Artigo

Qual a imagem que o mundo tem hoje de Portugal?

Catarina Guerreiro jornalista e editora-executiva da revista «Visão»

«A imagem mudou muito», conclui Rosa Teixeira, que emigrou para França em 1966, na época da enorme vaga de emigração que encheu os bairros de lata franceses. «Hoje somos um país visto de forma diferente.»

Veja o Fronteiras XXI “Portugal no Mundo”, dia 29 de Setembro, às 22h, na RTP3

 

Durante anos visto lá fora como pobre e velho, o país sofreu mudanças que lhe deram um ar de modernidade, apesar de ainda continuar com uma fragilidade resultante da dívida que persiste, acredita Francisco Seixas da Costa, que, como embaixador, passou por vários locais no mundo. Sete portugueses que vivem fora contam o que é que as pessoas que os rodeiam pensam de Portugal.

Quando há 10 anos esteve num ciclo de conferências na Assembleia da República, em Lisboa, em que se abordava a imagem de Portugal no mundo, Francisco Seixas da Costa não teve dúvidas em considerar que o país era visto como «pobre e velho». Algo se alterou desde então, diz. «A ideia de velho mudou com a abertura ao turismo e com a ida para o exterior de portugueses altamente qualificados», afirma o embaixador que passou, entre outros postos, pelas Nações Unidas, em Nova Iorque, pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, em Viena, e pelas embaixadas do Brasil e França. Para o diplomata, já reformado, que é orador do próximo Fronteiras XXI, Portugal «tornou-se mais moderno e cosmopolita».

Apesar da melhoria, há um importante dado que ainda afecta a imagem do País e o leva a ser olhado, do exterior, como «frágil». «A dívida faz parte do comportamento de Portugal e isso condiciona tudo», defende, explicando que interfere na opinião do mundo em relação a nós.  No entanto, acredita, a nível internacional os portugueses são «considerados sérios e de confiança».  «Somos um país de palavra».

A fragilidade económica, a dívida e a falta de recursos próprios levam a que se esteja dependente de momentos que alteram a percepção exterior. «Passamos da euforia da Expo 98 para a tragédia da Troika».  Mas, pelo meio, assegura sempre fomos considerados um «País suave, sem violência», que até a revolução de 1974 «fez sem sangue».

Seja como for, admite, hoje, Portugal, é visto de melhor forma. «Após a independência do Brasil, o país entrou em declínio e depois passou a ser visto como sendo tutelado pela Inglaterra, o que só se alterou com a adesão à União Europeia». Entretanto, mudou de aliados, diz, tornou-se mais cosmopolita, e a emigração mostrou-se diferente daquela que nos anos 60 e 70 encheu os bairros de lata nos arredores de Paris. «Hoje emigram muitos enfermeiros e os relatos sobre eles são extraordinários», explica, sublinhando que também o Erasmus ajudou a trazer gente mais novas às cidades e o turismo fez o mundo conhecer melhor Portugal.

É exactamente o turismo que, segundo muitos dos vivem hoje no estrangeiro, foi uma das armas dessa transformação. «As pessoas perceberam que não somos uma aldeia», diz Margarida Ivens Ferraz, 32 anos, digital merchandising no site de luxo Mytheresa, em Munique.  Já a portuguesa Constança Medeiros Esteves, professora na UCLA, nos EUA, considera que a vinda de personalidades internacionais tem dado notoriedade ao país, enquanto Catarina Portelo, que integra o Banco Mundial e passou por vários países, recorda o peso dos Vistos Gold no aumento do interesse. Para Ricardo Borges de Castro, que vive em Bruxelas e trabalhou no gabinete de Durão Barroso quando este era presidente da Comissão Europeia, outro factor decisivo tem sido a colocação de portugueses em lugares de destaque internacional, por ser uma fonte de prestígio. Também os enfermeiros, uma das classes que mais emigrantes tem produzido nos últimos anos, são bem vistos pela sua eficácia e simpatia, conta Hugo Novo, que está a trabalhar num hospital dos Emiratos Árabes Unidos como enfermeiro de bloco operatório.

«A imagem mudou muito», conclui Rosa Teixeira, que emigrou para França em 1966, na época da enorme vaga de emigração que encheu os bairros de lata franceses. «Hoje somos um país visto de forma diferente.»

Apesar disso, há ainda o problema da nossa fragilidade económica. Como nota Pedro Serrano, um engenheiro civil que trabalha na Holanda, «a intervenção do FMI deteriorou a imagem» portuguesa. Agora, diz, «talvez esteja um pouco melhor».   Estes sete portugueses que estão a viver em várias zonas do mundo relatam o que pensam sobre Portugal aqueles quem os rodeiam lá fora.

 

«Todos me dizem que Portugal é lindo»

Margaret Ivens Ferraz, 32 anos, digital merchandising no site de luxo Mytheresa, Alemanha.

Depois de ter trabalhado três anos e meio na famosa e luxuosa marca Gucci, em Milão, Margaret Ivens Ferraz, 32 anos, aventurou-se e mudou para Munique, na Alemanha, onde integra agora a equipa de digital merchandising no conhecido site de luxo Mytheresa.  Vive no meio de estrangeiros e garante que cada vez mais nota que as pessoas já conheceram ou querem conhecer Portugal. «Todos me dizem que é lindo», conta, explicando que, segundo se tem apercebido nesta sua estadia além fronteiras, o turismo está a permitir criar uma nova imagem de Portugal e dos portugueses. «As pessoas percebem que não somos uma aldeia ali no canto. E dizem-me que descobrem, em Lisboa, por exemplo, uma ‘cidade com autenticidade e muito cool’».  Em 2019, antes de começar a pandemia, e segundo dados oficiais, foram batidos todos os recordes de turismo: circularam 27 milhões de turistas, dos quais 16, 3 milhões eram estrangeiros. A beleza do País é apontada como um dos pontos positivos de quem nos vista, de acordo com um estudo sobre a imagem e reputação de Portugal, realizado pela consultora OnStrategy e apresentado há dois meses. Mas se a beleza, o estilo de vida, o ambiente social e ainda os valores, cultura e tradição são os factores que mais agradam aos estrangeiros, há pontos ainda muito negativos.

Este mesmo estudo revela que, apesar da evolução da imagem, ainda há um caminho a percorrer: no que diz respeito à relevância internacional, à comunicação e divulgação fora do país, à inovação e diferenciação são tudo factores analisados de forma negativa pelo exterior. E, dentro destes, os que têm pior opinião, são os investidores – já quem visita o país em turismo dá uma melhor nota. «Todos com quem falo elogiam a comida e a simpatia das pessoas», frisa Margaret, acrescentando que, entre os que circulam no seu meio profissional ou pessoal, chegam muitas vezes relatos de quem escolha Portugal por causa do surf – um desporto que nos últimos anos tem contribuído para divulgar o País. Aliás, a maior onda surfável do mundo é na Nazaré, e na Ericeira existe uma das raras reservas mundiais de surf.  Por tudo, Portugal recebeu, em 2019, e pelo terceiro ano consecutivo, o prémio de melhor destino do mundo, nos «World Travel Awards (WTA)», em Omã.

Margaret decidiu emigrar por achar que não tinha as mesmas oportunidades no mundo da moda, em que sempre sonhou trabalhar. Depois de acabar o curso de Gestão na Universidade Nova, em Lisboa, e de ter passado pela L´Oreal, entrou na JLL, que a colocou em Milão, onde fez um mestrado na Universidade Boconni, e acabaria por conseguir um lugar na Gucci. «Mas é tudo muito mais rigoroso. Com 27 anos, e anos de trabalho, tive de voltar a ser estagiária», recorda. Como ela, há cada vez mais jovens a irem para fora, o que também acaba por influenciar a percepção que no estrangeiro se tem do país. «A Faculdade Nova está entre as melhores do mundo nos rankings e isso dá também maior visibilidade». Voltar está nos seus planos, mas só daqui a muitos anos.

 

«A vinda de Madonna para Lisboa deu visibilidade»

Constança Medeiros Esteves, 50 anos, Professora na UCLA, Los Angeles.

Vive há 20 anos em Los Angeles, onde neste momento dá aulas de Estatística Avançada na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles). E, apesar de os americanos ainda saberem pouco de Portugal, Constança Medeiros Esteves sentiu uma diferença nos últimos anos.  «Agora, nas aulas, quando falo do meu País, alguns alunos levantam o dedo e dizem que já foram viajar a Portugal ou que vão», diz, acreditando que é o resultado da aposta no turismo e do facto de ter havido muita instabilidade no Médio Oriente e no Norte de África.

«Portugal é um país de baixo crime e isso também ajuda». Num inquérito feito pela Universidade Nova, 98% dos turistas sentem-se em segurança. Além disso, nota Constança Medeiros Esteves, o facto de muitas figuras internacionais terem comprado casa ou vindo viver para Portugal deu um empurrão. «A ida da Madonna para Lisboa deu visibilidade ao Pais», considera. E acrescenta: «A zona de Melides também contribuiu muito para a nova imagem». Isto referindo-se aos muitos nomes internacionais, ligados à moda, ao cinema ou à música que estão a comprar casa naquela zona e que depois surgem nos jornais ou revistas nos EUA e na Europa ou no Instagram.

O criador de moda francês Christian Louboutin comprou há vários anos uma casa em Melides e, depois dele, vários outros têm feito o mesmo. Por outro lado, cada vez há mais figuras internacionais a escolherem esta zona para passar férias. Este ano, além de Barbara Pravi, Jake Shears, M.I.A. e Raudel Raúl, a actriz norte-americana Julianne Moore e o marido, o realizador Bartholomew Freundlich, estiveram na casa do arquitecto belga Vincent Van Duysen, perto da Comporta.  A actriz fez várias publicações nas redes sociais com elogios ao local.  Uma situação que, acredita Constança, pode ajudar o outro lado do Atlântico a saber um pouco mais sobre o país, pois, como explica, os americanos, pelo menos até aos últimos anos, pouco sabiam sobre Portugal. «Muitos associam logo ao Brasil, algo anarquista na organização, mas com pessoas simpáticas», resume a ideia que muitos parecem ter ainda.  A professora da UCLA tirou o curso de gestão no ISCTE, e depois foi tirar um MBA a Stanford, trabalhou na consultora BCG, mas, por ser apaixonada por estatística, tirou o mestrado em Berkeley, no grupo criado por Oliver E. Williamson, vencedor do óscar de Economia em 2009.

No seu percurso, cruzou-se no meio universitário com portugueses em lugares de topo. “Hoje, há muito mais gente a sair de Portugal” e a emigração também mudou, pois começaram a ver-se pessoas com mais habilitações, nota Constança, recordando que a imagem está por isso bem diferente de há 40 anos, quando o seu tio, um cirurgião, foi para EUA, por precisarem de médicos.

 

«A adesão à União Europeia mudou tudo»

Ricardo Borges de Castro, 49 anos, director associado e chefe de programa europeu do Think Tank European Policy Center, Bruxelas.

Quando trabalhava no gabinete de Durão Barroso, então presidente da Comissão Europeia, Ricardo Borges de Castro, 49 anos, ouviu uma informação de um colega que nunca mais esqueceu. “Disse-me que todos os gabinetes dos outros países tinham decidido ter alguém que falasse português, pois apesar de Barroso falar inglês e outras línguas, queriam um colaborador que fosse capaz de perceber o que ele dizia na sua língua-mãe”, recorda, dizendo que isso, naquele momento, lhe mostrou que o prestígio de Portugal iria mudar.

Ricardo, que antes de chegar a Bruxelas, em 2011, tinha estado nos EUA a tirar um mestrado, afirma não ter dúvidas de que, o facto de Durão Barroso ter ocupado um dos mais importantes cargos a nível europeu, ajudou a fortalecer o retrato do país no exterior.  «Acho que mudou a imagem que os belgas tinham de nós», ressalva o português que trabalhou oito anos e meio na UE – depois do gabinete de Barroso, passou para o Think Tank da Comissão Junker, como conselheiro para a prospectiva estratégica.

É actualmente unânime que, ter cada vez mais portugueses em lugares de topo em várias áreas espalhados pelo mundo, tem sido um dos factores a contribuir para a boa impressão sobre o país. Hoje, António Guterres ocupa o cargo de secretário-geral da ONU e Horta Osório, chairman do banco Credit Suisse é um dos banqueiros mais reconhecidos no mundo. O ex-líder do Lloyds Bank foi há três meses condecorado pela Rainha Isabel II, de Inglaterra. Casos que ajudam a mudar o que Ricardo chama de preconceito de muitos em relação ao País. «Não gosto quando dizem que somos do grupo dos países mediterrâneos e insisto sempre que somos atlânticos», alega, explicando que por trás da ideia do Mediterrâneo está um conjunto de cidadãos «mandriões que não trabalham e só se gostam de divertir.»

No que se refere à Bélgica, país onde vive há 20 anos, considera que a mudança na forma como nos vêem, começou logo com a entrada de Portugal na União Europeia, em 1986. «A adesão mudou tudo». Antes disso, lembra, chegavam apenas os emigrantes oriundos de um país em crise. Depois passaram a surgir portugueses com outro nível de qualificação. “Hoje somos vistos como hiper empreendedores”, diz o português que desde há oito meses é director associado e chefe de programa europeu do Think Tank European Policy Center.

 

«Com o Euro 2004, os emigrantes portugueses deram imagem de uma comunidade com orgulho do país»

Rosa Teixeira Ribeiro, 65 anos, ex-funcionária do Consulado-Geral de Portugal em Paris, secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores Consulares das Missões Diplomáticas e dos Serviços Centrais do Ministério dos Negócios Estrangeiros, França.

Em 1966 foi com os pais, ainda criança, para França, e recorda-se bem do fluxo migratório de portugueses que ali começou a chegar, e que acabou por definir uma imagem menos positiva deles e de Portugal. «Os imigrantes eram imensos e havia os ‘bidonvilles’, os bairro da lata onde viviam na periferia. E não era possível ter uma boa opinião de um país em que os cidadãos tinham de sair por questões de pobreza e que iam viver para o estrangeiro naquelas condições».

Foi nessa época que se começou a associar as portuguesas às porteiras. «Elas iam para porteiras ou empregadas domésticas, e eles, homens, para as obras», relata Rosa, sublinhando que, o facto de tantos quererem dar emprego às emigrantes portuguesas, tem um significado importante. «Achavam que os portugueses eram trabalhadores e sérios, pois a porteira entra em nossa casa, fica com as nossas chaves, sabe de toda a nossa vida». É essa mesma realidade que é relatada no filme Gaiola Dourada, de Ruben Alves, que esteve nos cinemas em França – para onde foram os seus próprios pais – tendo-se ela tornado porteira e ele trabalhador nas obras. E a história, nota Rosa, relata como era «visto o português emigrante na época e como se transformou», sendo admirado pela simpatia e capacidade de trabalho.

Hoje, acredita, muitas mulheres portuguesas ainda realizam aquelas tarefas, mas há cada vez mais pessoas qualificadas noutros lugares. A sua filha, a terceira geração da sua família, vive em França, trabalha no sector privado e costuma cruzar-se em reuniões com membros de direcções de empresas com outros filhos de emigrantes. «Muitas têm nomes próprios estrangeiros, mas apelidos portugueses».

Rosa Teixeira passou 49 anos em França, tendo saído em 2015 para ser secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores Consulares, das Missões Diplomáticas e dos Serviços Centrais do MNE, e durante esse período foi assistindo a mudanças na forma como de fora «olham para nós». E frisa que alguns momentos foram essenciais para alterar a ideia de “Portugal ser um país pobre e sem grande perspectiva».

Um deles, diz, foi a Expo 98. «As pessoas que vinham ver a exposição perceberam que afinal o país tinha coisas modernas. Foi uma lufada de ar fresco». Outro episódio que marcou a mudança, na sua opinião, foi o Euro 2004.  «Os portugueses deram a imagem de uma comunidade com orgulho no país e isso é importante, em especial para os franceses, que são muito nacionalistas».  Apesar de tudo, Rosa, garante que sente uma grande «admiração pela capacidade de França ter recebido tantos emigrantes de braços abertos».

 

«Os vistos Gold ajudaram a projectar o país»

Catarina Portelo, 50 anos, Banco Mundial, Buenos Aires.

Passou pelos EUA, Brasil, Peru e agora está na Argentina, em Buenos Aires, e durante muito tempo era comum as pessoas com quem se cruzava não fazerem ideia da existência de Portugal. Catarina Portelo, 50 anos, trabalha no Banco Mundial e ainda se lembra quando esteve nos EUA, a fazer o mestrado, depois de concluir o curso de Direito na Universidade Católica, em Lisboa: «Ninguém conhecia Portugal nem sabiam onde se situava no mapa».

Desde então, diz, o cenário modificou-se: «Houve uma projecção enorme como destino de férias e como local seguro para se viver», afirma, contando que tem recebido pedidos de ajuda de amigos, incluindo do Peru e da Argentina, para saberem mais sobre “os vistos Gold».   «Ajudaram a projectar o país», nota.

Este regime, permite que os investidores e a sua família, mesmo sendo cidadãos de fora da UE, possam viver, trabalhar e estudar em Portugal e dá-lhes ainda a livre circulação no Espaço Schengen da Europa.  Desde que começou Outubro de 2012, já foram investidos 5.876.633.851,08 de euros. Entre os maiores investidores estão os chineses, seguidos dos brasileiros – tendo muitos vindo residir para o país por causa da insegurança no Brasil -, turcos e ainda cidadãos da África do sul e da Rússia.

Catarina Portelo trabalha desde 2005 no Banco Mundial, onde há outros portugueses, alguns em cargos relevantes. «São vistos como sérios, bons profissionais e educados». Catarina, que trabalha na área jurídica dos projectos daquele organismo, gostava de um dia regressar, com o marido, um brasileiro com quem entretanto se casou e teve dois filhos. Aí regressaria, como diz, a um país que é hoje é visto como tendo algum sucesso. «Temos o Ronaldo».

 

«A imagem degradou-se com a intervenção do FMI»

Pedro Serrano, 49 anos, engenheiro civil numa multinacional holandesa.

Estava num almoço com vários holandeses quando um deles disparou um ataque. «Claramente, para eu ouvir, disse em voz alta: ‘Enquanto continuarmos a dar dinheiro aos países do Sul e eles não derem de volta, a União Europeia não tem pernas para andar’». Pedro Serrano, 49 anos, percebeu que a frase o tinha como destinatário, mas não quis estragar o dia, e deixou passar.  Há oito anos, quando chegou a Haia, na Holanda, sentiu, desde logo, que o que pensam sobre o seu país já tinha tido melhores dias. «A imagem que eles têm degradou-se muito com a intervenção do FMI», constata, explicando que nas várias conversas que foi tendo e ouvindo estava sempre a ideia de que «Portugal vivia acima das capacidades». Apesar de não concordar e de reparar que nos últimos tempos essa opinião pode ter-se esbatido um pouco, Pedro confessa que Portugal ainda continua a ser visto como um país pobre.  «Pobre, mas com gente simpática e um destino turístico espectacular», acrescenta. Outro dado que o engenheiro conseguiu captar foi a de que «até reconhecem a importância que Portugal teve no passado». «Percebem a dimensão histórica e atribuem a nossa decadência à corrupção».

 

«Disse-me que os enfermeiros portugueses sorriem mais»

Hugo Santos, 39 anos, enfermeiro nos Emiratos Árabes Unidos.

A trabalhar numa unidade de saúde nos Emiratos Árabes Unidos, o enfermeiro Hugo Santos guarda com satisfação um desabafo recente de um doente: «Disse-me que os enfermeiros portugueses sorriam mais e interagiam mais com ele», recorda, explicando que essa «capacidade de fazerem os pacientes sentirem-se confortáveis é uma marca dos profissionais de saúde portugueses». Além disso, são também apreciados pelos colegas. «Conseguimos ajustar-nos depressa a novos ambientes e culturas», refere Hugo, que é enfermeiro de bloco operatório.

Esta é uma das classes profissionais que mais tem emigrado nos últimos tempos e que ajuda a criar uma boa opinião do país no exterior. «Aqui em Abu Dhabi existe uma grande comunidade de portugueses», explica, referindo-se aos enfermeiros que estão agora a emigrar para aquele país. É que, mesmo em pandemia, continuaram a sair.  «Em 2020 formaram-se 2.700 e 1.230 saíram», contabiliza Ana Rita Cavaco, bastonária dos Enfermeiros, acrescentando que o ‘boom’ se deu em 2019, quando emigraram mais de 4 mil enfermeiros (60% a mais do que em 2018). «Temos uma formação mais completa, o que nos permite fazer tudo. Noutros países essa formação é redutora. Por isso os enfermeiros portugueses são tão apetecíveis», avalia.

Quando Hugo acabou o curso, em Fevereiro de 2009, decidiu emigrar e foi para o Reino Unido, onde esteve vários anos. Em 2016, decidiu mudar porque as condições eram ainda melhores: «A imagem de Portugal é diferente nos dois sítios. No Reino Unido conhecem-nos bem, já aqui, onde estou, os locais só agora estão a descobrir Portugal. Antes só sabiam de futebol, em especial do Ronaldo. Agora há um maior interesse em descobrir Portugal».

 

 

Veja o Fronteiras XXI “Portugal no Mundo”, dia 29 de Setembro, às 22h, na RTP3