Em que acreditam os portugueses?

João Francisco Gomes jornalista do "Observador"

Menos de 80% dos portugueses dizem-se católicos, e o número continua a descer. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as igrejas evangélicas e o país até vai acolher a sede mundial dos ismailis, uma importante corrente do Islão xiita. Perante uma Igreja Católica que já não dá todas as respostas, o tradicional Portugal católico é cada vez mais diverso e plural e já tem 832 confissões oficialmente registadas. Sinónimo de diálogo e tolerância? Ainda é cedo para responder.

Religião e liberdade é o tema do Fronteiras XXI de dia 5 de Dezembro, às 21h30 na RTP3

 

 

A presença da guarda de honra militar, da chefe do Protocolo do Estado Português e de um assinalável grupo de diplomatas no aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, naquela tarde de 6 de Julho deste ano, prometiam a chegada de um chefe de Estado, não a de um líder religioso.

Mas foi o príncipe Karim Aga Khan, descendente do profeta Maomé e 49.º imã dos ismailis, uma das correntes mais relevantes (ainda que minoritária) do Islão xiita, quem aterrou em Portugal para uma visita de seis dias destinada a encerrar as comemorações dos 60 anos à frente da comunidade ismaili, durante a qual se encontrou com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa, e discursou no parlamento.

Um dos pontos altos da viagem foi a visita ao Palácio Henrique Mendonça, histórico edifício lisboeta que o Aga Khan comprou por 12 milhões de euros para ali instalar a sede mundial do Imamat Ismaili, quartel-general da confissão, que congrega cerca de 20 milhões de fiéis em todo o mundo, perto de dez mil em Portugal. No discurso na Assembleia da República, ao lado de Ferro Rodrigues, Aga Khan destacou a “visão pluralista” de Portugal, que o levou, em 2015, a acordar com o Governo português a transferência do Imamat para Lisboa.

Na mesma cerimónia, o presidente do parlamento pintou Portugal como um “país construtor de pontes, plural e dialogante”, e o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, sublinhou “o diálogo intercultural e a tolerância religiosa” enquanto “marca distintiva da democracia portuguesa”.

É certo que os ismailis são uma percentagem residual da população portuguesa. Porém, a instalação da sede mundial desta importante corrente islâmica é sinal evidente de que o catolicismo vai sendo cada vez menos a norma num Portugal que vive um período de profunda transformação no campo religioso.

 

Portugal menos católico e a destradicionalização

Vejamos os números. O último grande estudo sobre religião em Portugal é de 2012, do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião e do Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica Portuguesa (UCP), com o patrocínio da Conferência Episcopal Portuguesa e coordenado pelo antropólogo Alfredo Teixeira. As conclusões foram claras:  a percentagem de portugueses que se diziam católicos era, em 1999, de 86,9%; em 2011 tinha baixado para 79,5% — pela primeira vez abaixo do limiar dos 80%. E as estatísticas mais recentes da Igreja Católica divulgadas pela Conferência Episcopal, de 2014, são ainda mais pessimistas, colocando a percentagem nos 77,03%.

Em sentido inverso, registava-se um aumento dos que professam outras religiões, de 2,7% em 1999 para 5,7% em 2011, e dos sem religião, de 8,2% para 14,2%. Seis anos depois, Alfredo Teixeira confirma que a tendência se mantém e que a diminuição do número de católicos se tem vindo a aprofundar à medida que outras crenças se vão afirmando. O fenómeno, explica, “é relativamente esperado”, porque “o que é próprio das sociedades modernas é a sua diversificação” — e na sociedade portuguesa, histórica e culturalmente católica, tal “só pode acontecer a partir da diminuição” do número de católicos, que deverá continuar até ao ponto em que “o peso relativo dos católicos se ajuste à tendência normal de diversificação interna das sociedades”, estima o antropólogo, sublinhando que no “quadro de recomposição” da religião em Portugal se destaca “o fenómeno da destradicionalização”.

Com efeito, adianta Alfredo Teixeira, “Portugal viveu uma tradicionalidade religiosa muito forte até meados do século XX”, enraizada “nas estruturas comunitárias dos lugares” mais rurais. As migrações internas, que levaram muitos a trocar o interior do país pelas zonas urbanas, obrigaram à reconfiguração da herança religiosa num quadro social novo: as duas regiões nacionais onde o peso relativo dos católicos é menor são a Grande Lisboa e o Algarve, precisamente as mais afectadas pelo dinamismo demográfico.

Porque mais portugueses vivem num ambiente urbano, aprofunda-se a “dinâmica da individualização, facto essencial das sociedades modernas”, que dá aos indivíduos “uma margem de autonomia muito maior em relação às instituições”, explica Alfredo Teixeira. Isto “quer dizer que eles não reproduzem aquilo que recebem; recriam, recompõem, e isso conduz necessariamente a um fenómeno diversificado de pluralização que não pode deixar de ter efeitos” na religiosidade.

O cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, pensa de modo semelhante sobre o fenómeno que tem roubado fiéis à Igreja Católica. “Estamos numa profunda mudança civilizacional e cultural”, na qual as “referências estáveis, quer locais quer sacramentais, se diluíram muito”, diz, referindo-se aos sacramentos católicos, como o baptismo ou o matrimónio, que nas comunidades rurais funcionavam como “ritos de passagem”.

O casamento é, aliás, um dos indicadores mais úteis para compreender o afastamento dos portugueses da religião. Dados da PORDATA mostram que em 1990 houve 71.654 casamentos em Portugal, dos quais 51.963 (73%) foram católicos. Em 2017, o número de casamentos desceu para menos de metade, para um total de 33.111 dos quais apenas 11.153 (34%) foram católicos. “As pessoas sabem que o matrimónio católico é indissolúvel. Isso significa um compromisso de estabilidade que não é aquilo que as pessoas, em geral, vivem nesta mudança civilizacional”, aponta o patriarca de Lisboa.

Esta transformação social também tem tido reflexo na legislação. Em 2001, com a nova Lei da Liberdade Religiosa, o Estado criou a figura jurídica da comunidade religiosa radicada (implementada há pelo menos 30 anos em Portugal ou 60 no estrangeiro e aprovada pela Comissão da Liberdade Religiosa). E passou a reconhecer efeitos civis aos casamentos realizados segundo os seus ritos. Dez anos depois da criação da lei, já havia 50 confissões religiosas radicadas no país.

Hoje, são 80 as confissões não católicas com estes direitos, de entre as 832 registadas no país, informa José Vera Jardim, ex-ministro da Justiça, que foi figura-chave na criação da lei e agora preside à Comissão da Liberdade Religiosa. “Era preciso criar um estatuto de dignidade para as confissões não católicas, minoritárias”, lembra Vera Jardim, que em 1995, quando assumiu a pasta da Justiça, percebeu que a lei que regulava a liberdade religiosa (o catolicismo não era religião de Estado desde a lei da separação de 1911) era do tempo do Estado Novo e dificultava, na prática, a actividade das confissões minoritárias.

Para Vera Jardim, o decréscimo do número de católicos resulta de um fenómeno europeu de “insatisfação com o clássico”, nas dimensões política e religiosa. Isto explica que também em países como a Alemanha ou o Reino Unido o Luteranismo ou o Anglicanismo — religiões maioritárias naqueles países — estejam em queda, diz o ex-ministro, apontando o racionalismo e o individualismo como motivos para esse afastamento.

 

Boom evangélico

O processo de reconfiguração religiosa de Portugal passa por diferentes fenómenos simultâneos e interdependentes. Além da diminuição do número de católicos, verifica-se o aparecimento e consolidação de comunidades religiosas que se apresentam como alternativas à tradição católica, destacando-se o universo evangélico: o estudo da UCP mostrava que, em 2011, de entre os que se diziam religiosos, 2,8% eram protestantes (em 1999 eram só 0,3%).

No mundo protestante português, os fiéis do Protestantismo histórico (luteranos, anglicanos, calvinistas) são uma minoria que passa pelas mesmas dificuldades que a Igreja Católica. A maioria dos protestantes em Portugal são evangélicos. Pertencem à corrente renovada do Protestantismo, considerada mais fundamentalista, que rejeita a proximidade entre as confissões religiosas e os estados — tendo-se, historicamente, afastado das igrejas clássicas, muito próximas do poder político nos países onde se implementaram. “A Igreja não tem de estar às ordens do Estado ou dos governos”, diz António Calaim, ancião da Igreja Evangélica de Sintra e presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, órgão que já congrega mais de mil igrejas estabelecidas em Portugal.

Os evangélicos representam a esmagadora maioria das confissões não católicas registadas em Portugal. Embora as estatísticas não estejam sistematizadas desta forma, Vera Jardim estima que cerca de 90% das 832 confissões registadas sejam comunidades evangélicas. Isto porque a forma de organização destas comunidades não prevê estruturas centrais — cada igreja, por mais pequena que seja, é autónoma e independente, pelo que tem de submeter o seu próprio registo.

A Reforma Protestante não teve expressão significativa no país até ao final do século XIX, quando a chegada de comunidades inglesas e alemãs, muitas delas ligadas ao vinho do Porto, originou pequenas igrejas do Protestantismo clássico frequentadas apenas por estrangeiros. O número de evangélicos em Portugal acentuar-se-ia após o 25 de Abril com a chegada de retornados, já que em algumas ex-colónias havia grande influência de missões internacionais evangélicas, mas o motivo pelo qual o número de evangélicos em Portugal disparou nas últimas décadas foi a imigração proveniente do Brasil. “Há 25% da população brasileira que se diz evangélica, por isso muitos dos que vêm são evangélicos”, diz António Calaim. Segundo dados recentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o Brasil é o país com mais imigrantes em Portugal, com 85 mil a viver em território nacional.

“Nesta sala onde estamos, se tivermos aqui 60 ou 70 pessoas ao domingo, poderia dizer que metade são de origem estrangeira”, revela António Calaim, durante uma entrevista na sala multiusos — que tanto serve de zona de culto como de refeitório — da Igreja Evangélica de Sintra. Relativamente ao universo evangélico em Portugal, o responsável estima que um terço sejam brasileiros e cerca de 20% de origem africana, além de existir também uma representatividade assinalável de comunidades oriundas de outros países europeus e dos Estados Unidos. Contas feitas, a conclusão é que menos de metade dos evangélicos em Portugal tenham origem portuguesa.

“É um fenómeno global”, comenta Alfredo Teixeira, explicando que o Evangelicalismo é a forma de Cristianismo que mais cresce no mundo. Na opinião do antropólogo, o crescimento em Portugal não resulta apenas da imigração, mas também de “estratégias organizadas de missionação” da parte de “igrejas que se organizam para enviar os seus pastores”, e que crescem porque sabem tirar proveito das transformações que se vão operando nas sociedades modernas, usando a flexibilidade e capacidade de adaptação que o peso da história não permite à Igreja Católica ter: “A presença do evangélico num lugar, na dinâmica própria das igrejas evangélicas, é de construção de uma comunidade, que pode começar com uma reunião em casa, a que se junta mais uma pessoa, mais uma família, e que vai crescendo. É uma dinâmica muito adaptada às nossas sociedades”.

Além da implementação de comunidades estrangeiras em Portugal, é também de assinalar a conversão ao Evangelicalismo de um considerável número de pessoas que, tendo crescido num ambiente católico, não encontraram respostas na muito institucional Igreja Católica. Segundo António Calaim, a grande maioria dos que aderem às igrejas evangélicas em Portugal provêm de um contexto católico, embora sem pertença comunitária, e não de um quadro de ateísmo ou agnosticismo. Talvez, argumenta o pastor, porque os rituais pesados de longa tradição na Igreja Católica já não convençam as novas gerações — e as igrejas evangélicas oferecem novas formas de culto, em que se destaca o recurso à música.

“Os evangélicos são, em relação à música, mais alegres e participativos”, diz António Calaim, recordando as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa quando esteve, este ano, num culto evangélico na sua igreja, em Sintra: “Ele dizia: ‘É disto que a Igreja Católica precisa. De vida, de fervor, de ânimo’”. Assim se explica que, dentro do movimento evangélico, vão florescendo as jovens igrejas que trocaram os cultos tradicionais por verdadeiros concertos de música pop, que já atraem centenas de pessoas em Portugal.

É o caso da Comunidade Cristã de Lisboa (CCLX), fundada em 2012, entre outros, pelo músico Héber Marques, dos HMB. Ali, as celebrações são autênticos espectáculos musicais que reflectem, nas letras das músicas, a espiritualidade cristã. Também a Igreja Hillsong, uma denominação evangélica fundada na Austrália que ganhou notoriedade internacional por ter atraído celebridades como o cantor Justin Bieber ou a modelo Kendall Jenner, chegou no ano passado a Portugal, enchendo o cinema São Jorge, em Lisboa, para o primeiro culto (ou melhor: show). Os talentos musicais nascidos nestas comunidades evangélicas têm inclusivamente ultrapassado as fronteiras do culto e chegado ao panorama musical nacional — veja-se o exemplo da FlorCaveira, uma produtora musical que nasceu pelas mãos do pastor baptista e músico Tiago de Oliveira Cavaco e que lançou artistas como Samuel Úria (também ele devoto da Igreja Evangélica Baptista), B Fachada ou Diabo na Cruz.

Muitos dos que procuram respostas imediatas acabam por as encontrar também em comunidades religiosas como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) ou a Igreja Maná, correntes fundamentalistas associadas à chamada teologia da prosperidade, que se identificam como evangélicas apesar de a Aliança Evangélica Portuguesa já lhes ter recusado a adesão mais do que uma vez, “por causa das suas práticas e da sua própria ideologia”, como esclarece António Calaim. Mas que se vão consolidando no país. O cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, compara mesmo estas igrejas que “aparecem e desaparecem” a um fenómeno de “mercado religioso”. São igrejas que aproveitam a “vulnerabilidade” dos fiéis em busca de compensações imediatas para os conquistar com promessas — não raras vezes no campo do dinheiro e das relações humanas —, aponta Alfredo Teixeira, que considera que a entrada da IURD em Portugal em 1989 foi o maior choque religioso que ocorreu no país nas últimas décadas.

Com efeito, quando chegou a Portugal, a IURD já acumulava controvérsias no Brasil, onde foi fundada em 1977 por Edir Macedo — hoje um dos maiores milionários do país, mas que chegou a ser detido e acusado de crimes contra a boa-fé dos fiéis. Construiu um império nos meios de comunicação, cultivou uma rede de influências na esfera política e resistiu sempre às acusações de envolvimento em esquemas financeiros. Em Portugal seguiu a mesma estratégia e criou uma pequena comunidade em Lisboa. Três anos depois, a IURD já tinha um espaço de 30 minutos na SIC; em 1992 comprou o Cinema Império, em Lisboa, onde instalou a sede nacional, e no ano seguinte reuniu perto de 50 mil pessoas no Estádio do Bessa.

A rápida expansão da IURD viria a culminar na maior polémica em que a igreja de Edir Macedo se viu envolvida no país: a tentativa de comprar o Coliseu do Porto, em 1995, para o transformar num grande templo para os fiéis do Norte. O contrato-promessa chegou a estar assinado, mas uma grande mobilização de figuras da política e da cultura do Porto, a que se associaram milhares de habitantes da cidade num protesto em que se gritaram palavras de ordem contra a “seita religiosa”, acabou por reverter o negócio. O cantor Pedro Abrunhosa chegou a acorrentar-se ao edifício e vários artistas portugueses uniram-se num concerto de angariação de fundos para a aquisição do Coliseu. A partir daí, a IURD optou por uma atitude mais discreta, mas sem abrandar a expansão, tendo continuado a inaugurar “centros de ajuda” por todo o país. Hoje já conta com mais de uma centena de templos e mais de 30 mil fiéis em Portugal.

Ademais, de acordo com o estudo da UCP, o segundo grupo religioso em Portugal são as Testemunhas de Jeová, representando 1,5% do total de portugueses que se dizem religiosos — apenas superam o Evangelicalismo porque este, para todos os efeitos, é composto por centenas de igrejas independentes quase sempre sem relação entre si.

 

Lisboa, capital mundial dos muçulmanos ismailis

Fora do espectro cristão ficavam apenas 0,8% dos portugueses que se dizem religiosos, segundo o mesmo estudo. Trata-se das comunidades muçulmanas, judaicas, hindus, budistas e de outras confissões não cristãs representadas no país. Relativamente ao Judaísmo, o autor do estudo sublinha que esta comunidade se tem paulatinamente transferido da sinagoga para o museu, tendo “uma expressão essencialmente patrimonial” no país. “A própria comunidade judaica investe muito na manutenção do Judaísmo como uma referência cultural importante”, sublinha.

Já o Islão, não sendo particularmente expressivo em termos numéricos, está mais enraizado em Portugal do que qualquer outra confissão não católica, porque a principal via de entrada de muçulmanos no país foi a chegada dos retornados após a revolução de 1974 e não a imigração de estrangeiros. Ou seja, os muçulmanos que chegaram foram recebidos como portugueses que eram — oriundos sobretudo de Moçambique. Nas palavras de Alfredo Teixeira, “a construção de uma identidade portuguesa em contexto de vivência islâmica” não só não foi uma novidade (já havia ocorrido nas ex-colónias), como não aconteceu num ambiente de tensão como o que caracteriza o acolhimento de comunidades estrangeiras.

Faranaz Keshavjee, investigadora em Estudos Islâmicos no ISCTE e muçulmana ismaili, fez parte do grupo de portugueses que chegaram a Lisboa em Setembro de 1974 vindos de Moçambique. Foi viver para o Bairro Alto. “Quando cheguei a Portugal perguntavam quem é que eu era e alguém dizia: ‘Ela é retornada’. Nunca ouvi dizer que era muçulmana ou indiana”, recorda hoje. Era portuguesa. Só mais tarde, durante a adolescência, deu conta de “outra identidade acrescida que era preciso ser explicitada, a de ter uma identidade religiosa”.

Actualmente, vivem em Portugal aproximadamente 50 mil muçulmanos, maioritariamente na Grande Lisboa, mas também no Porto e no Algarve, segundo números da Comunidade Islâmica de Lisboa. Às primeiras comunidades juntar-se-iam os imigrantes oriundos do Norte de África e da Ásia, mas a atitude face ao Islão permaneceu moldada pelo primeiro contacto com os retornados portugueses. “Consciente ou inconscientemente, não houve um estigma associado a ser muçulmano quando se entrou em Portugal. Entrou-se como retornado e, portanto, ficava diluído qualquer outro tipo de identidade”, explica Keshavjee.

Entre os que entraram em Portugal, maioritariamente sunitas, chegaram também alguns ismailis, membros de uma corrente xiita do Islão que se separou da maioria no século VIII e que segue a descendência directa de Ismail, filho do quinto imã do Islão xiita. A linha directa do profeta Maomé chega ao príncipe Karim Aga Khan, que agora se prepara para mudar a sede mundial do Imamat Ismaili para Lisboa. A decisão deve ser interpretada à luz da particularidade da presença islâmica em Portugal, defende Faranaz Keshavjee: “É uma comunidade que entrou aqui em circunstâncias diferentes dos muçulmanos que entraram noutras partes da Europa”, onde essa entrada ocorreu quase sempre em clima de tensão.

Para a investigadora, a história comum e a proximidade entre as identidades islâmica e portuguesa contribuíram para que o príncipe Aga Khan visse em Portugal um “parceiro privilegiado”. “Há uma história portuguesa de imenso convívio no pluralismo. Ele diz (sugiro substituir por “usa”) uma expressão muito interessante: mesmo que os próprios portugueses não tenham noção. Não se está a referir só ao Portugal de hoje nem ao Portugal pós-D. Afonso Henriques; está a referir-se ao Portugal que foi governado por muçulmanos. Foram 800 anos que marcaram este povo, houve um convívio que está presente e que se manifesta na língua, na arquitectura, nas artes, na música”, comenta.

Também José Vera Jardim, lembrando as conversas com o imã dos ismailis nos últimos anos, garante que “Aga Khan simpatizou muito com Portugal” e que “a Lei da Liberdade Religiosa foi para ele um sinal de grande abertura do país em relação às religiões, à pluralidade religiosa e aos direitos das religiões minoritárias”.

A verdade é que os menos de dez mil ismailis que vivem em Portugal são uma minoria até face às minorias religiosas no país, mas são uma minoria indispensável para conhecer a verdadeira dimensão da diversidade religiosa portuguesa. A transferência do Imamat Ismaili para Portugal, que se deverá concretizar em 2019, quando o restauro do Palácio Henrique Mendonça estiver concluído, é evidência disto mesmo: um país que durante séculos foi exclusivamente católico está de tal modo a reconfigurar-se do ponto de vista religioso que se tornará no centro do mundo para estes muçulmanos.

 

Portugal, exemplo de tolerância?

Um estudo do Pew Research Center divulgado em Junho deste ano, com dados de 2016, mostra Portugal como um dos países mais tolerantes do mundo neste campo, sendo o país europeu com menor índice de restrições governamentais à prática religiosa. Há exemplos visíveis: desde 2011, pelo menos oito países europeus implementaram legislação a restringir o uso da burqa por mulheres muçulmanas, ao passo que em Portugal a discussão não está sequer em cima da mesa.

Simultaneamente, algumas iniciativas têm mostrado aos portugueses que o diálogo e cooperação entre religiões é possível. Em 2015, centenas de instituições (religiosas de várias confissões e não religiosas) juntaram-se para lançar a Plataforma de Apoio aos Refugiados — precisamente para contribuir para a resolução de um problema que noutros países europeus está no centro da intolerância. Em 2016, quando tomou posse como Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa reuniu na mesquita central de Lisboa representantes de 18 confissões para promover o diálogo. E em 2018, em pleno debate sobre a eutanásia, líderes de oito religiões publicaram uma posição comum contra a legalização daquela prática.

“Somos capazes de nos conjugar quando há algum valor comum. Nas causas humanitárias encontramo-nos facilmente e até gostamos de nos encontrar”, diz o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, presença habitual em encontros inter-religiosos. O evangélico António Calaim concorda que Portugal é um bom exemplo de tolerância e convivência entre religiões, mas alerta para as desigualdades ainda existentes entre as várias confissões e para algum preconceito face aos evangélicos. Uma realidade que o bispo do Porto explica com a diferença entre o diálogo feito ao nível das lideranças e as relações entre os fiéis. “Há uma abertura de espírito entre as religiões, mas admito que as relações entre os líderes sejam bem melhores do que entre as bases”, argumenta D. Manuel Linda.

Esta posição é partilhada por Khalid Jamal, dirigente da Comunidade Islâmica de Lisboa, a maior organização muçulmana de Portugal. “O diálogo inter-religioso funciona bem nas reuniões de alto nível e de cúpula, mas no terreno pouco existe. Temos de enfatizar que o que nos une é superior ao que nos diverge, mas infelizmente estamos ainda na fase de só falar do que nos une e não de algumas, poucas, diferenças inconciliáveis existentes”, lamenta Jamal, sem esconder, porém, o contentamento pela “relação muito próxima e até íntima com os responsáveis da Igreja Católica”.

Não quer isto dizer que haja discriminação religiosa entre cristãos e muçulmanos. “Nós, dirigentes da comunidade islâmica, apelamos e quase ‘exigimos’ o respeito pela religião maioritária presente em Portugal e naturalmente pelos seus costumes e tradições”, garante. No sentido inverso, os casos de desrespeito e discriminação contra muçulmanos são sempre étnicos e nunca religiosos.

A Lei da Liberdade Religiosa tem contribuído para este clima de respeito e tolerância apontado por responsáveis de diferentes confissões, assegura José Vera Jardim. Por se tratar de um “sistema muito aberto” que permite que qualquer cidadão se registe e crie uma religião, num contexto histórico de crescente pluralismo religioso e de diversidade de mensagens que se seguiu ao 25 de Abril, a lei faz com que o país tenha “uma grande abertura ao fenómeno religioso”.

Porém, do ponto de vista de observadores externos às comunidades religiosas, a tolerância de que se fala com frequência poderá ser, na verdade, uma tese pouco sustentada. Para o jornalista António Marujo, que há perto de 30 anos acompanha o fenómeno religioso em Portugal, há uma “imunidade à intolerância motivada pela circunstância histórica” porque ainda “não houve um choque grande” no país. “Não vieram de repente dezenas de milhares de argelinos como na França, ou uma grande quantidade de etíopes, eritreus e líbios como na Itália”, diz, acrescentando que “na hora em que aparecer um populista, seguramente vai arrastar muita gente atrás dele”.

Por outro lado, no entender do investigador Alfredo Teixeira, Portugal ainda está a reconfigurar-se do ponto de vista religioso e não foi, até agora, exposto a um choque suficientemente forte para testar a tolerância religiosa do país. “Alguém sabe responder a isto: se em vez de termos uma percentagem de muçulmanos como temos hoje, tivéssemos um número substancialmente diferente, continuaríamos na mesma? Não sei, seria pura adivinhação estar a responder a isso. Há, de facto, uma experiência interessante, que dá sinais diferentes dos de outros países, mas também a partir de condições diferentes”, argumenta.

 

Crentes sem religião e uma Igreja Católica que não dá respostas

À diminuição do número de católicos e ao aparecimento de comunidades religiosas alternativas junta-se outro fenómeno: o reforço dos crentes sem religião. Na perspectiva de Alfredo Teixeira, “o número de pessoas que na auto-representação de si deixam de ter lugar para qualquer pertença religiosa” é um “fenómeno que deve merecer atenção, porque não só representa uma fatia cada vez mais importante da população portuguesa, como representa uma fatia muito distribuída, não só nas classes mais letradas ou urbanizadas”.

Destes, destacam-se os que “dizem não ter uma religião, mas que dentro dessa posição não se identificam como indiferentes, agnósticos ou ateus”. São crentes sem religião, ou seja, “estão disponíveis para aceitar uma dimensão da experiência humana que passa pela relação com a transcendência, mas não a vinculam objectivamente a qualquer pertença comunitária”. Em 2011, representavam 4,6% dos inquiridos no estudo da UCP e um terço (32,5%) dos que se diziam não religiosos. São, na maioria, “uma espécie de ultraperiferia católica”, diz o antropólogo que coordenou o estudo. “Estiveram em contacto, na sua vida, com algum processo de socialização católica. Podem até tomar algumas decisões, como fazer escolhas para os seus filhos que incluem a religião, mas dispensam por completo esta dimensão de pertença.”

O bispo do Porto, D. Manuel Linda, compreende esta realidade e sublinha que a Igreja Católica não tem hoje capacidade para dar resposta a muitas das perguntas que a sociedade levanta, sobretudo os mais jovens. Falta-lhe “uma grande dimensão missionária interna”. Quando falou para este artigo, preparava-se para reunir no dia seguinte os cerca de 40 padres da Área Metropolitana do Porto e debater com eles os desafios da Igreja, “que tem uma mentalidade tipicamente rural”, num contexto de cultura urbana.

“O que podemos fazer para ir ao encontro dos indiferentes? Não temos grande estrutura para isso. Quando encontramos as pessoas, num funeral ou num baptizado, podemos fazer um esforço para as acompanhar. Mas sou o primeiro a reconhecer que no dia-a-dia não temos capacidade para ir ter com as pessoas. Antigamente, toda a pastoral se confinava a esta mentalidade: estamos aqui e quem quiser que nos venha bater à porta. Hoje, não é suficiente esperar que as pessoas nos venham bater à porta. Damos conta do fenómeno, estamos angustiados, mas não encontramos uma resposta fácil”, comenta D. Manuel Linda.

Manuel Clemente é mais optimista: “Os que permanecem [na Igreja] estão mais convictos, porque tiveram de fazer uma opção que não vai com a corrente”. Para o presidente da Conferência Episcopal, o afastamento da pertença religiosa deve-se ao crescente “espaço para a solução pessoal”, não comunitária. “Isso também não deixa de ser interessante, porque ao menos as coisas ficam mais claras”, defende, acrescentando: “Muitas pessoas dizem-se ateias em relação a uma ideia de Deus que eu também não perfilho, mais ou menos vaga, de contas certas, de ‘fazes isto e tens aquilo’.”

Isto obriga a Igreja Católica a reconfigurar-se. Mais do que procurar o proselitismo, tem de “fortalecer a fé” dos seus fiéis, “que lutam contra o fenómeno da falta de formação e de cultura religiosa”, afirma D. Manuel Linda. Os múltiplos movimentos católicos de juventude que se têm consolidado na última década são um bom exemplo daquilo que a Igreja tem feito — quase sempre a partir das bases e não da hierarquia, sublinhe-se — para se afirmar. Como remata o bispo do Porto, “a Igreja Católica está viva e recomenda-se”. É verdade. Mas, no contexto de diversidade religiosa que no país se vai aprofundando, já não é a única resposta para as interrogações espirituais dos portugueses.

 

Religião e liberdade é o tema do Fronteiras XXI de dia 5 de Dezembro, às 21h30 na RTP3

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