A saúde do futuro

Catarina Guerreiro jornalista, editora-executiva na revista "Visão"

A tecnologia promete revolucionar os cuidados de saúde. Há computadores a fazer diagnósticos correctos em minutos ou a descobrir o tratamento mais adequado para aquela pessoa. Em Portugal, já há, por exemplo, doentes a controlarem em casa a tensão arterial e pacientes internados em casa para reduzir o risco de infecções e libertar camas hospitalares.

«Quem nos trata da saúde?» é o tema do debate Fronteiras XXI de dia 14 de Março na RTP3.

A tecnologia promete revolucionar os cuidados de saúde. Os diagnósticos vão ser mais rápidos e feitos por computadores e os médicos irão tornar-se super especialistas e operar os doentes à distância. Já os utentes vão passar menos tempos nos hospitais. Em Portugal já há unidades públicas a internar pacientes em casa. Quanto ao envelhecimento da população, especialistas garantem que por si não vai aumentar os custos com sector.

 

Smartphones que o avisam que está em risco de sofrer um ataque cardíaco nas próximas horas; sistemas cirúrgicos que lhe permitem estar num bloco operatório em Portugal a ser operado por um médico que se encontra, nesse momento, a milhares de quilómetros no estrangeiro ou um mega computador que lhe diagnostica em segundos uma doença que os médicos demorariam dias ou semanas a descodificar.  A medicina do futuro está a chegar, garantem os especialistas, notando que aos poucos por todo o mundo começam a sentir-se as mudanças.

A tecnologia vai reinventar os serviços de saúde, avisa Francisco Goiana da Silva, médico, de 29 anos, que entrou recentemente para o Governo, para adjunto do secretário de Estado, Fernando Araújo, para a área da inovação «No futuro os doentes vão a passar ir menos aos hospitais e os computadores, em articulação com os profissionais de saúde, vão agilizar os diagnósticos, aumentando a sua qualidade e rapidez” diz recordando que neste momento já existe um super computador cognitivo que é capaz de fazer um diagnóstico correcto de uma doença em poucos minutos.

“Tem uma base de dados com milhões de processos clínicos, com milhões de documentos científicos e outras informações que permitem identificar rapidamente, com alto grau de proabilidade, a doença de uma pessoa”, diz Goiana da Silva falando do Watson Health, um sistema de inteligência artificial que, de acordo com a empresa que o criou, a norte-americana de informática IBM (International Business Machines) já foi usado em centenas de hospitais de 11 países, em especial para problemas oncológicos e doenças raras.

O médico Jürgen Schäfer, especialista no diagnóstico de doenças raras e do hospital privado Rhön-Klinikum, na Alemanha, é um dos que recorre a este software de “big data”. E em conferências que tem dado, conta que, para além da literatura científica, ele e a sua equipa acrescentam ao software vários dados dos pacientes, como se têm ou não animais de estimação ou se mudaram recentemente de localização de residência, e ainda elementos sobre os seus estilos de vida. E com estas informações todas, o computador, garante Schäfer, tem conseguido acelerar os diagnósticos. “Precisamos de alta tecnologia e não precisamos de ter medo dela. Se o piloto do avião desligasse o computador de bordo, sentir-se-ia mais seguro? Dificilmente”, disse Jürgen Schäfer.

Para muitos, o Watson tem sido um apoio à decisão clínica: no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova Iorque, tem ajudado os clínicos a descobrir o tratamento mais adequado a cada doente oncológico, demorando em média dois minutos a dar recomendações que incluem os possíveis tratamentos, com as suas evidências científicas, os graus de riscos e os efeitos colaterais. Isto a partir do cruzamento da literatura científica com dados clínicos e genéticos do paciente.

Segundo explica a IBM, uma pessoa gera 200 terabytes de informações sobre a sua saúde durante a vida, mas 90% desses dados não são armazenados. «Os médicos têm memória e experiência humanamente limitadas, os computadores não», nota Goiana da Silva, membro da Comunidade do Fórum Económico Mundial, Global Shapers Lisbon Hub.

Há várias outras novidades tecnológicas que prometem mudar a medicina e o papel dos médicos. Os radiologistas, por exemplo, poderão ter grande percentagem dos seus actos feitos por máquinas – uma startup israelita, a Zebra Medical Vision, criou um algoritmo que permite analisar as radiografias de forma mais rápida e com menor probabilidade de erro do que um humano.

Além de modificar a forma e o tempo de fazer um diagnóstico, a tecnologia vai também favorecer a telemedicina e levar a que cada vez mas actos sejam feitos fora das unidades de saúde. «Só os casos mais graves é que serão tratados nos hospitais», acredita Goiana da Silva, lembrando que será uma medida essencial para baixar custos e diminuir o problema das infecções hospitalares – que em Portugal matam 12 pessoas por dia e que, segundo a Organização Mundial de Saúde atingem 14 em 100 pacientes que permanecem nos hospitais.

 

Internados em casa

Actualmente já há estabelecimentos públicos portugueses que estão a internar os doentes nas próprias residências. Ou seja, em vez de ficarem no hospital, permanecem internados em casa. O Hospital Garcia de Orta, em Almada, foi pioneiro no país. “Começámos em 2015 e ao todo já 600 doentes ficaram internados nessas condições”, conta Daniel Ferro, presidente do Conselho de Administração do Garcia de Orta, explicando que antes de avançar com a iniciativa, um grupo de peritos esteve durante um ano e meio a analisar toda a documentação publicada a nível internacional sobre o tema e a estudar a sua aplicabilidade.

Neste momento, apenas os doentes com menos complexidade têm sido integrados neste novo modelo, mas em breve o Garcia de Orta vai estender este internamento aos doentes que são operados. Assim, em vez de recuperarem numa das salas de internamento, muitos vão poder fazê-lo nas próprias camas, em casa, junto da família.

Para breve está também um projecto que envolve alguns lares. O Garcia de Orta vai estabelecer protocolos com instituições que acolhem idosos para que estes em vez de serem levados para os hospitais, possam ser tratados nos quartos, nos lares. A ideia de internar os doentes em casa está a ter sucesso, e há vários outros hospitais do país – como o Centro Hospitalar de Lisboa Central – que estão a avançar com experiências semelhantes. É que, além de diminuir o risco de infecções hospitalares, este tipo de internamento permite também baixar os custos. Segundo Daniel Ferro, ter um doente internado em casa leva a uma poupança entre 20 a 30%. Basta ver, refere, que um utente internado custa 2.300 euros por dia e em casa fica pelos 1.700. Já a média de internamento foi de 9,5 dias.

Nenhum destes doentes é obrigado a ficar internado desta forma – tudo é acordado, acrescenta Daniel Ferro, referindo que é preciso ter sempre a colaboração da família. Todos os dias, os doentes recebem a visita de enfermeiros – e também de médicos, quando necessário -, que vão acompanhados de um carro com material clínico. Os protocolos feitos entre os utentes e o hospital prevêem que os enfermeiros possam deslocar-se três a quatros vezes ao longo do dia à residência onde se encontra a pessoa internada. Ao mesmo tempo, os parâmetros fisiológicos do doente são permanentemente medidos. “Os dados do doente ficam ligados a uma central, onde os profissionais de saúde podem ir controlando à distância, a temperatura, a pulsação e a tensão”, explica Daniel Ferro.

Foi exactamente para ver a eficácia e fiabilidade destas medições à distância que uma equipa de especialistas do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, realizou um estudo sobre o tema: avaliou em 55 idosos a eficácia da medição da sua pressão arterial feita à distância, através de um sistema existente (no caso o True-kare – um medidor de tensão sem fios). “Concluiu-se que era fiável e permite fazer o acompanhamento longínquo de pessoas com necessidade de controlar a tensão arterial”, explica Tânia Costa, assistente convidada  daquele Instituto de Ciências da Saúde que realizou o trabalho em conjunto com Sara Laranjeira, João Costa Amado, João Queiroz e Melo, todos do mesmo organismo.  No fim,  confirmam que estes aparelhos são uma “mais-valia” por reduzirem os custos, serem essenciais para quem tem dificuldade em se deslocar e por obrigarem as pessoas a aprender a mexer nesses sistemas, acabando por as envolver nas próprias doenças.

Segundo Tânia Costa, há cada vez mais portugueses a serem seguidos fora das unidades de saúde, estando  em curso vários projectos. “Os centros de saúde estão a solicitar apoio de teleconsultas a todos os hospitais do país. Na área da dermatologia as teleconsultas têm sido feitas em tempo real e estão a ser estudadas soluções para a anatomia patológica, ou retinopatia diabética”. Além disso, conta, está a desenvolver-se uma plataforma que “permite que o utente insira os seus dados, agende consultas e recorra a uma consulta médica por videoconferência”.

 

Pais podem fazer vídeo enviar ao médico e confirmar otites

Pelo país há já linhas de apoio telefónico, consultas virtuais e prescrições electrónicas. E começa a surgir uma vaga de exames médicos que podem ser feitos em casa.

Há várias inovações tecnológicas a serem lançadas por todo o mundo, que permitem um diagnóstico rápido e sem deslocação ao consultório. É o caso de um aparelho, chamado Oto, da empresa Cellscope, que se liga ao iphone e permite aos pais fazerem filmes de qualidade do ouvido interior dos filhos, enviarem-no para os médicos e terem o diagnóstico e tratamento em minutos.  Uma otite deixa, assim, de ser motivo para uma ida ao hospital.

Há também já várias aplicações destinadas à saúde mental que possibilitam que os médicos detectem à distância episódios maníaco-depressivos dos doentes. Uma empresa norte americana desenvolveu uma tecnologia que identifica várias doenças através dos biomarcadores da voz; e outra startup também nos EUA criou uma aplicação que traça perfis psicológicos, através da monitorização dos movimentos diários das pessoas. Chama-se Ginger.io e analisa a actividade dos pacientes através dos dados de telemóvel – como os locais onde  vão, os momentos em que estão parados, as mensagens que enviam ou não enviam, o contacto social que têm, as horas a que acordam. E quando é detectada uma alteração do padrão do comportamento, o médico recebe um alerta do sistema. Isto porque quando o aplicativo é instalado, o utente tem sempre de colocar o contacto das pessoas a quem a aplicação deve mandar uma notificação automática em caso de suspeitas de uma depressão. Aplicações deste tipo para os doentes não são pacíficas e têm levantado polémica, devido aos riscos de automedicação e de invasão da vida privada.

“É claro que esse é um problema importante, tal como é e será igualmente a ciber segurança. Mas também dará mais poder aos doentes para gerirem as suas doenças com mais autonomia”, defende Goiana da Silva, lembrando que em causa está o patient empowerment um conceito internacional para definir a estratégia de centrar o sistema de saúde nos utentes. “Não acha que o facto de o seu telemóvel  poder alertá-lo a si e ao seu médico para o aumento da probabilidade de ter um enfarte, por estar a monitorizar o seu  batimento cardíaco, lhe vai dar mais poder?”

 

O impacto do envelhecimento nos custos da saúde “é pequeno”

“A existência de plataformas móveis e a emergência de numerosos dispositivos demonstram que a saúde à distância é uma realidade emergente”, concorda Tânia Costa, acrescentando: “Não tenho dúvidas que o uso deste tipo de tecnologia será amplamente dinamizado num futuro próximo em virtude de variadas circunstâncias: envelhecimento populacional; longevidade associada à morbilidade que acarreta necessidades em cuidados de saúde com consequente acréscimo dos custos”. Os idosos são, aliás, uma das preocupações actuais.

Em 2050 estima-se que a esperança média de vida no país seja de 88,1 anos para as mulheres e de 83, 1 para os homens. E uma década depois cada portuguesa chegará em média aos 89, 2 e eles aos 84. Neste ano de 2060, estima  o Instituo Nacional de Estatística (INE) no estudo sobre “Projecções de população residente 2012-2060”, a população nacional terá diminuído para 8,6 milhões e o número de pessoas com 65 ou mais anos terá aumentado de 2.033 milhares (em 2012) para 3.043 milhares.  Assim, entre 2012 e 2060, o índice de envelhecimento crescerá de 131 para 307 idosos por cada 100 jovens, acredita o instituto de estatística.

O envelhecimento tem sido apontado por muitos como uma das principais pressões sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS), especialmente por em Portugal se morrer mais tarde, mas se viver mais tempo doente. E têm surgido alguns dados alarmantes: os utentes com 65 ou mais anos representam 50.53% dos custos de internamento em Portugal (1.244.271.828,00 euros ), revelou um estudo da Direcção-Geral de Saúde de 2014. Por outro lado, um relatório da consultora  Standard & Poor’s, já deixou o alerta de que se em Portugal não forem tomadas medidas para lidar com o envelhecimento, em 2050 as despesas com este fenómeno vão atingir os 24%, entre gastos da Segurança Social, saúde e outras.

Mas o debate sobre o tema tem revelado opiniões opostas com muitos  especialistas a garantirem que o envelhecimento  em si não significa um aumento nos gastos com saúde.  «O impacto do envelhecimento nos custos da Saúde é pequeno», garante Miguel Gouveia, do Centro de Estudos Aplicados, da Católica Lisbon School of Business and Economics.

Numa análise que fez sobre a longevidade e os custos para a saúde dá vários cenários, explicando que o efeito envelhecimento fará no máximo os custos “aumentarem apenas 0,36% por ano” em 2050, muito menos do que o peso financeiro com tecnologia. Para este especialista, tal como outros têm defendido, o importante é serem tomadas medidas que permitam lidar com os problemas de saúde das pessoas para que estas possam viver mais tempo saudáveis .

“Aumentar as despesas da saúde é uma opção política”, diz, explicando que se o Governo perceber os ganhos financeiros que pode ter no futuro ao investir na saúde e na sua promoção irá então cortar antes em outras áreas. O que não tem acontecido, lembra. O gasto per capita é de cerca de 1.600 euros por ano,  acrescenta Miguel Gouveia notando que tem havido um decréscimo de investimento em saúde, tendo em conta a evolução do PIB nacional. O documento “Contas Satélite da Saúde” do INE, explica isso mesmo: desde 2010 a despesa com saúde aumentou a um ritmo inferior ao PIB. E apresenta-se o exemplo de 2015, ano em que a despesa corrente cresceu 3,1%, enquanto o PIB variou 3,7%.

Também Pedro Pita Barros, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa defende a mesma teoria: o envelhecimento por si não aumenta os custos. Num trabalho sobre “Economia: demografia e sustentabilidade, riscos e desafios de hoje”, Pita Barros avisa que o principal desafio do envelhecimento na saúde não é o acréscimo de defesa. “Isso é um mito”, refere, argumentando que o importante é a organização do sistema e a capacidade de dar resposta. Em especial a doenças que afectam os portugueses e que dependem em grande parte do estilo de vida, como a diabetes.

O relatório anual do Observatório Nacional da Diabetes – “Diabetes: Factos e Números” – revelou que a doença matou 12 pessoas por dia em 2015, estando presente em mais de um quarto dos óbitos nos hospitais públicos em Portugal.  Já as doenças cardiovasculares matam 35 mil portugueses todos os anos. Entre os problemas mais comuns nos portugueses estão também as doenças crónicas respiratórias, como a asma, a doença pulmonar obstrutiva e a pneumonia – esta última  é a principal causa de morte entre as doenças do foro respiratório, representando 43,88% dos casos de óbito.

As doenças respiratórias são a terceira causa de morte no país. Segundo a PORDATA, só ficam atrás das doenças do coração e do cancro. Este último, diz o relatório do “Programa Nacional para as Doenças Oncológicas”, divulgado em Setembro de 2017, vitimou 152,2 portugueses em cada 100 mil habitantes. Entre os mais mortais estão os cancros do pulmão e colo-rectal. Em 2015, morreram 4.015 portugueses com cancro do pulmão, 3.812 com cancro colo-rectal, 2.336 com neoplasias do estômago, 1.723 com tumores da próstata e 1.683 com cancro da mama, entre outros.

 

Mais de seis milhões de urgências e tempos de espera para cancro “inaceitáveis”

“Julgo que hoje em relação à oncologia já se estão a assistir a situações de tempo de espera que considero inaceitáveis”, denuncia Miguel Gouveia. O médico Goiana da Silva também admite que “atendendo às tendências atuais de aumento da incidência das doenças crónicas, como as oncológicas, a menos que, tornemos os cuidados de saúde mais eficientes, a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde pode estar em risco”. E considera que “o investimento na prevenção e no uso inteligente das tecnologias serão certamente a solução”.

Isto para problemas como as elevadas idas aos serviços de urgência.  Os números mostram o difícil cenário que existe: em 2016, registaram-se 6,4 milhões de urgências e mais de 40% foram de prioridade menor. “A tecnologia ajuda a resolver à distancia muito problemas deixado de haver necessidade de ida a urgência, o que permitirá uma melhor canalização de recursos, nomeadamente de médicos, que passam a poder tratar apenas quem realmente precisa”, concluiu Goiana da Silva. Segundo as estatísticas, nos hospitais trabalham perto de 23 mil médicos dos quase 50 mil inscritos na Ordem.  A evolução tecnológica levará, de acordo com muitos analistas, a que os médicos e os hospitais se especializem em determinadas doenças e atendam pessoas de todo o mundo. A facilitar essa nova realidade estão soluções como o robô Da Vinci que permite a um médico operar um doente que está a milhares de quilómetros de distância.

São todas estas mudanças que estão a ser analisadas pelos elementos da comissão criada para fazer a revisão da Lei de Bases da Saúde.  “É preciso avaliar o que existe, transpor até normas europeias e fazer com que a nova Lei de Bases garanta tudo o que está previsto na Constituição”, explica Maria de Belém Roseira, presidente desta comissão.

A ex-ministra da Saúde concorda que a tecnologia vai levar a uma mudança radical da medicina e lembra que isso pode introduzir factores de desigualdade no acesso. “É preciso garantir que isso não acontece”, defende Maria de Belém, admitindo que a saúde vai ser cada vez mais dominada pelos computadores, robôs e aplicações móveis. De fora desta revolução, acredita, vai apenas ficar a parte emocional: “Os computadores só não terão sentimentos”.