Os refugiados e a ignorância europeia

A opinião de Richard Zimler Escritor e professor universitário

Na perspectiva da Merkel e de outros políticos conservadores da Europa, o multiculturalismo tem sido um fracasso. Porém, a verdadeira razão que os leva a defender essa opinião é porque não querem pôr em causa a ilusão da homogeneidade e não querem adoptar medidas capazes de integrar os novos refugiados nas suas sociedades de uma forma eficiente e justa.

«Migrações: problema ou solução?» foi o tema do Fronteiras XXI  de 17 de Maio de 2017 na RTP3.
Em 2010, no âmbito de um encontro político em Potsdam, no sul de Berlim, Angela Merkel disse o seguinte: “Esta abordagem multicultural, de apenas viver lado a lado e ser feliz uns com os outros – esta abordagem fracassou completamente”.
Esta perspectiva da chanceler alemã evidencia uma ignorância abismal da história do seu país e da Europa, pois segundo todos os estudos genéticos, linguísticos e arqueológicos realizados ao longo dos últimos 50 anos, essa região do mundo tem vivido um cruzamento de povos e etnias desde há pelo menos 5.000 anos, quando os indo-europeus da Ásia entraram em todos os territórios que hoje constituem os países europeus. Ainda por cima, durante longos períodos da história esses diferentes povos viveram entre si em paz.
A própria nação que Merkel lidera, a Alemanha, é uma construção recente (1871), e quando nos referimos aos alemães, estamos, de facto, a referir–nos não a um povo uniforme, mas a uma conglomeração de várias etnias. Os alemães actuais têm uma herança genética e cultural dos celtas, romanos, visigodos, ostrogodos, suevos, judeus e muitos outros povos. Do ponto de vista cultural e religioso, por exemplo, a Alemanha ainda hoje está dividida entre diferentes ramos da religião cristã, protestantismo (56% da população) e catolicismo (29% da população). A multiculturalidade na Alemanha nem é uma experiência recente, nem é um fracasso, é a sua tradição milenar e a sua única realidade. Não existe uma Alemanha que não seja multicultural!
Nos últimos anos, tenho pensado muito nos ataques ao multiculturalismo na Europa por duas razões: 1) O meu mais recente romance, O Evangelho Segundo Lázaro, explora a diversidade étnica e linguística na Terra Santa de há 2000 anos, quando lá viviam comunidades de Romanos, Judeus, Gregos, Fenícios, Nabateus e muitos outros povos. 2) Tem-se desenvolvido na Europa um crescente antagonismo aos fluxos dos refugiados do Médio Oriente e da África do Norte, frequentemente justificado com o argumento errado de que os países da Europa devem preservar a sua homogeneidade. Errado, porque nunca houve homogeneidade nesta região. Para escolher um exemplo mais próximo da Alemanha, temos em Portugal uma herança cultural e linguística de vários povos, incluindo iberos, celtas, romanos, judeus e mouros. A tradição portuguesa foi, durante milénios, multicultural. A tentativa de criar uma homogeneidade em Portugal é bastante recente, começando em 1497, com a conversão forçada dos Judeus ao Cristianismo.

Em Julho de 1983, soldados iraquianos sequestraram os homens de várias aldeias, que nunca mais foram vistos. As suas famílias aguardam ainda pelo seu regresso. Beharke, Curdistão Iraquiano, 1997. ©Sebastião salgado/Amazonas images.

 

Na perspectiva da Merkel e de outros políticos conservadores da Europa, o multiculturalismo tem sido um fracasso. Porém, a verdadeira razão que os leva a defender essa opinião é porque não querem pôr em causa a ilusão da homogeneidade e não querem adoptar medidas capazes de integrar os novos refugiados nas suas sociedades de uma forma eficiente e justa. E ainda porque não querem lutar por uma solução duradoura que ponha termo ao sofrimento dos refugiados: o fim das guerras e conflitos actuais no Médio Oriente e na África da Norte – guerras e conflitos que foram em grande parte fomentados e sustentados pelos Estados Unidos e por vários governos europeus.

No Fronteiras XXI fique a saber mais sobre o fenómeno das migrações em Portugal. «Migrações: problema ou solução?» foi o tema do debate com o fotógrafo Sebastião Salgado, a directora da Pordata Maria João Valente Rosa, o geógrafo Jorge Macaísta Malheiros e o ex-director do Observatório das Migrações Gonçalo Matias. Reveja online.