Este País não é para velhos?

Os portugueses são dos europeus que vivem menos tempo com saúde até à idade que podem esperar viver – 78 anos para os homens e 83 para as mulheres. Depois dos 65, em média, só gozamos de sete anos com autonomia e funcionalidade. Quase metade dos anos com qualidade dos espanhóis e muito menos do que os 16 dos suecos. Embora a nossa esperança média de vida já se equipare à dos países mais desenvolvidos da Europa, os dados do Eurostat sugerem que Portugal precisa de dar um salto qualitativo nas condições de vida da sua população mais envelhecida. Paula Santana, geógrafa e Professora Catedrática na Universidade de Coimbra, confirma que os locais e os contextos de vida são determinantes para a forma como se envelhece. No entanto, a especialista em geografia da saúde e planeamento urbano saudável, acredita que é possível desenvolver uma sociedade para todas as idades.

Filipa Basílio da Silva

Entrevista com a geógrafa Paula Santana Professora Catedrática da Universidade de Coimbra e coordenadora científica do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

Se a população usufruir de espaços públicos seguros, inclusivos, caminháveis, sentindo que faz parte de uma comunidade, envelhece melhor e, potencialmente, viverá mais anos com mais saúde e felicidade.

 

“A idade é só um número?” Não perca o próximo Fronteiras XXI, dia 23 de Outubro às 22h30, na RTP3

 


 

A geografia influencia o nível de bem-estar da população, à medida que envelhece?

Os locais e os contextos de vida dos indivíduos – onde se nasce, vive, trabalha –, têm um grande impacto no envelhecimento. Conseguiu-se aumentar a longevidade, agora pretende-se associar-lhe mais qualidade de vida, com mais saúde, mais independência e menos incapacidades. Para isso é necessário desenhar estratégias de intervenção, muitas delas ao nível do território.

 

Que soluções poderiam ser adoptadas, em Portugal?

Os governos centrais devem criar condições para que todos os contextos, urbanos e rurais, proporcionem qualidade de vida aos cidadãos de todas as idades. Através de níveis salariais adequados, transportes públicos adaptados, acesso a cuidados preventivos e de promoção da saúde, espaços para praticar exercício físico e oportunidades de interacção social.

 

Ou seja, devemos preparar o envelhecimento antes da idade da reforma?

Sim, muito antes de se chegar à idade de reforma. Não podemos olhar só para os indivíduos que têm mais de 60 anos. O processo de envelhecimento acompanha as pessoas desde que nascem, mas decorre de forma diferente consoante os contextos de vida. Se alterarmos alguns deles, possivelmente produzirá efeitos positivos no envelhecimento.

 

Envelhece-se de maneira diferente consoante os meios sejam urbanos ou rurais?

Sim. Ambos apresentam oportunidades e constrangimentos. Em territórios rurais, a interacção e a interajuda social é forte, porque há uma maior proximidade aos familiares e vizinhos. Contudo, as populações rurais estão mais afastadas dos bens e serviços. Já a população urbana, que tem mais acesso a bens e serviços, encontra outras barreiras que condicionam a sua vivência na cidade. Por exemplo, casas sem elevador, espaços públicos inseguros e vandalizados, tráfego muito intenso, muito ruído, falta de transportes públicos adequados.

 

Como é que se desenvolve uma sociedade para todas as idades?

Se a população usufruir de espaços públicos seguros, inclusivos, caminháveis, sentindo que faz parte de uma comunidade, envelhece melhor e, potencialmente, viverá mais anos com mais saúde e felicidade. Porque esse percurso é feito ao longo da vida. Agora, aquilo que verificamos é que a maioria das pessoas, quando chega à idade da reforma, não utiliza os espaços públicos porque nunca teve qualquer ligação a eles, ao longo da vida.

 

O que podemos esperar se não forem tomadas medidas concretas para melhorar a situação?

Se não houver uma estratégia política neste sentido, as pessoas continuarão a viver mais anos com um declínio funcional e cognitivo acentuado. Depois dos 70 anos, as condições de saúde tendem a degradar-se a cada ano, os rendimentos a diminuir, as despesas a aumentar – individuais e dos Estados. A consequência disto é uma maior pressão sobre os sistemas de apoio, formais e informais.

 

É possível não sobrecarregar as respostas sociais?

Há um caminho a fazer. Mas isso significa preparar os territórios, as comunidades, as instituições e as pessoas para que envelheçam com maior qualidade de vida. Talvez, mais importante do que dizer a uma pessoa com 70 anos que deve andar a pé 30 minutos por dia é que as de 30 e 40 anos também o façam.

 

Como é que passamos de um cenário reactivo a um preventivo?

É crucial informar as políticas públicas, identificando grupos de maior vulnerabilidade com vista uma redução de riscos e de custos. Por exemplo, a prevalência das demências e da doença de Alzheimer tem aumentado. Além de estarem associadas à maior longevidade, são patologias que afectam maioritariamente pessoas de grupos sociais mais desfavorecidos. É preciso melhorar as condições sociais (acesso à educação), económicas (aumentar rendimentos) e ambientais dos territórios (diminuir poluição e ruído, por exemplo). Outro aspecto importante a ser trabalhado é a participação social.  

 

Pode haver benefícios se a idade activa for prolongada?

Se as pessoas considerarem que isso é benéfico para si e puderem optar. Uma ocupação profissional promove a autonomia. A participação social pode acontecer estando os sujeitos integrados no mercado de trabalho ou fora dele. Não vale a pena dizer às pessoas que podem continuar a trabalhar se elas não se sentirem incluídas.

 

Que questões podem levar as pessoas a participar mais?

A população pode reivindicar melhores acessibilidades e mobilidade. É preciso acabar com os buracos nas ruas e nos passeios, tornar o piso dos espaços públicos mais amigo dos utilizadores, aumentar o número de zonas de convívio intergeracional. Também é importante incentivar os espaços públicos que resultam da co-criação, mais inclusivos e adequados às necessidades dos utilizadores, porque são criados ouvindo as pessoas que os vão usar.

 

O aumento da escolaridade pode melhorar a qualidade de vida na velhice?

É uma realidade que as pessoas com mais escolaridade vivem mais. Não sei é se a esperança de vida aumente proporcionalmente ao que seria esperado para o factor educação. Enquanto que o consumo de tabaco diminuiu nos homens, nas mulheres aumentou. As senhoras que hoje têm 80 ou 90 anos não tiveram esses hábitos de consumos.

 

Há países que possam servir de modelo no que toca ao envelhecimento?

É difícil replicar modelos, porque temos condições culturais, climáticas, ambientais, em geral, muito diferentes. Mas Espanha é uma realidade que nos está mais próxima e onde, genericamente, as populações vivem mais anos com menos incapacidade. Porque têm um espaço público agradável, utilizam-no e têm interacções sociais frequentes. Ainda assim, se houver vontade política, não é muito difícil transformarmos as nossas cidades e espaços rurais para proporcionar melhores condições de vida.

 

O envelhecimento faz parte do nosso planeamento político?

Tanto quanto sei, faz. O Plano de Mobilidade de Lisboa é um bom exemplo. Já foi implementado em algumas áreas da cidade e hoje vemos pessoas de todas as idades a utilizarem muito mais o espaço público. Mas o planeamento ocorre mais ao nível de cuidados de saúde, pouco na mobilização da sociedade civil para uma participação social mais activa e interventiva e pouco na oferta de condições para que as pessoas se sintam mais incluídas. Porque elas são tanto mais valiosas quanto mais autónomas e independentes forem. E, para que tenham um desenvolvimento cognitivo mais dilatado no tempo, temos de promover a coesão social e recuperar a vida em comunidade – com jardins e habitações comunitários e cuidadores informais Se houver qualidade de vida em todas as idades, isso reflecte-se na forma como se envelhece e se morre.

 

 

“A idade é só um número?” Não perca o próximo Fronteiras XXI, dia 23 de Outubro às 22h30, na RTP3