar de vez com a ideia de que os velhos são chatos e lentos e apenas um custo para a sociedade. Ao longo dos tempos mudou-se muito a ideia dos idosos, diz. “Dantes até se pedia a bênção aos avós” recorda. “Hoje são vistos como um encargo”, avisa, argumentando que isso resultou do facto de a sociedade estar hoje muito focada nos recursos económicos. Mas o médico aproveita para deixar um aviso: Tal como há velhicismo também também há o preconceito dos mais velhos em relação aos mais novos. “Muitos acham que os jovens são todos irresponsáveis, drogados” explica, alertando: “Mas essa ideia preconceituosa também tem de acabar.”  A solução parece estar em aproveitar o melhor de cada idade. 

 

 

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