As alterações climáticas e as pessoas

Luísa Schmidt Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, coordenadora do Observa – Observatório do Ambiente, Território e Sociedade

O impacto das alterações climáticas faz-se sentir de forma transversal a todas as escalas da vida das pessoas (...) Esse mal-estar estende-se facilmente a emoções mais profundas e perturbadoras: uma paisagem devastada de onde desapareceram as plantas, as árvores e os animais familiares; um litoral arruinado, sem aquela nossa praia de sempre, e cuja nova figura não tem qualquer registo nas memórias individuais. Esta sensação de perda das paisagens chega a criar uma figura de nostalgia que já tem nome: ‘solastalgia’.

«Reféns do clima» é o tema do debate Fronteiras XXI de dia 11 de Abril na RTP3.

 

O impacto das alterações climáticas faz-se sentir de forma transversal a todas as escalas da vida das pessoas e das sociedades. A sua dinâmica progride em espiral e o progressivo reconhecimento das afectações que produz vai criando sensações de insegurança que progridem em espiral também.

 

Comecemos pelas pessoas e pelo mal-estar individual causado pelas ondas de calor e/ou de frio, pelo desacerto das estações do ano, pelo desconforto e pelos perigos que as pessoas pressentem face ao descontrolo do tempo que faz e aos chamados eventos climáticos extremos: tornados que nunca se viram antes, cheias repentinas, secas duradouras, calores incendiários…

Esse mal-estar estende-se facilmente a emoções mais profundas e perturbadoras: uma paisagem devastada de onde desapareceram as plantas, as árvores e os animais familiares; um litoral arruinado, sem aquela nossa praia de sempre, e cuja nova figura não tem qualquer registo nas memórias individuais. Esta sensação de perda das paisagens chega a criar uma figura de nostalgia que já tem nome: ‘solastalgia’.

Depois, num instante, os impactos das alterações climáticas fazem-se sentir indirectamente por cadeias mais vastas que se projectam na economia. Produtos de estação que já não existem na época própria do ano; produtos que já não se conseguem produzir e que se tornaram por isso muito mais caros; produtos que se arriscam a tornar-se de luxo nalguns lugares, como começa a ser o caso do mel; e outros mais exóticos, como o cacau. Depois vêm as despesas com que não se contava e que se tornam imperativas: isolamentos nos prédios, vidros duplos, aquecimento, refrigeração, ensombramentos, deterioração de materiais de construção dantes estáveis e mais duradouros.

Depressa estas transformações podem resultar em rupturas de serviços básicos. A seca extrema chegou às torneiras domésticas na Cidade do Cabo, na Califórnia, em Barcelona…

Mais assustador ainda, alguns vectores que transmitem doenças bem graves começam a dar-se bem nos lugares onde passamos férias ou até onde vivemos actualmente. O dengue já atacou na Madeira e o zika já cá chegou…

Mas não só de incómodos e de sustos se faz a interferência das alterações climáticas na nossa vida comum. Ela pode ficar mesmo inviável e ser preciso fugir. Os migrantes climáticos são populações humanas cada vez mais numerosas cujos territórios deixaram de oferecer quaisquer condições de sobrevivência, como acontece no caso das secas extremas em determinadas regiões de África, ou quando os territórios submergiram mesmo, como no caso de vastas zonas do Bangladesh e ilhas do Pacífico. Ou desapareceram com o degelo como no caso de algumas comunidades polares. De resto, nós próprios, de receptores de emigrantes climáticos, poderemos tornar-nos também produtores de migrações climáticas. Basta pensar nos lugares do país que, pela seca e desertificação, deixarão de poder sustentar populações, ou em certas zonas costeiras onde a população se apinhou em Portugal e de onde alguns terão que recuar para outras paragens.

Perante a progressão desta espiral de inseguranças causadas pelos impactos e consequências das alterações climáticas, algumas coisas têm inevitavelmente de ser feitas. Primeiro, alertar, conhecer, informar. Não escapar a pensar, a reconhecer e enfrentar o problema das alterações climáticas. Segundo, criar uma nova educação de parcimónia no consumo, de partilha e de equilíbrio: equilíbrio entre o homem e os recursos da natureza e equilíbrio entre os seres humanos na sua diversidade.  Terceiro, mobilizar para a participação cívica aproveitando a democracia como um valor para construir as respostas necessárias e a tempo, em vez de deixarmos que as urgências depois nos imponham respostas mal pensadas. Quarto, exigir o planeamento de políticas preventivas já e a todos os níveis: desde a floresta ao litoral, das bacias hidrográficas ao ordenamento urbanístico, da agricultura aos recursos energéticos, da saúde pública às medidas de protecção civil… Tudo será chamado a preparar as mudanças que o impacto das alterações climáticas inevitavelmente nos irá trazer.

 

«Reféns do clima» é o tema do debate Fronteiras XXI de dia 11 de Abril na RTP3.