Entrevista

O desafio grisalho: para ti, para mim, para nós

Cerca de 35% da população portuguesa terá 65 e mais anos em 2050, segundo projecções das Nações Unidas. Hoje, esse grupo demográfico já representa 22% do total. Embora estes dados sejam indicativos de algum desenvolvimento, o crescente envelhecimento populacional coloca uma série de desafios socioeconómicos aos países. Luísa Pimentel, socióloga formada em Serviço Social e professora na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, diz que Portugal tem feito um caminho positivo na criação de mais apoios sociais. Mas que ainda há muito a fazer para melhorar a qualidade de vida dos seniores.

Filipa Basílio da Silva

Entrevista com Luísa Pimentel, socióloga Coordenadora do programa IPL 60+, professora na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, doutorada em Sociologia da Família e licenciada em Serviço Social

Portugal é dos países onde os avós mais cuidam dos netos, e eles e os filhos querem continuar a estar envolvidos na vida dos seus idosos. Quer seja com cuidados diários quer seja com uma presença regular importante do ponto de vista emocional, expressivo, afectivo. Culturalmente, as relações familiares são bastante valorizadas.

 

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Dentro de 30 anos, seremos o terceiro país do mundo com mais pessoas acima dos 65 anos. Estamos preparados para lidar com essa situação?

O número de instituições e de apoios sociais cresceu. A questão é que também aumentou o número de indivíduos a precisar dessas ajudas. A aposta na área tem sido feita, simplesmente não acompanha as necessidades. Têm surgido desde iniciativas para pessoas que precisam de acompanhamento regular ou de cuidados continuados, até projectos dedicados aos indivíduos que ainda são independentes e que precisam de ter objectivos de vida além da dedicação à família. O País tem muitos idosos autónomos, que cuidam dos netos, dos seus pais ainda mais envelhecidos e fazem tarefas domésticas para ajudar os filhos. São apoios extraordinários de extrema importância. Muitas dessas pessoas querem continuar a ter uma vida activa e intelectualmente estimulante fora do contexto familiar. Cada vez mais reformados procuram programas de formação ao longo da vida.

 

Para se valorizarem ou para atrasar a perda de funções cognitivas?

Ambos os motivos são factores que pesam bastante. É muito importante as pessoas sentirem que são valiosas para a sociedade e que ainda podem evoluir do ponto de vista de crescimento pessoal. E os indivíduos que procuram continuar a aprender percebem que quanto mais estiverem envolvidos em actividades variadas, mais tardiamente desenvolvem fragilidades mentais e demências. Neste sentido, os programas de formação ao longo da vida cumprem uma função importante de estimulação física e intelectual e de convívio social. Os conteúdos leccionados também procuram ser úteis para o quotidiano dos idosos, ajudando-os a lidar com desafios como as tecnologias e as línguas estrangeiras – para poderem viajar e comunicar mais facilmente noutros países.

 

Como funciona o programa que a professora coordena no Politécnico de Leiria?

O projecto chama-se IPL 60+ e dá acesso ao ensino superior a pessoas com mais de 50 anos em situação de pré-reforma ou reforma. Distingue-se dos restantes programas de formação ao longo da vida na medida em que promove o contacto intergeracional. Os estudantes seniores têm de escolher pelo menos uma unidade curricular de licenciatura, da área científica do seu interesse, e frequentar as aulas com os jovens e eventualmente fazer trabalhos de grupo com eles. Alguns seniores até acolhem jovens nas suas casas, especialmente estrangeiros ou oriundos de outras regiões de Portugal. Também fazem actividades extracurriculares, como a oficina de artes plásticas e o coro chamado “A Sessentuna”, que são dinamizadas pelos próprios estudantes seniores.

 

O acesso ao IPL 60+ é gratuito?

Não. O montante que a pessoa paga é definido em função do número de unidades curriculares que seleccionar. Se apenas se inscrever numa unidade curricular de licenciatura, paga 25 euros por semestre. Acreditamos que as taxas não impedem a grande maioria dos interessados de frequentarem o programa, mas claro que haverá alguns indivíduos que não têm condições para o fazer.

 

Qual é o perfil dos alunos seniores?

Somos procurados sobretudo por pessoas na faixa etária dos 60 aos 70 anos e residentes urbanos com alguma disponibilidade financeira. Alguns têm fragilidades funcionais, mas são eles que vêm até nós. Não dispomos de um veículo que vá buscar as pessoas a casa. Todos os semestres temos 90 a 100 pessoas inscritas, algumas das quais estão connosco há oito anos e não querem sair. Entre 30 a 40% são licenciados, 60% ou mais têm o ensino básico ou o secundário. Alguns sempre tiveram o sonho de frequentar o ensino superior, e este programa dá-lhes essa oportunidade. Mas a maioria não quer ser avaliada.

 

Temos respostas sociais suficientes para os idosos mais dependentes, em Portugal?

Se pensarmos naquilo que existia há 50 anos, a evolução foi muito significativa. Desde a qualidade material das infra-estruturas físicas, organização e à fiscalização. Isto veio obrigar as instituições sociais a adaptarem-se a regras de higiene e segurança, como a quantidade de espaço por pessoa. Alguns lares antigos funcionavam em camarata, com várias camas por sala. Cada indivíduo tinha a sua cama e uma pequenina mesinha de cabeceira. Por vezes, vestiam a roupa uns dos outros – nada era individualizado. Claro que ainda há serviços e infra-estruturas de péssima qualidade. Em muitas instituições, o tempo dedicado a cada pessoa é escasso – tem de se fazer a higiene e as refeições rapidamente. Isto não é cuidar bem. Os idosos precisam de tempo para realizar as tarefas.

 

Os profissionais que trabalham no ramo têm formação adequada?

Continua a haver falhas. Sobretudo, porque há uma desvalorização dos cuidadores. É fundamental dignificar esta profissão. Trabalhar com idosos é mais exigente e desgastante do ponto de vista psicológico e emocional do que trabalhar numa linha de montagem, e os salários são semelhantes. Os cuidadores lidam diariamente com feridas, corpos a definhar, indivíduos a perderem a suas competências intelectuais, que gritam o dia todo. Fazem-lhes a higiene pessoal, alimentam-nos e conversam com eles. Quem recebe cuidados, precisa de profissionais capazes, com competência técnica, e humanos, com sensibilidade e simpatia.

 

Como é que o papel do cuidador poderia ser mais valorizado?

Começando pelos dirigentes das instituições sociais, que nem sempre estão sensibilizados para as necessidades dos mais velhos ou dos cuidadores. Muitos não reconhecem o esforço das auxiliares de acção directa e pensam que qualquer pessoa consegue fazer este trabalho. Não podem estar mais enganados.

 

São essencialmente mulheres a prestarem este serviço?

Sim, as mulheres são os principais cuidadores quer no contexto familiar quer nas instituições sociais. A questão de género é um factor importante para a desvalorização tanto da profissão como dos cuidadores familiares. O facto de serem essencialmente homens a dirigir as instituições de apoio social tem impacto.

 

Os cuidadores tendem a ficar na mesma instituição durante algum tempo?

É relativamente comum as funcionárias saírem quando termina o seu contrato. Frequentemente, as pessoas são recrutadas através dos centros de emprego, trabalham por um período curto nas instituições e depois querem sair. Não aguentam, face ao salário baixo, às exigências que lhes são colocadas, à dificuldade das tarefas que têm de realizar, face a uma eventual falta de preparação para executá-las. A maior parte das pessoas não está preparada para lidar com pessoas moribundas, nem com a morte. É preciso resistência psicológica. Tem de haver mais cuidado na selecção, na formação e no acompanhamento (psicológico e emocional) destes profissionais. Esta ocupação tem de ser valorizada em vários domínios: financeiro, respeito pelas folgas, dar espaço para os cuidadores falarem dos seus receios e angústias sem medo de serem penalizados por isso, agradecer o trabalho que fazem. Se não o reconhecermos como valioso, não podemos esperar entrega e empenho.

 

É verdade que antigamente as famílias cuidavam mais dos seus idosos do que agora?

Há 60 anos, muitas famílias trabalhavam na agricultura e alguns idosos ficavam em casa sozinhos, o dia inteiro. Além disso, a exigência de cuidados que se colocava na época não era comparável à de hoje e as pessoas eram cuidadas durante muito menos tempo. Agora, a vigilância é maior, detectamos as situações de maus-tratos, negligência e violência. Os vizinhos estão alerta para o bem e para o mal.

 

Todos os anos aparecem nas notícias situações de abandono. São assim tão frequentes?

É importante dar-lhes visibilidade e é fundamental agir nestes casos. Mas os meios de comunicação social empolam uma realidade que, embora exista, não é a dominante. Há famílias que são negligentes e que são violentas. Mas não é justo para as famílias que cuidam bem e vivem dedicadas aos seus idosos, que passam anos e anos a abdicar de inúmeras coisas e a fazer sacrifícios. Devemos dar visibilidade à diversidade de situações.

 

Sabe-se quantas pessoas idosas recebem cuidados dos seus familiares?

Não há uma base de dados. É uma realidade bastante invisível. O meu projecto de doutoramento foi sobre os cuidadores informais e encontrei muitas famílias cuidadoras, porque perguntei e deu-se um efeito de bola de neve. E aquilo que verifiquei no meu estudo é que, em Portugal, a maioria dos idosos é cuidada em contexto familiar.

 

Como é que as famílias cuidam dos idosos?

Cada uma organiza-se consoante as necessidades dos seus idosos e os recursos que tem ao seu dispor. Muitas recorrem a respostas sociais que complementem o seu papel – centros de dia e apoios domiciliários –, e as que podem contratam empregadas domésticas ou enfermeiros para cuidarem dos seus idosos durante algumas horas em casa.

 

Os cuidados informais são uma resposta à pouca oferta de infra-estruturas, sinal de incapacidade financeira para suportar esses custos ou uma questão cultural?

Todos esses factores ajudam a explicar a realidade no nosso País. Há um número insuficiente de instituições sociais, sobretudo que prestem serviços de qualidade. As longas listas de espera nas que praticam preços mais acessíveis também contribui para que muitas famílias, sem alternativa, mantenham os seus idosos em casa – com muito esforço.

Por outro lado, culturalmente, as relações familiares são bastante valorizadas. Eu diria até que os afectos dominam nesta área. Portugal é dos países onde os avós mais cuidam dos netos, e eles e os filhos querem continuar a estar envolvidos na vida dos seus idosos. Temos filhos muito presentes, quer seja com cuidados diários quer seja com uma presença regular importante do ponto de vista emocional, expressivo, afectivo. Cuidadores não são só aqueles que desistem do trabalho para dar acompanhamento 24 horas por dia aos seus idosos. Cuidar também é delegar tarefas quotidianas num profissional, supervisionando o seu trabalho e estando vigilante para garantir que a pessoa idosa está a ser bem cuidada.

 

 

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