ENTREVISTA

Filhos da mudança

Entrevista a Inês Afonso Marques, psicóloga clínica, psicoterapeuta infanto-juvenil, especialista em neuropsicologia pediátrica e autora de livros como "Crescemos Juntos" e "A Brincar Também se Educa". por Filipa Basílio da Silva

O divórcio pode reflectir-se no comportamento e no desempenho escolar dos filhos, com possíveis alterações no humor, no sono, no controlo dos impulsos, na capacidade de atenção e de socialização ou nos interesses das crianças. “Os adultos devem intervir quando as mudanças persistem no tempo, interferem de forma significativa na dinâmica familiar ou são pautadas por um marcado desconforto emocional.”

 

 

Não perca o debate Fronteiras XXI “Famílias como as nossas”, no dia 12 de Fevereiro, às 22h, na RTP3

 


Que desafios enfrentam os filhos de pais divorciados? E os de casais homossexuais? E aqueles que vivem só com um dos progenitores? Como se reflectem as escolhas dos adultos nas crianças? Que efeitos poderá ter na família a entrada de parceiros dos pais ou a chegada de um meio-irmão? Poderá algum tipo de família colocar em risco o desenvolvimento das crianças? Inês Afonso Marques, psicóloga clínica e psicoterapeuta infanto-juvenil, diz que “os pais devem tentar ver a realidade, seja ela nova ou não, através dos olhos dos filhos”. A autora do livro “Crescemos Juntos” defende que “manter uma relação de empatia com as crianças é a melhor forma de ajudar a ultrapassar os testes que a vida nos vai colocando”.  

 

Actualmente, mais de metade dos casamentos terminam em divórcio. Que desafios enfrentam os filhos de pais divorciados?

A separação ou o divórcio é um acontecimento de vida que invariavelmente introduz stress nas famílias. Envolve várias alterações, do ponto de vista financeiro, pragmático, social e emocional, o que pode ter impacto na relação entre pais e filhos. A consonância parental é um aspecto bastante significativo no ajustamento dos filhos ao divórcio, porque havendo conflito tudo se torna mais exigente para as crianças.

 

É diferente se forem crianças pequenas ou adolescentes?

Sim, a adaptação à nova realidade é influenciada pela idade, o nível de desenvolvimento emocional e cognitivo, o autoconceito, a existência ou não de uma rede de suporte de amigos e o significado que atribuem ao divórcio. Se for um bebé, a adaptação à nova logística não se coloca porque ele cresce nessa dinâmica – é a normalidade dele, digamos. Caso seja uma criança pequena, ela pode ter receio de não voltar a ver um dos progenitores, que a ruptura se deva a algo de errado que tenha feito e pode perguntar como a mudança irá afectar as suas rotinas. Um adolescente tende a sentir saudade da experiência de viver com uma família que faz tudo em conjunto, porque tem mais memória da relação dos pais. Desde que o relacionamento dos progenitores não tenha sido traumático, claro. Também pode sentir-se de alguma forma responsável pela situação, devido às alterações de humor típicas da sua fase de desenvolvimento.   

 

A separação ou divórcio pode reflectir-se no comportamento dos filhos? E no seu desempenho escolar?

Sim. E a interferência poderá ser mais transitória ou duradoura dependendo do acompanhamento que os pais dão e do temperamento dos filhos. É importante monitorizar alterações no humor, no sono, no controlo dos impulsos, na capacidade de atenção, na socialização, nos interesses das crianças. Sobretudo daquelas que são mais introvertidas. Os adultos devem intervir quando as mudanças persistem no tempo, interferem de forma significativa na dinâmica familiar ou são pautadas por um marcado desconforto emocional.

 

Se um ou ambos os progenitores voltarem a casar, como é que os filhos lidam com entrada de desconhecidos na sua vida?

Depende da forma como os adultos introduzirem e gerirem a novidade. É importante que usem o bom senso, que sejam equilibrados, que dêem tempo e espaço à criança para se adaptar e poder expressar aquilo que pensa e sente. E é fundamental que os adultos lhes devolvam respostas reconfortantes.

 

As crianças podem sentir-se mais desamparadas, nestas circunstâncias?

Podem sentir-se desprotegidas, como no meio de um campo de batalha entre os progenitores. Em casos de divórcio nem sempre existe a capacidade de separar temas do casal e da parentalidade. Mas, felizmente, nem todas as situações são assim! Há pais que compreendem que embora se dissolva um relacionamento de casal, é peremptório que não se desfaça a relação com os filhos. A sintonia e capacidade de agir em prol das crianças é determinante para o seu bem-estar.

 

Quando há novas uniões, os meios-irmãos são bem recebidos?

Assumindo que a criança vive de forma equilibrada e saudável com a sua realidade familiar, a forma como recebe a chegada de um meio-irmão, à partida, difere pouco do modo como receberia um irmão. Mas o nascimento de um segundo filho (ou mais) constitui um importante marco no desenvolvimento de toda a família, porque pressupõe ajustamentos da parte das crianças. Pode ser uma boa estratégia envolver o(s) irmão(s) mais velho(s) no cuidado do mais novo. Não só em termos de gestão de tempo, como de adaptação à nova realidade e ainda em termos de desenvolvimento de laços afectivos.

 

Em 2018, 56% dos bebés nasceram de pais solteiros. O casamento dá mais estabilidade às crianças ou isso é um mito?

Não é uma questão linear. Mas, à partida, o casamento não acrescenta mais estabilidade. Aquilo que se pretende é que seja uma relação caracterizada pelo respeito, o diálogo, a segurança e o afecto explícito, garantindo um desenvolvimento saudável aos filhos. Independentemente de haver matrimónio. Existem casamentos tão tóxicos e desequilibrados que são verdadeiramente disruptivos para o bem-estar das crianças. As crianças precisam de crescer em ambientes seguros, harmoniosos e plenos de afecto. Elas sintonizam emocionalmente com os seus pais, procurando neles pistas que os guiem na forma como analisam e lidam com a realidade.

 

Nalguns casos, os pais são um casal que não coabita. Isto pode ser confuso para as crianças?

Não conheço nenhum caso em que os pais são casal, mas não coabitam – com excepção de situações em que um dos progenitores acaba por passar longas temporadas no estrangeiro por questões profissionais. Em todo o caso, a confusão na cabeça das crianças tende a ter origem na “confusão” que os pais transmitem. Se os progenitores lidarem bem com a situação e a criança sentir que os seus pais desempenham a sua missão de forma ajustada, focada nos seus interesses e necessidades, o local onde habitam não tem de ser factor desestabilizador.

 

 

Há mais de 400 mil famílias monoparentais femininas. Uma criança precisa mesmo de ter duas figuras parentais?

As crianças precisam de criar laços com ambos os progenitores e têm o direito a conviver de forma equitativa com os dois. Isso faz-se com presença, com envolvimento, com comunicação, com tempo (de qualidade acima de quantidade). Não existindo um motivo que obrigue a um registo diferente, deve privilegiar-se uma presença equilibrada. E ambos os progenitores devem envolver-se nos temas chave dos filhos, como o desenvolvimento, a escola e a saúde. A ideia de uma cuidadora principal decorre de um modelo familiar “tradicional”, em que a mãe assumia os cuidados da criança e o pai trabalhava para sustentar a família.

 

Mas este cenário parece ser ainda mais exigente para as mulheres – 88% das portuguesas empregadas trabalham a tempo inteiro. Isso tem reflexos nos filhos?

Actualmente, a realidade laboral da maior parte das famílias é bastante pesada. Ainda assim, para o desenvolvimento harmonioso de uma criança, todos os estudos apontam para a importância de privilegiar a qualidade do tempo em família, nutrindo laços afectivos que fortalecem a confiança e a segurança.  Um pai ou uma mãe podem ter mais tempo e ser pouco presentes na vida dos filhos, não brincando com eles, não vivendo as rotinas com eles e não mantendo uma ligação emocional.

 

Desde 2016 que os casais homossexuais podem adoptar crianças e jovens. A sociedade já se adaptou a este novo tipo de família?

Pese embora a maior flexibilidade a que assistimos, os preconceitos sociais continuam a ser uma realidade. As crianças filhas de pais homossexuais podem ser alvo de curiosidade por parte dos colegas da escola e de comentários menos simpáticos. Observações essas que, muitas vezes, decorrem daquilo que os pais transmitem, dos livros que lêem, dos programas de televisão que vêem.

 

Estas crianças são mais vulneráveis a preconceitos sociais?

Elas vivem uma realidade que é diferente da maioria, pelo que existe uma maior vulnerabilidade aos preconceitos. Muitas vezes, os filhos de pais homossexuais vivem com um sentimento de vergonha que decorre da noção de que podem ser vistos por outras pessoas de uma forma menos tolerante e aceitante.

 

É uma situação que tenha encontrado na sua prática clínica?

Algumas destas crianças ou adolescentes partilham sentimentos de estigmatização, em consulta. Sentimentos associados a uma realidade social homofóbica e discriminatória. Mas parecem encontrar recursos para lidar com essa realidade.

 

É algo que possa, de alguma forma, comprometer o seu desenvolvimento?

Não. Os estudos são consensuais: não há diferenças ao nível do desenvolvimento entre crianças inseridas em famílias homoparentais e aquelas que vivem com progenitores de sexos diferentes.

 

 

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