Entrevista

“As actividades de ecoturismo marítimo são motores importantes da economia nacional”

Entrevista a Adriana Ressurreição, bióloga doutorada em economia azul e investigadora no Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), em Coimbra, e no Centro de Ciências do Mar, no Algarve.

“Para ter um impacto controlado no ambiente, o turismo marítimo requer um código de conduta e limites. É um sector extremamente importante, que precisa de ser quantificado, monitorizado e integrado de uma forma eficiente na gestão e ordenamento do território. Mas não tem funcionado desta forma.”

 

Não perca o debate Fronteiras XXI “Mais mar do que terra”, no dia 29 de Julho, às 21h45, na RTP3

 


Cada vez mais, os países devem procurar harmonizar o crescimento económico com a sustentabilidade ambiental. Mas alguns têm encargos maiores do que outros. É o caso de Portugal, que tem um território marítimo 18 vezes superior ao continental. “O grande desafio será gerir uma área de mar tão vasta, com tantas espécies e ecossistemas para proteger, mantendo aproveitamento económico”, diz a bióloga perita em economia azul Adriana Ressurreição. A investigadora do MARE e do CCMar alerta que “temos de crescer melhor, de forma sustentável e de acordo com as características culturais e sociais”.

 

A relação dos portugueses com o mar mudou, ao longo dos tempos?

Sempre fomos um povo muito ligado ao oceano, mas, sim, diria que a forma como nos relacionamos com o mar está a mudar. Nas últimas duas décadas, ganhou-se consciência que os oceanos são essenciais para a regulação do clima, para o bem-estar da sociedade e para a economia. Só que para tudo isso é preciso preservar os recursos marinhos.

 

Fez um estudo sobre o que as pessoas estavam dispostas a pagar para proteger a biodiversidade marinha. O que revelaram os resultados?

Este estudo, que envolveu os residentes dos Açores e de outros arquipélagos europeus, mostrou que o interesse em praticar actividades marinhas e por conservar os oceanos não está associado ao nível de escolaridade nem ao rendimento das pessoas. Depende mais da sua percepção de que o seu bem-estar está relacionado com o mar. Apesar de os açorianos terem o rendimento e o grau de escolaridade mais baixos – comparando com os habitantes das ilhas do Reino Unido e de Gdansk, na Polónia –, são os que estão mais dispostos a pagar para conservar a biodiversidade marinha.

 

Isso acontece porque conhecem melhor as espécies que vivem no mar?

Nalguns casos, essa poderá ser uma explicação. Nós fizemos outro estudo sobre literacia oceânica, para o qual entrevistámos residentes e visitantes dos Açores. E os habitantes com idades entre os 30 e os 40 anos e uma profissão associada ao mar têm mais literacia oceânica do que os visitantes. Não obstante, percebemos que o interesse por questões do oceano e o grau de conhecimento sobre o mesmo diferem de ilha para ilha. E uma grande percentagem da população não sabia que existem áreas marinhas protegidas nos Açores.

 

Um maior conhecimento sobre o mar está associado a comportamentos mais sustentáveis, por exemplo, ao nível do consumo?

Bom… Em 2012, os açorianos eram o segundo povo do mundo que mais consumia peixe – a seguir aos japoneses. Mas parece ter crescido uma percepção de que alguma coisa tem de mudar. Em 2010, fizemos um inquérito nos Açores sobre o que as pessoas estariam dispostas a abdicar para ajudar os ecossistemas e biodiversidade marinhos e era muito baixa a percentagem que pensava reduzir o consumo de peixe. Em 2018, repetimos o questionário e a diminuição do consumo de peixes e derivados já foi uma das medidas que teve maior apoio.

 

Portugal não só deixou de caçar baleias e golfinhos como passou a proteger estes animais. Vai acontecer o mesmo em relação a mais espécies?

Sim, agora, os antigos baleeiros dão apoio às embarcações que fazem observação de baleias – ou seja, transferiram o seu conhecimento para uma actividade não extractiva. Acredito que, com o desenvolvimento de mais projectos de ecoturismo marítimo, se comece a investir mais em áreas marinhas protegidas. Porque as duas coisas estão intimamente ligadas.

 

Que tipo de actividades caracterizam o ecoturismo marítimo?

Actividades como a observação de baleias e de golfinhos, o mergulho ou a pesca não extractiva – em que tudo o que se apanha é devolvido ao mar. São motores cada vez mais importantes da economia nacional, porque criam emprego e geram receitas significativas.  

 

Há oferta de ecoturismo marítimo em todo o país?

Sim, é um nicho que tem crescido nas ilhas e no continente. Mas, por exemplo, no Algarve não é tão promovido enquanto marca institucional como nos Açores. No Sul, a comunicação centra-se mais no clima fantástico e nas praias maravilhosas. Ao passo que, nos Açores, as actividades de ecoturismo marítimo já são exploradas há mais tempo. Mesmo o turista que visita os Açores é muito diferente daquele que viaja para o Algarve.

 

Qual é a diferença entre o turista que procura os Açores e o Algarve?

Quem visita os Açores, vai com o propósito de fazer actividades de ecoturismo marítimo. Fica, em média, 8 a 12 dias e faz observação de baleias, pacotes de dez mergulhos ou pesca não extractiva de grandes peixes pelágicos (como o atum ou tubarões). Ainda assim, só 30% das pessoas que visitam os Açores são consideradas ecoturistas dedicados. No Algarve, os turistas não praticam actividades de ecoturismo marítimo de forma dedicada nem têm tanta experiência.  

 

Quer dizer que o ecoturismo ainda pode crescer mais, em Portugal?

Crescer mais talvez não seja a resposta para todas as situações. Temos de crescer melhor, de forma sustentável e de acordo com as características culturais e sociais do local onde se desenvolvem. Temos de ter em conta que, embora estas actividades não sejam extractivas, podem ter impacto no ecossistema.

 

Falta regulação para o turismo marítimo?

Sim, particularmente no Algarve, onde a situação está descontrolada. Não foi feito nenhum estudo de capacidade de carga e continuam a surgir mais operadores turísticos. Para ter um impacto controlado no ambiente, o turismo marítimo requer um código de conduta e limites. É um sector extremamente importante, que precisa de ser quantificado, monitorizado e integrado de uma forma eficiente na gestão e ordenamento do território. Mas não tem funcionado desta forma.

 

A investigação científica desenvolvida em Portugal pode contribuir para uma estratégia sustentável?

Já contribui nesse sentido. O conhecimento que sai dos projectos de investigação informa quer as empresas, a sociedade, os utilizadores quer os decisores políticos. Mas o investimento na investigação está muito aquém das necessidades reais do País. Porque a investigação não produz resultados úteis de forma imediata. Frequentemente, demora mais tempo do que a urgência da actividade política exige.  

 

Que desafios enfrenta a economia do mar nacional?

O grande desafio será gerir uma área de mar tão vasta, com tantas espécies e ecossistemas para proteger, mantendo aproveitamento económico. Outro aspecto a ter em conta é que, antigamente, a economia do mar dependia da pesca. Neste momento, é alimentada por vários sectores que têm de se preocupar em conservar o oceano. Muitas vezes, geram-se conflitos entre sectores porque o desenvolvimento de um pode prejudicar o de outro.

 

A que sectores se refere?

As pescas, a aquacultura, o ecoturismo, a biotecnologia e a mineração. São os sectores que fazem parte da estratégia europeia para o crescimento económico. Por exemplo, na aquacultura temos de perceber onde poderá ser colocada no mar alto e insistir em métodos de produção que tenham menor impacto ambiental. A biotecnologia é um sector emergente e que tem implicações noutros sectores da economia e da sociedade – como a Medicina e a cosmética. Ainda não se faz mineração em águas portuguesas, mas há uma procura crescente de recursos.

 

O que é que falta ao país para proteger e aproveitar melhor o mar a seu cargo?

Falta trabalhar-se a literacia oceânica nas escolas e na sociedade, que ajudaria a mudar comportamentos no sentido de se fazerem escolhas mais sustentáveis. Além disso, é muito importante que a população saiba o emprego directo e indirecto criado pelas diferentes actividades ligadas ao mar, quais são e que rendimento dão.

 

 

 

Não perca o debate Fronteiras XXI “Mais mar do que terra”, no dia 29 de Julho, às 21h45, na RTP3