Sebastião Salgado explica as suas fotografias: nestas imagens há vidas «plenas de dignidade»

Joana Ferreira da Costa

Fotografou milhares de pessoas em fuga de genocídios étnicos e da guerra, populações para quem, num instante, tudo mudou. "Estas pessoas tinham uma vida normal e de uma hora para a outra não tinham mais nada", contou Sebastião Salgado, o reputado fotógrafo brasileiro e convidado especial do Fronteiras XXI sobre migrações

«Migrações: problema ou solução?» foi o tema do quarto debate Fronteiras XXI, no dia 17 de Maio.

Considerado um dos maiores fotógrafos do mundo, o brasileiro Sebastião Salgado registou as grandes migrações de pessoas em África, na Ásia, mas também na Europa. Durante a década de 1990, fotografou milhares de pessoas em fuga de genocídios étnicos e da guerra, populações para quem, num instante, tudo mudou. «Estas pessoas tinham uma vida normal e de uma hora para a outra não tinham mais nada», contou Salgado, o convidado especial do programa Fronteiras XXI sobre migrações. O fotógrafo descreveu os momentos em que captou algumas dessas imagens de vidas interrompidas, mas «plenas de dignidade».
Croácia: 120 refugiados vivem num comboio na estação de Ivankovo (1994)

«Esta fotografia representa um dos campos de refugiados mais cruéis que já vi», recorda Salgado. O «campo» é a estação ferroviária de Ivankovo, na Croácia, onde em plena guerra fratricida na ex-Jugoslávia, 120 refugiados ficaram encurralados sem poder entrar na Alemanha nem regressar a casa. «Eles faziam parte do primeiro grupo de pessoas que saiu, antes que a onda da bestialidade atingisse as populações locais», recorda o fotógrafo. «Saíram na frente, para evitar que os homens fossem assassinados e que as mulheres fossem violadas, mas não foram aceites pela Alemanha», explica. Não preenchiam as condições ideais de um refugiado e nunca entraram na Alemanha. Viviam nas carruagens de um comboio, imobilizado, num desvio da linha principal. «Eles ficaram vivendo num local onde passavam os outros trens de refugiados». Só que estes homens, mulheres e crianças «não tinham o direito de ir e ficaram aqui, com a guerra a poucos quilómetros deles, com um perigo imenso. Ficaram num estado de uma tristeza profunda», remata.
Campo de refugiados ruandês de Benako, na Tanzânia (1994)

Nesse mesmo ano de 1994, África assiste a outro genocídio étnico. No Ruanda, a maioria hutu inicia a perseguição e massacre do grupo minoritário, os tutsi. Sebastião Salgado parte para o país e regista o momento. «Com o início do genocídio, milhões de pessoas abandonaram o Ruanda», lembra. Eram milhares e milhares em fuga. «Estes são os primeiros refugiados que saíram do Ruanda e entraram na Tanzânia». Ali, começam a instalar-se num campo na savana. «O campo tinha, no primeiro dia, cerca de 30 mil pessoas, uma semana depois eram quase um milhão». O fotógrafo conta que estas «populações tinham uma vida normal, viviam em equilíbrio, tinham uma casa, os filhos iam na escola, tinham trabalho… e de uma hora para a outra não tinham nada mais». Eram por isso «pessoas inteiramente assustadas» e ao mesmo tempo «totalmente plenas de dignidade». Procuravam um novo equilíbrio no meio da desgraça, uma nova forma de vida. «Cheios de interrogações, não sabiam o que ia acontecer-lhes, não sabiam se iam ter alimentação, assistência médica, nada. Era o seu primeiro contacto com o exílio. Um momento muito especial e muito duro».
Em 1983, soldados iraquianos sequestraram os homens de várias aldeias no Curdistão iraquiano. As famílias aguardam ainda pelo seu regresso. Beharke (1997)

Sebastião Salgado fotografou as vidas suspensas das mulheres de várias aldeias do Curdistão, cujos maridos tinham sido levados por soldados iraquianos, numa campanha contra esta minoria que provocou milhares de mortos. «É terrível. Esses homens foram assassinados pelo exército de Saddam Hussein [à data Presidente do país]. Foram levados e nunca mais voltaram», explica o fotógrafo. «Essas mulheres não podiam se casar porque 14 anos depois não havia prova da morte dos seus maridos». O fotógrafo relata como, quando se entrava nas aldeias, «grupos de mulheres buscavam todas as pessoas que chegavam». Traziam nas mãos os retratos dos homens que tinham sido levados , «para ver se, por acaso, alguém tinha visto estas pessoas». Eram momentos «duríssimos, momentos muito difíceis para estas populações todas». Hoje, duas décadas depois, alerta o fotógrafo, «o que está acontecendo lá é exactamente a mesma coisa».